A cantora brasileira Daniela Mercury e a mulher, Malu Verçosa, trocaram alianças e contam em livro a história de amor
Imagine a tragédia! Uma mulher escolhendo um vestido para casar já é uma loucura. Mas duas é tarefa capaz de fazer qualquer pessoa se internar num hospício." A tarefa foi de tal forma complexa que os vestidos de noiva de Daniela Mercury, de 48 anos, e Malu Verçosa, de 37 - agora, Daniela Verçosa e Malu Mercury - só foram escolhidos dez dias antes do casamento pelo civil entre a cantora baiana e a jornalista. Este e outros episódios partilhados pelo casal gay são parte do livro escrito pelas duas protagonistas e editado em simultâneo no Brasil e em Portugal, pela Casa das Letras (Leya).
Partindo do momento em que decidiram comunicar a relação - e todas as dúvidas, medos e inseguranças associados -, as autoras viajam no tempo e relembram o dia em que se conheceram, como se apaixonaram e as dificuldades que enfrentaram na luta pela aceitação desta união. "Apaixonadíssimas, preferíamos os lugares fechados onde pudéssemos nos olhar nos olhos com ternura a muito amor (...) Foi nesse clima de paixão intensa que decidimos fazer o que já sentíamos vontade desde o primeiro beijo: trocar alianças, casar (...) Confesso que em muitos momentos não sabíamos em que parte do dia estávamos! Uma confusão danada no nosso corpo, nos nossos pensamentos. Um torpor amoroso: anestesiadas de paixão e tesão."
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Estavam em Paris, "a cidade dos protestos contra o casamento gay recém-aprovado na França (...) Em alguns momentos, eu sentia medo de sermos alvo de algum tipo de preconceito, mas foi em Paris que ela [Daniela Mercury] tocou meus lábios com os dela num lugar público no meio de uma rua deserta. Estávamos perdidas, tentando chegar ao hotel, quando ela me parou, me empurrou contra um muro e me deu um beijo daqueles de tirar o ar, de encher o corpo de emoções (...) Naquela noite pensei: ‘Essa maluca está disposta a tudo mesmo. Ela não está blefando'", recorda Malu no livro.
Foi também na Cidade Luz que compraram as alianças. " O vendedor ainda não se tinha dado conta de que estava vendendo alianças para um casal de mulheres. Ele achou que uma de nós ia casar e estava escolhendo a aliança. Quando decidimos que era aquela, ele pediu a numeração. Eu e ela esticámos os dedos para ele ver o tamanho. Foi aí que ele entendeu que nós éramos um casal. O rapaz ficou visivelmente constrangido com a gente. Percebemos e começámos a rir e a falar em português. Ele, coitado, não sabia o que fazer. Não sabia se colocava em uma caixa apenas, se colocava em duas. Não fazia ideia de como agir. Nós duas saímos gargalhando."
ANÚNCIO NA REDE
Foi através da rede social Instagram que a cantora anunciou ao mundo a relação com Malu, uma mulher, depois de vários relacionamentos públicos com homens. Nesse dia (abril deste ano) estavam em Portugal, onde Daniela Mercury ia dar dois concertos, em Lisboa e no Porto. Quem viu a partilha nesse dia não imaginava a dificuldade que as duas tiveram a escolher a melhor forma de anunciar a relação. No início pensaram fazê-lo através de um vídeo. "[Mas] nos sentimos expostas de mais. E foi neste momento que o impasse virou uma discussão, um desentendimento. A briga fez com que ela acendesse um cigarro e me fez ir para a cama sozinha, triste (...)", recorda Malu. Certo é que o anúncio - ainda que através de fotografias - acabou por seguir no dia seguinte e a zanga dissipou-se.
A cantora e a jornalista conheceram-se em 2007. Malu era a responsável pela gravação dos especiais com os artistas para a cobertura do Carnaval da TV Bahia. "Sempre achei Daniela linda, mas nunca sequer passou pela minha cabeça namorá-la (...) O nosso primeiro encontro aconteceu na casa em que moramos hoje, no Bairro de Piatã, em Salvador. Ela desceu linda (...) Lembro da blusa de seda que ela usava no dia (...) Lembro que Daniela, em vários momentos, me olhou de cima a baixo", recorda Malu. "Sonhei com Malu tantos dias que até achei que estava apaixonada, mas como ter a certeza? (...)", relata Daniela. Uma mensagem da cantora para a jornalista desatou o nó. "Escrevi para ela: ‘Todo silêncio é música em estado de gravidez'. E ela respondeu: ‘Então eu vou parir uma orquestra'".
Da primeira à última página do livro, o leitor pode contar com muitas declarações, em forma de prosa, poesia e letras de canções. Há também recados e as leituras do casamento. "A semana que antecedeu o casamento me transformou. Nem eu esperava que aquilo tudo mexesse tanto comigo. Juntou a ansiedade, uma dieta de proteína (essa é de matar), uma TPM (nunca tenho!!!), o nervoso, os preparativos e o medo de casar e mudar de nome (...) Nunca havia discutido tanto com Daniela. Ela também estava nervosa, mas eu era a pior pessoa que tinha sido durante toda a minha vida. Eu e ela conseguimos superar isso também. E, depois daquela semana, tenho certeza que não há nada que me separe de Daniela", escreveu Malu, que ganhou dois enteados e três filhas (adotivas da cantora). "Uma com três aninhos, outra com 12 anos e a mais velha com 15 (...) Eu, marinheira de primeira viagem, tive trigémeas sem engravidar." Para a jornalista, o grande desafio - escreve - foi sair do apartamento onde morava. "Desde os 17 anos eu morei sozinha. Casei duas vezes, mas nunca saí do meu apartamento (...) Chegar a uma casa que você não conhece tão bem, que não sabe onde estão os copos, pratos, onde deve colocar a roupa para lavar, onde tem champô, as coisas mínimas, é enlouquecedor para quem sempre foi dona da sua casa. Não conseguia nem ligar a televisão. Sofri muito", descreveu sobre os primeiros tempos de casada. Quase no final das 191 páginas do livro, Daniela recorda aquilo que lhe disse a neta [do filho mais velho, Gabriel] certo dia. "Clarice viu Malu me beijando na boca e me perguntou rindo: ‘Tia Malu é casada com vovó Dam Dam? Eu disse: ‘Sim'. Então, ela perguntou: ‘Mas não é menino com menina?' Eu disse: ‘É menino com menina, menino com menino ou menina com menina'".
POLÉMICA NO BRASIL
O casal acendeu o debate sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo, não só na cabeça da neta Clarice mas também na opinião pública brasileira. "Percebemos que a nossa história tinha uma força muito grande. Acho que foi ali também que o ‘gigante' das manifestações que aconteceriam meses depois no Brasil começou a acordar", escreveram no livro. O país vivia, precisamente na altura do anúncio da relação do casal, "um momento de repúdio ao presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados, o pastor Marco Feliciano", que havia proferido "declarações absurdas sobre negros e gays".
No dia seguinte estavam "nas capas de grandes jornais e éramos notícia em todos os media do Brasil. Eu estava assustada, apavorada, enlouquecida de pânico (...)", lembra Malu. Poucos meses depois de terem decidido ficar juntas, o Brasil passou a permitir o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. No dia 12 de outubro disseram ‘sim' uma à outra. "As duas estávamos uma pilha (...) Muito antes do despertador tocar, já estava com os olhos abertos. Ansiosa e nervosa. Coisas de noiva, dizia Daniela. E ria como sempre".
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