O incêndio da SAPEC pôs Setúbal a respirar dióxido de enxofre. Depois do sinistro, fomos ver os principais pontos negros no País.
Logo em 1910 Veiga Beirão, amigo pessoal de Alfredo da Silva, em visita às fábricas do Barreiro, dá-se conta das mudanças. Referindo-se às grandes chaminés que ora marcavam o perfil do Barreiro, assinalava o ‘odor horrível das emanações químicas que se espargem no ar…’, provocadas pelo pulsar do gigantesco colosso industrial, em permanente ebulição. Na verdade, nada voltará a ser como antes na antiga vila piscatória e nem sequer o rio, com a sua variada fauna marítima, escapa à destruição, provocada pelos líquidos e lamas, resultantes dos fabricos químicos", este excerto está incluído em ‘Industrialização em Portugal no Século XX, O Caso do Barreiro’, publicado em 2008 pelo centenário da CUF, com coordenação de Miguel Figueira de Faria e José Amado Mendes, - livro em que se alude também à SAPEC (Société Anonyme de Produits et Engrais Chimiques) que desde 1928 produzia superfosfatos, na Mitrena, em Setúbal.
Pelas três horas da madrugada de terça-feira, 14 de fevereiro último, um incêndio deflagrou na SAPEC, no parque industrial da Mitrena em Setúbal, e quando houve a previsão de que os ventos iam mudar e a coluna tóxica dirigir-se para a cidade de Setúbal, soaram os alarmes. O incêndio nos armazéns de enxofre da SAPEC Agro, extinto na quinta-feira seguinte de manhã, provocou ferimentos ligeiros em 20 pessoas. As escolas da zona tiveram de fechar. No dia 17, a Autoridade Marítima admitiu que a água usada no combate ao incêndio poderá não ter sido totalmente contida no perímetro do sinistro e que pode ter chegado ao Sado, com resíduos de enxofre e do material utilizado para extinguir as chamas. "Deve fazer-se o apuramento da responsabilidade civil e perceber o que correu mal, mesmo a nível das entidades públicas porque houve subvalorização do ocorrido: o vento mudou e tivemos picos de poluição em Setúbal 503 microgramas por metro cúbico de dióxido de enxofre, quando o limite é de 350. Em Paio Pires 709, 781, na quarta- -feira de madrugada. A unidade móvel da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) não chegou a medir os níveis no Faralhão que, no momento do acidente, deve ter sido uma zona bastante afetada. Essas populações têm ser acompanhadas pela Direção-Geral de Saúde (DGS), a nível respiratório e cutâneo", diz Carla Graça, vice-presidente da associação ambientalista Zero sobre o sinistro na Mitrena, zona onde além da SAPEC, que produz adubos e produtos químicos, desenvolvem atividade outras empresas como a central térmica, de produção de energia elétrica a partir de fuelóleo, construída e explorada pela EDP, e a Portucel, de fabrico de pasta de papel, ali onde outrora desempenhou um papel fundamental a extração de sal.
Pontos negros
Investigador e professor universitário, Filipe Duarte Santos foi em 1991 coordenador do primeiro e único Livro Branco do Ambiente em Portugal. No seu gabinete na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa conta que, depois do incêndio de 1987, o edifício construído no final dos anos 80 tinha previsto painéis solares, que levaram "um quarto de século até serem construídos". "O C1 onde estamos agora e também o C2, que são os mais antigos, foram planeados para painéis solares mas por impedimentos vários e burocracias não foi possível; um pouco à semelhança do País."
Em 1991, no ministério estava Fernando Real, era secretário de estado Macário Correia, quando se reuniu um grupo de pessoas, na maioria de universidades, para traçar o panorama do ambiente em Portugal. A novidade não se voltou a repetir e a missão daqueles está agora entregue à administração central. "A situação era então diferente e devo dizer que progredimos em questões ambientais, nomeadamente na qualidade da água, com as ETAR. O que acontece agora é que, muito embora tenhamos boa legislação, a verificação da sua aplicação é algo que, na nossa cultura, é difícil", diz o catedrático que, nos últimos anos, se tem dedicado às alterações climáticas, capítulo em que Portugal tem sido também bom aluno e paradoxalmente, também por ter tido um fraco desenvolvimento económico.
Carla Graça, que pertence ao núcleo que veio da Quercus para fundar a Associação Zero, no final de 2015, vai mais longe que o catedrático: "Temos muitos pontos negros no ambiente em Portugal. Temos indústria que lança partículas para a atmosfera, supostamente dentro dos parâmetros legais, mas como não é sujeita a medição desde 2011 não sabemos - é um exemplo. Há também dificuldade em fazer prova. No caso da poluição da água, por exemplo, em que são necessárias amostras compostas ao longo de 24 horas, e em que não há o número necessário de efetivos, o que se faz é ir embora e voltar 24 horas depois para recolher a amostra, sem prever que possa existir manipulação das mesmas. Isto é um clássico", diz a agora vice-presidente da Zero.
"Depois há casos de empresas que preferem pagar coimas porque é mais fácil e barato do que pagar os sistemas necessários à laboração dentro dos parâmetros ambientais. Há um clima de impunidade, principalmente de empresas com alguma dimensão. Isto por um lado, por outro está, por exemplo, o setor da suinicultura agora em crise e em que ninguém quer mais uma vez tocar. Setor que opera com lagoas para fazer a maturação dos resíduos, para fazer depois o espalhamento nos solos, mas o que acontece é que espalham os resíduos que não estão devidamente estabilizados; e outras vezes – que é o acontece recorrentemente na ribeira dos Milagres – quando as lagoas já não têm capacidade, fazem descargas nos cursos de água. O problema é antigo e tem a ver com a prova de que é aquele suinicultor e não o vizinho do lado, é ainda preciso haver uma testemunha direta, se não houver flagrante delito.", conta à ‘Domingo’ Carla Graça que à dificuldades da legislação acresce a crónica falta de efetivos para a fiscalização.
Em meados de 2016, durante o debate na especialidade do Orçamento do Estado, o ministro João Matos Fernandes tinha dito que num "futuro próximo", as empresas e entidades apanhadas em infrações ambientais passarão a constar de um cadastro nacional. Outra das novidades anunciadas então por João Matos Fernandes, ainda fresco na pasta do ambiente, foi o reforço da autoridade inspetiva com inspetores. O mapa de pessoal da IGAMAOT incluía 132 funcionários, 91 dos quais inspetores. Porém, apenas 75 destes últimos lugares estavam ocupados. Com a entrada dos 16 elementos, o mapa ficaria preenchido. Tinha dito em 2016. Esta semana, na Assembleia da República, Matos Fernandes e para responder à falta de vigilantes da natureza, tanto apontada pela oposição como pelos ambientalistas, anunciou que vai publicar o concurso para a contratação dos primeiros 20 e que até ao final de 2017 inicia um novo processo para 50.
No mapa dos casos crónicos (ver info) de incumprimento ambiental, as pedreiras têm destaque: "A da Serra d’ Aire está sempre a ser licenciada. Na Arrábida, foi prologado o prazo da extração em profundidade, portanto nem sequer é por tempo de vida útil, mas por volume - e não sabemos quanto tempo pode ainda durar", diz Carla Graça que chegou a assistir numa reunião ao espanto das entidades internacionais encarregues de avaliar a candidatura à UNESCO da zona de parque natural.
A Expo’98
Engenheiro do ambiente especializado em resíduos, Rui Berkemeier aponta ainda para o facto de existirem pedreiras "autorizadas a receber resíduos inertes para recuperação paisagística. Só que muitas vezes quando recebem resíduos, estes não são analisados de forma correta". O perigoso "é classificado como não perigoso e o não perigoso como inerte, num processo de autocontrolo em que é a empresa que faz a sua análise e o estado confia."
E com o bom objetivo que é recuperar paisagisticamente uma pedreira "permite-se todo tipo de resíduos, inclusivamente os recicláveis", diz o engenheiro. "Não faz sentido pôr em buracos, os resíduos de construção e demolição - os entulhos - que têm aplicação em novas obras. Mas quando se coloca em pedreiras não se paga a taxa que se paga quando se leva para tratamento adequado", explica Berkemeier, para quem os terrenos da Parque Expo são prova de um País que não estima o seu próprio chão. "Em 1994, a Parque Expo disse que os solos estavam descontaminados. Mas não é bem assim. No ano passado, com a construção do parque de estacionamento do Hospital CUF Descobertas, percebeu-se que há solos contaminados por se escavar a 16 metros de profundidade, no coração da bolsa de hidrocarbonetos da refinaria que existia ali. A Parque Expo já não existe e como não há legislação que obrigue na venda dos terrenos a uma análise aos solos - o que cria problemas vários em todo o País - não me parece que se possa esclarecer essa situação. Em setembro, as pessoas queixavam-se de cheiros a químicos, ou seja compostos voláteis libertados pelos hidrocarbonetos, resíduos de óleos, gasolina e por aí fora que, em contacto com o ar, libertam compostos voláteis que são cancerígenas e tóxicos", diz a propósito de uma descontaminação feita há 22 anos, numa altura em que Portugal não tinha aterro para resíduos perigosos.
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