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Correio da Manhã

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Cartas marcadas

‘House of Cards’ É exemplar nos diálogos e nas interpretações de Kevin Spacey e Robin Wright, o casal disposto a tudo para manter o poder na américa de hoje
Joana Amaral Dias 14 de Março de 2016 às 11:08
Em 'House of Cards' tudo é sexo
Em 'House of Cards' tudo é sexo
Entre as muitas tiradas tipo lâmina de bisturi, há uma que marca ‘House of Cards’: "Tudo é sobre sexo. Exceto sexo. Sexo é sobre poder". A série vive de uma conceção pessimista da natureza humana, próxima de encarar os políticos como canibais dispostos a tudo para chegar ao topo da cadeia alimentar. Esse apetite pelo sangue é bem encarnado pelas duas personagens centrais: Frank e Claire Underwood. Ou melhor, pelas três personagens centrais: Frank, Claire e o respetivo casamento. Ele é um soberbo manipulador sem escrúpulos, o anti-herói acabado que fornece, em carne e osso, amplo exemplo das teorias políticas de Hobbes, Maquiavel ou Confúcio. Ela é uma dama de gelo macbethiana. Rei e Rainha dominam o tabuleiro. Há quem diga que o seu laço conjugal se inspira na poderosa dupla Bill e Hillary Clinton, um casal público desde 1976. Sim, Frank tem origens mais humildes, tal como o ex-presidente dos EUA, enquanto Claire é oriunda de um meio mais privilegiado, como a atual candidata à Casa Branca. E sim, os Clinton são também um casamento pessoal, profissional e político que junta e une duas pessoas numa relação amorosa e sexual mas também na sua ambição. Seja como for, a verdade é que o singular matrimónio de Frank e Claire é comparável a uniões mais antigas, a outros casais de poder históricos: Cleópatra e Marco António, Henrique VIII e Ana Bolena, Evita e Juan Péron. E sim, a todos esses casamentos aplica- -se a máxima: "Tudo é sobre sexo. Exceto sexo. Sexo é sobre poder".

A série
O sucesso de ‘House of Cards’ residirá no facto de ser uma série muito bem escrita, com alguns diálogos extraordi- nários (bem como os monólogos que Frank, procurando também manipular o próprio espectador, mantém dire-tamente com a câmara) e bem interpretada. Mas o seu êxito mora, igualmente, no ajuste perfeito que faz com a era pós-esperança, pós-Obama. Ou seja, com o seu ouvido apurado para os aspetos corruptos da política, cen-trando-se em go- vernantes moralmente falidos e mais oportunistas que fungos, ‘House of Cards’ traça um retrato de como a política pode ser e não como nós gostaríamos que ela fosse. Ou seja, vem ao encontro de um sentimento generalizado, desencantado, mas também mais exigente, de que a política facilmente alberga tubarões famintos e ganâncias pessoais, sendo que compete ao comum cidadão ter uma visão desapaixonada mas também mais crítica e menos tolerante dos agentes políticos e suas escolhas. Talvez há uns anos este retrato do centro do poder fosse visto como um exagero, uma exceção feita regra, uma caricatura. Hoje é sentido por muitos como o correr da cortina e o levantar do véu, como a revelação de como a política realmente é. ‘House of Cards’ é entretenimento, do bom, mas é experimentado por muitos quase como um serviço público, a manifestação e expressão de um universo que o jornalismo não pode provar mas que a ficção demonstra à saciedade. Dizia o poeta americano Ralph Waldo Emerson que a ficção revela verdades que a realidade obscurece. Nem mais.  

Exibição: TVSeries

filme
‘O Filho de Saul’
O holocausto é um tema inesgotável, mas este pode ser um dos melhores filmes alguma vez realizado sobre este tema. Para o público, é o enésimo sobre o massacre.
Para o realizador, é a primeira obra. Vale a pena ficar de olho.
realizador László Nemes (óscar para melhor filme estrangeiro em 2016)
Intérpretes Géza Röhrig
Levente Molnár, Urs Rechn,
Sándor Zsótér, Christian Harting
género drama
exibição cinemas

filme
‘O Quarto’
História, inspirada no ‘best-seller’ de Emma Donoghue e, infelizmente, em casos reais, de uma mãe raptada e violada que cria o filho dessa relação trancada num quarto durante sete anos. O mais doloroso é sentir como a liberdade é, depois da prisão, tão ou mais aterradora do que o encarceramento.
realizador Lenny Abrahamson
intérpretes Brie Larson (óscar melhor atriz 2016)
género drama
exibição cinemas

Filme
‘Assalto a Londres’
Se quer assistir a bom entretenimento com um elenco de primeira, tipo boa série B com elenco triplo A (atores como Gerard Butler, Aaron Eckhart, Morgan Freeman), eis o filme ideal. Se não exigir mais do que isso – satisfação garantida.
Realizador Barak najafi
intérpretes Gerard Butler,
Morgan Freeman, Angela Bassett, Aaron Eckhart, Charlotte Riley
género thriller
exibição cinemas

Fugir de:
‘Cavaleiro de Copas’
Sou uma espectadora devedora da obra de Malick, designadamente de ‘Badlands’, Dias do Paraíso’ e ‘A Barreira Invisível’. Por isso mesmo, não há como perdoar estes seus últimos trabalhos, especialmente este tonto ‘Cavaleiro’. A longa- -metragem pouco passa de um acumular algo pretensioso de planos e coisas que se juntam sem que o todo seja mais que a soma das partes. Bolas..
realizador Terrence Malick
Intérpretes Christian Bale, Cate Blanchett, Natalie Portman



Hobbes Maquiavel Hillary Clinton Casa Branca
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