Os amigos descrevem-no como ‘um génio’. Os outros dizem que será indiscutivelmente um génio... do mal!” É um “ex-colaborador próximo”, que prefere não ser identificado, o autor destas palavras. O alvo, João Vale e Azevedo, é uma pessoa que dificilmente reúne consenso.
Envolvido em numerosos processos judiciais, alguns dos quais ainda em curso, foi como presidente do Benfica que mais se notabilizou na vida pública. E foi depois desta fase controversa da sua vida e da do clube que se iniciou o período negro da sua existência, durante o qual conheceu os calabouços da Judiciária e também a reclusão no próprio lar.
João António Araújo Vale e Azevedo é o terceiro filho de uma família da região de Torres Novas. O pai, João António Cândido da Cunha Vale e Azevedo, apesar da sua ascendência aristocrática, educou os filhos numa certa austeridade e o jovem João, ‘Jica’ para os mais próximos, cresceu num apartamento “perfeitamente normal, ali para os lados do Técnico”, recorda um antigo colega de faculdade.
Talvez por ter sido habituado a viver sem luxos, começa cedo a trabalhar e paga os seus estudos. Com o ordenado ganho numa firma de recortes de jornais, compra um Volkswagen Carocha, tornando-se um dos raros estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa – onde entrou nos conturbados anos da revolução, depois de completados os estudos secundários no Colégio de S. João de Brito – a se deslocar em viatura própria.
Já então ‘Jica’ se destacava de entre os colegas: “Era uma pessoa que se notava. Evidenciava uma capacidade de trabalho impressionante”, afirma o advogado Jorge Bleck, que o conhecia dos anfiteatros da Faculdade e também do então PPD, no qual Vale e Azevedo ingressou em 1974. Foi ‘um funcionário do partido’ e não se lhe conhece actividade política na época. Mais tarde, contudo, foi assessor jurídico do governo de Pinto Balsemão.
Mas João Vale e Azevedo estava talhado para os negócios, daí que recusasse um convite para um cargo público e preferisse estabelecer-se por conta própria, pouco depois da queda do Governo. Em 1983, montou o seu primeiro escritório na Avenida Praia da Vitória, em Lisboa. Jorge Bleck ainda acompanhou os primeiros dois ou três anos da sua “subida fulgurante” e assistiu ao seu rápido enriquecimento.
Os jovens advogados faziam então parte do mesmo grupo de amigos. Depois distanciaram-se e o advogado passou a ouvir falar de Vale e Azevedo, apercebendo-se das invejas que este ia suscitando no meio por causa de “carros, quintas, etc”. Não lhe causava estranheza o sucesso do colega: “Era um empreendedor nato. Mas uma coisa eu sabia: não era da advocacia. Não para aquele nível que ele ostentava”. Contudo, Bleck não suspeitava de quaisquer actividades ilícitas, sabendo como sabia que João Vale e Azevedo entrara “no ramo imobiliário”...
O prestígio e a fortuna do advogado e empresário crescem exponencialmente durante os quinze anos que seguem. A sua reconhecida “capacidade de trabalho” traz-lhe sucessos em catadupa. Em 1995, instala-se na Avenida da Liberdade. A mulher, Filipa, acompanha-o. A Sociedade de Advogados João Vale e Azevedo e Associados expande-se para Paris, Genebra, Londres e Luxemburgo. A família – João, Filipa e os dois filhos, Francisco e João – vive numa luxuosa quinta em Almoçageme, perto de Sintra.
Nos tempos livres, pratica desportos radicais com os filhos e usa o barco da Sojifa, a empresa que criou com a mulher. Mais tarde, o seu gosto pelos barcos veio a causar--lhe dissabores, devido às dúvidas em relação à proveniência do dinheiro utilizado na compra do iate ‘Lucky Me’.
É neste contexto que o advogado resolve, em 1996, candidatar-se ao lugar de presidente do Sport Lisboa e Benfica. Permanece um mistério o motivo que o terá levado a enveredar por uma área que “claramente não era a dele”, como afirma um colaborador da época.
Após uma primeira derrota, frente a Manuel Damásio, é eleito em 1997. Logo à chegada, impõe o seu estilo, que veio, segundo membros da sua equipa, e benfiquistas que analisam retrospectivamente o seu percurso, a custar-lhe caro. Na tomada de posse, distingue-se dos antecessores por não convidar membros do Governo nem figuras do Jet-Set.
Prefere encher o estádio do “povo benfiquista”, como recorda José Capristano, seu vice-presidente para a área desportiva. Logo a seguir, rompe os contratos com a Olivedesportos, arranjando assim “uma carga de problemas”, segundo o seu ex-assessor Fausto Pires.
Opinião partilhada por muitos dos que o conheceram e até por observadores externos, como é o caso do jornalista Alfredo Farinha, que estudou os processos que opuseram o ex-dirigente ao seu próprio clube e continua “convencido até hoje de que é inocente”. O jornalista ficou impressionado com Vale e Azevedo, que lhe transmitiu a imagem de “um benfiquista convicto. Saíam labaredas vermelhas de dentro dele.”
O mandato chega ao fim em 2000. Apesar das inimizades causadas pela sua forma autoritária de liderança e por posições nem sempre consensuais, como a rescisão com João Pinto, várias são as vozes dentro do Benfica que afirmam ter sido ele a recuperar as finanças do clube. A jornalista Leonor Pinhão classifica-o como “grande benfiquista” e não tem dúvidas ao afirmar que “o voltaria a apoiar em todas as posições estratégicas que tomou enquanto dirigente”. Fausto Pires vai mais longe: “Se não tivesse sido ele, o Benfica tinha fechado a porta”.
Contudo, é enquanto presidente do clube que Vale e Azevedo principia a sua queda. Alegadas irregularidades com a transferência de jogadores a par dos maus resultados desportivos valem-lhe a perda de credibilidade junto de adeptos e opositores. É derrotado em Outubro de 2000 por Manuel Vilarinho.
Em Fevereiro do ano seguinte, é detido preventivamente e, mais tarde, condenado a quatro anos e meio de prisão por ter desviado para a sua conta pessoal uma verba de 190 mil contos – pouco menos de um milhão de euros – relativa à transferência do guarda-redes Ovchinnikov.
“Vítima de uma armadilha” para uns, “bode expiatório” para outros, e ainda “mitómano que acredita piamente em todas as mentiras que diz”, Vale e Azevedo causa desconforto a muitos dos que acompanharam a sua ascensão e queda. Mas quase todos concordam no que diz respeito às suas qualidades: trata-se de uma “personalidade fascinante”, um “sedutor nato”, um “trabalhador incansável”, um “marido exemplar e pai extremoso”.
Fausto Pires, que nunca o abandonou, nem mesmo quando o advogado se encontrava a cumprir pena no Estabelecimento Prisional da PJ, remata sem hesitações: “É uma pessoa extremamente inteligente. Demasiado inteligente para este País”.
"A verdade real é bem diferente da verdade vendida, que só comprou quem quis."
“Os dirigentes do Benfica têm feito tudo para que eu esteja nesta situação.”
"Na Nigéria há doenças muito perigosas como o tifo e a malásia."
“O nome ‘Vale e Azevedo’ tem sido um bom detergente para lavar tudo o que de mal acontece no Benfica e fazer esquecer tudo o que de bom não acontece e tão prometido foi (...) Chega a ser doentio. É a síndroma do ‘Vale e Azevedismo’.”
"Não cometi nenhum crime, não falsifiquei nenhum documento, não branqueei nenhum capital e não me apropriei indevidamente de nenhuma verba."
“Um escudo é um escudo.”
"Foram ultrapassados todos os limites de humanidade, em benefício do ódio, da vingança e da malvadez."
A HISTÓRIA DOS TRIBUNAIS
UM ROL DE PROCESSOS
O advogado Vale e Azevedo colecciona processos... na qualidade de arguido. Depois de ter cumprido cerca de metade da pena de seis anos e meio a que foi condenado por cúmulo jurídico nos casos Ovchinnikov e Euroárea, o ex-dirigente do SLB arrisca mais quatro anos no âmbito do processo Ribafria, que envolve dois empresários do sector da cortiça. Em Novembro, Vale e Azevedo foi condenado a sete anos de cadeia por burla ao empresário Dantas da Cunha, mas recorreu para o Tribunal da Relação. Vale e Azevedo, que se encontra envolvido em julgamentos sucessivos desde o início de 2001, tem ainda um processo pendente relativo à transferência do jogador Fernando Meira. Vale e Azevedo viu a sua licença de advogado suspensa pela Ordem por um período de dez anos e perdeu o direito de sócio do Benfica.
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