Há impostos a mais, mas o sector goza de um fôlego impressionante. São palavras de Mário Assis Ferreira, administrador do Casino do Estoril, numa altura em que se discute a instalação de um monumento ao jogo no Parque Mayer, em Lisboa.
Os oito casinos de Portugal tiveram, em 2001, receitas brutas de 274 milhões de euros (55 milhões de contos). Deste montante, metade foi entregue ao Estado pelas empresas concessionárias, como determina a lei do jogo. Esta verba, no entanto, podia ser substancialmente superior, dado que, segundo Assis Ferreira, presidente do Casino Estoril, há mais de 500 milhões de euros que circulam fora do circuito legal, através da Internet e de salas clandestinas.
Apesar destes problemas, o presidente do casino com a maior sala de “slot machines” da Europa assegura que os casinos portugueses estão de “boa saúde”, ao contrário do que sucede na maioria dos outros países europeus. Assis Ferreira recorda o que sucedeu em 1987, ano em que começou a cair o conceito “anquilosado” de a deslocação às salas de jogo servir apenas para satisfazer o “vício”.
“De 1927, ano em que foi instituído o jogo em Portugal, até 1987, os casinos limitavam-se a ser salas de jogos com serviços anexos, tal como se fazia na Europa. Com o Casino Estoril como pioneiro, passou a equacionar-se o pendor cultural, de espectáculo e animação, sem nunca perder de vista o facto de jogo ser a grande actividade lucrativa”, diz, frisando que tal conceito foi assimilado por todos os casinos portugueses. “O que dantes era só jogo transformou-se em ‘shopping centers’ de lazer. Ou seja, centros de animação integrada, em que vários espaços lúdicos coexistem com o jogo.”
A partir de 1987, o jogo passou portanto a ser interpretado como um “hobby”, “despido do vício e de toda a mistificação inerente a um conjunto de preconceitos que ao longo dos séculos se foram anquilosando”. “Nesse mesmo ano, aliás, o Casino Estoril apresentou um espectáculo de reconhecida qualidade, chamado ‘Cabaret, ao qual se seguiu o desenvolvimento para uma saga de grandes espectáculos, como ‘Viva Mozart’, ‘Dali’, ‘Os Heróis e o Mar’, “Lisboa em Pessoa’ e ‘Tempo’”, acrescenta Assis Ferreira.
APOSTAS DIVERSIFICADAS
Apesar de o Casino Estoril ter mudado o panorama do jogo em Portugal, Assis Ferreira garante que o modelo não foi importado de Las Vegas, nos EUA. Justifica tal posição com as diferenças entre os casinos europeus e americanos. “Os públicos alvos nada têm a ver um com o outro. Em Las Vegas, o grau de permanência dos frequentadores ronda os quatro dias. Na Europa, é tudo muito mais estável e dependente da proximidade. No entanto, não nego que o Casino Estoril tenha recorrido a coisas que funcionaram no estrangeiro, embora com a respectiva adaptação aos hábitos sociológicos dos portugueses. Só que o efeito curiosidade tem de ser constantemente actualizado, antes que a habituação lhe roube o mérito”, explica.
E, para haver uma “constante actualização”, Assis Ferreira enumera os “truques” a que o Casino Estoril tem recorrido: grandes galas internacionais, noites temáticas, concertos gratuitos e edição de revistas, como a Egoísta. Mas, afinal, o dinheiro do jogo dá para tudo e mais alguma coisa? “O dinheiro do jogo em Portugal é o mais tributado do Mundo: cinquenta por cento da receita bruta vai direitinha para o Estado. Mesmo assim, podemos fazer aquilo que estamos a fazer, embora também seja certo que, para investirmos em actividades fora do jogo, cortemos nos lucros e nos dividendos a distribuir pelos accionistas.”
Segundo Assis Ferreira, é esta posição dos accionistas que impede que haja outros casinos na Europa a seguirem o Estoril. “Só em Monte Carlo é que há algo parecido. E é só durante três meses por ano, entre Julho e Setembro. A nossa política, todavia, é a correcta. Prova disso é que só em Portugal é que os casinos tradicionais estão a crescer e no resto da Europa estão quase todos em decadência. Perante tal quadro, já há casinos no Leste da Europa que estão copiar o que se faz em Portugal.”
SAÍ DO FUNDO DE UM POÇO
Miguel Carvalho é empresário, mora em Cascais e tem 30 anos. Dos 16 aos 28 foi um jogador inveterado. Perdeu milhares de contos, a família e aos amigos.
CM - Que idade tinha quando começou a jogar?
MC - Aos 16. Fui a uma sala de bingo e ganhei. Comecei com 500 escudos e, ao fim de uma hora, já tinha cinco contos.
CM - O que sentiu?
MC - Uma sensação de invencibilidade.
CM - A partir daí...
MC - …passei a frequentador assíduo. Como continuei a ganhar, pensei mesmo que podia viver do jogo.
CM - Tardaram muito os primeiros desaires?
MC - A sorte de principiante acabou cedo.
CM - Mas você continuou…
MC - Tinha de ser. No bingo e nos jogos de pano verde. Depois dos percalços iniciais, pensei que, se arriscasse um pouco mais, a probabilidade de inverter o saldo negativo seria maior.
CM - Enganou-se.
MC - Redondamente. E pedi o meu primeiro empréstimo bancário: mil contos. Seguiram-se mais oito.
CM - Foram só empréstimos bancários?
MC - Não. Em onze anos, contraí mais 37 ilegais. A taxa semanal situava-se entre os 10 e os 30 por cento. Sempre de um casino para o outro, de agiota em agiota. Perdi milhares de contos.
CM - Como define o vício do jogo?
MC - É uma droga. À mínima insistência qualquer pessoa fica agarrada.
CM - Porquê?
MC - O sentimento, as sensações, o ambiente, a tensão e ansiedade com que se vive o jogo são apaixonantes. Chega-se ao ponto de julgar que, com o jogo, resolvemos todos os problemas. Eu pensava poder comprar o perdão de tudo quanto fazia de mal com uma boa jogada.
CM - Mesmo o dos familiares?
MC - É evidente. Dei cabo de inúmeras relações, perdi o respeito dos amigos, perdi tudo. Estive à beira do suicídio.
CM - Está em recuperação há dois anos. Já teve recaídas?
MC - Limitei-me às “slot machines”.
CM - Pediu para lhe interditarem o acesso às salas de jogo?
MC - Pedi, mas se quiser, entro. Basta pedir um BI emprestado. E também posso dar um salto a um casino espanhol.
CM - Vai aguentar?
MC - Não é fácil viver sem o jogo. Por vezes sinto-me como um ex-recluso. Todavia, mediante a integração na minha vida familiar, profissional e social, tenho encontrado formas de prosseguir um estilo de vida de reintegração e recuperação.
RAIO-X CASINOS
CASINO DA PÓVOA
Principais accionistas: Estoril Sol, SGPS, SA.
Concessionária: Varzim Sol, Turismo, Jogo e Animação, SA (capital social de 20 milhões de euros).
“Slot machines”: 737.
Prémios diários: 343 074 euros (acumulado a 29 de Setembro).
Maior “jackpot”: Express Link (299 mil euros, agrupando as máquinas dos casinos do Estoril e Póvoa e podendo ser atribuído em qualquer um dos dois).
Jogos: roleta francesa, banca francesa, ponto e banca e “black-jack”.
Empregados: 497.
Receita bruta em 2001: 51 milhões de euros.
Impostos em 2001: 25, 5 milhões de euros.
Frequentadores diários: sala de máquinas, 2298; sala de jogo bancado, 200.
CASINO DE ESPINHO
Principais accionistas: Família Violas.
Concessionária: Solverde, SA (capital social de 30 milhões de euros).
“Slot Machines”: 600 (após a remodelação em curso passará para 1000 máquinas).
Prémios diários: 223 mil euros (valor de 2001)
Maior “jackpot”: “Sphinx” (645 803 euros).
Jogos: roleta francesa, roleta americana, banca francesa, “blackjack”, ponto e banca, póquer sintéctico; Póker sem descarte, Bingo.
Número de empregados: 465.
Receita bruta em 2001: 41 726 002 euros.
Impostos em 2001: 20 863 001 euros.
Frequentadores diários: 3 121 (valor de 2001).
CASINO DA FIGUEIRA
Principais accionistas: Grupo Amorim.
Concessionária: Sociedade Figueira Praia (capital social de 7 500 000 euros).
“Slot Machines”: 300.
Prémios diários: 150 000 euros (média).
Maior “jackpot”: 700 000 euros.
Jogos: “black-jack”, roleta francesa, roleta americana e banca francesa.
Número de empregados: 230.
Receita bruta em 2001: 22 milhões de contos.
Impostos em 2001: 6,6 milhões de euros.
Frequentadores: um milhão/ano.
CASINO ESTORIL
Principais accionistas: Sociedade de Turismo e Diversões de Macau e Grupo Amorim.
Concessionária: Estoril Sol, S.A. (capital social de 34 milhões de euros).
“Slot machines”: 1050.
Prémios diários: um milhão de euros (média).
Maior “jackpot”: Estoril-Póvoa Expresso (299 mil euros, agrupando as máquinas dos casinos do Estoril e Póvoa e podendo ser atribuído em qualquer um dos dois).
Jogos: roleta francesa, roleta americana, “black-jack”, póquer, banca francesa, bacará ponto e banca e bacará “chemin-de-fer”.
Empregados: 1100.
Receita bruta em 2001: 123 milhões de euros.
Impostos em 2001: 61,5 milhões de euros.
Frequentadores diários: sala de máquinas, 3200; sala de jogos, 500.
CASINO DA PRAIA DA ROCHA
Principais accionistas: Família Violas.
Concessionária: Solverde SA (capital Social de 30 milhões de euros).
“Slot Machines”: 336.
Prémios diários: N. R.
Maior “jackpot”: N. R.
Jogos: roleta francesa, roleta americana, banca francesa, “black jack”, póquer sem descarte.
Empregados: 260.
Receita bruta em 2001: nove milhões de euros.
Impostos em 2001: 3,2 milhões de euros.
Frequentadores diários: N. R.
CASINO DE VILAMOURA
Principais accionistas: família Violas.
Concessionária: Solverde SA (capital social de 30 milhões de euros).
“Slot Machines”: 302.
Prémios diários: N. R.
Maior “jackpot”: N. R.
Jogos: roleta francesa, roleta americana, banca francesa, “black jack”; póquer sem descarte.
Empregados: 250.
Receita bruta em 2001: 19,8 milhões de euros.
Impostos em 2001: 6,9 milhões de euros.
Frequentadores diários: N. R.
CASINO DE MONTE GORDO
Principais accionistas: família violas.
Concessionária: Solverde, SA. (capital social de 30 milhões de euros).
“Slot Machines”: 217.
Prémios diários: N. R.
Maior “jackpot”: N. R.
Jogos: roleta francesa, roleta americana, banca francesa, “black jack”, ponto e banca simples; póquer sem descarte.
Empregados: 150.
Receita bruta em 2001: 5 904 702 euros.
Impostos em 2001: dois milhões de euros.
Frequentadores diários: N. R.
CASINO DA MADEIRA
Principais accionistas: Investimentos Turísticos da Ilha da Madeira, S. A.
Concessionária: ITI, Sociedade de Investimentos Turísticos da Madeira (capital social de 21 milhões de euros).
“Slot Machines”: 210.
Prémios diários: 78 000 euros (valor de 2001).
Maior “jackpot”: “Eruption” – 1 899,20 euros.
Jogos: roleta americana e “blackjack”.
Empregados: 77
Receita bruta em 2001: N. R.
Impostos em 2001: N. R.
Frequentadores diários: sala de máquinas,
450; sala de jogos bancado, 60.
FONTES: CASINOS (N.R. = não respondeu)
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