O incêndio de Guadalajara trouxe à memória os fogos de 1985 e 1986, em Armamar e Águeda. Os tempos são outros, mas o perigo é o mesmo. É que o fogo também ‘aprendeu’ e as florestas estão mais perigosas.
“Foi um incêndio tremendo! Havia labaredas por todo o lado. Durante dois dias, o fogo brincou connosco, mas conseguimos apagá-lo. Estavamos nas operações de rescaldo, quando o inferno desceu dos céus.” Uma trovoada muito forte semeou um mar de chamas. Criou--se uma cortina de fumo, que o vento transformou em nevoeiro. Ficaram cegos. Quando quiseram fugir, já não tiveram hipóteses. Estavam cercados. Eram dezassete. Ficaram lá catorze. Ironia do destino: passado pouco tempo, começou a chover torrencialmente”. Jorge Igreja, comandante dos Bombeiros Voluntários de Armamar, recorda, assim, a maior tragédia ocorrida em Portugal envolvendo os soldados da paz, faz em Setembro 20 anos. No ano seguinte, mais treze homens perderam a vida num incêndio em Águeda.
Os meios eram outros, a preparação diferente. Mas os riscos não diminuiram. Pelo contrário. O floresta está, hoje, mais perigosa que nunca. A desertificação do mundo rural e a ausência de limpeza das matas transformou o pulmão verde num gigantesco barril de pólvora. Basta uma faísca, um descuido, para reduzir uma encosta a cinzas. Não há dois fogos iguais. Mas hoje estão mais desiguais, mais imprevisíveis, dificultando a avaliação dos riscos. Só assim se compreende que continuem a morrer bombeiros queimados pelo fogo.
Portugal conta já com seis mortos este ano e a Espanha viveu, a semana passada, o maior pesadelo dos últimos 15 anos. Um bombeiro que escapou com vida à tragédia de Guadalajara fez um retrato perfeito de como evolui hoje um incêndio: “O fogo parecia longe. Mas, quando nos viu, desatou a correr atrás de nós”. Onze bombeiros não conseguiram escapar à velocidade das chamas. Morreram queimados. Eram homens experientes e altamente treinados. O chefe da missão tinha mais de 20 anos de serviço. Não é um problema de meios ou de conhecimento. As florestas estão diferentes. Este facto, aliado a condições meteorológicas excepcionais, provoca alterações no comportamento dos fogos à medida que ele evolui”, diz Duarte Caldeira, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.
INCIDÊNCIA E REPETIÇÃO
Na origem deste fenómeno estão três factores determinantes, a começar, desde logo, pela incidência e repetição, em dias sucessivos, da ‘Regra dos Trinta”. Ou seja: temperaturas acima dos trinta graus; humidade abaixo dos trinta por cento, vento superior a trinta quilómetros por hora.
“A conjugação destes três factores aumenta, exponencialmente, os riscos de incêndio, e é isso que se tem vindo a verificar nos países do Sul da Europa, nomeadamente em Portugal e Espanha”, assegura Duarte Caldeira.
O movimento migratório do Interior para o Litoral criou, por outro lado, um problema acrescido: o abandono das terras. Os proprietários deixaram de limpar as matas e o Estado também não intervem. A manta morta que se vai acumulando, ao longo dos anos, no espaço florestal, criou autênticos depósitos de combustível. “À falta de limpeza das matas junta-se, ainda, uma enorme falta de cultura cívica. Há incêndios florestais onde rebentam bilhas de gás! Há sacos de produtos tóxicos espalhados pelo matagal. Isto é inconcebível. É preciso eliminar as probabilidades de incêndio e, sobretudo, o que o alimenta”, considera Duarte Caldeira.
Guadalajara é um exemplo da falta de consciência cívica. Tudo começou num barranco de Riba de Saelices, onde um grupo de amigos se juntou para um churrasco. Segundo contou um guia turístico, as chamas irromperam depois da chegada de um grupo de nove pessoas de meia idade e de alguns jovens de Madrid, as quais acompanhou. “Chegaram em três carros. Quiseram conhecer a Cueva de los Casares, um jazigo com escavações do Paleolítico. Aí estivemos desde as 10h30 às 14h00, mas alguns não entraram. Quando saímos, já estavam a fazer um churrasco”.
Emílio Moreno ainda os advertiu de que o dia não era para fogos, ao que um deles respondeu que sabia o que estava a fazer. Não sabia. Não mediu o perigo. O lume saltou do braseiro e não mais parou. Onze bombeiros pagaram com a vida a irresponsabilidade de um grupo de excursionistas. Quando a ajuda chegou, já estavam mortos.
O que aconteceu em Armamar e Águeda é diferente da situação em Espanha. Hoje existe da parte dos bombeiros um conhecimento e técnicas mais apurados e aprofundados. O próprio equipamento e os meios de combate são diferentes.
“Não havia comunicações e só tínhamos uma viatura. Estava a dois quilómetros, não chegava ao fogo”, conta Jorge Igreja, que, já naquele tempo, comandava os Voluntários de Armamar. “Os três rapazes que saíram com vida daquele inferno foi o motorista, um bombeiro que tinha ido ter com ele contar o que se estava a passar e outro que ‘caiu’ para o lado contrário onde estavam os catorze que morreram. O motorista acabou por morrer um ano depois, vítima de um acidente. Os bombeiros estão melhor equipados, mas o risco é sempre muito elevado. Num fogo florestal, o bombeiro não pode ir de fato de amianto e garrafa de oxigénio às costas”.
Vítor Sabino, adjunto do comando dos Bombeiros Voluntários de Águeda, tinha vinte e poucos anos quando viu morrer treze companheiros seus e mais três civis, no Verão de 1986. “Era duas ou três da manhã. Foram vítimas daquilo que designamos por ‘efeito chaminé’. O vento era tal que adquiriu uma velocidade nunca vista. Foram apanhados no meio da estrada. Eu estava numa outra frente, só soube já de manhã o que tinha acontecido. As comunicações eram praticamente inexistentes, embora os carros de combate não fossem muito diferentes dos de hoje. Neste caso, não considero que se tenha tratado de um problema de falta de meios ou equipamento. A velocidade das chamas encosta abaixo é que foi uma coisa nunca vista”. Má avaliação dos riscos? “Penso que não. É verdade que hoje o planeamento é diferente, mas o fogo nunca é igual. De um momento para o outro, o comportamento das chamas muda completamente”.
Pese embora o ataque às chamas se faça hoje de uma forma mais pensada, Duarte Caldeira é da opinião que se pode e deve fazer mais. “Não há estudo das ocorrências. Não aprendemos com os erros. O Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil não faculta os relatórios do que vai acontecendo e com o que se pode aprender, nomeadamente em termos de erros de avaliação nesta ou naquela ocorrência”. “Há uma tendência para fazer juízos, sem que se aprenda com as coisas”, lamenta.
A lista de bombeiros mortos em missão é longa. O último faleceu na zona da Foz de Alvares, concelho de Góis. Pertencia aos Bombeiros Voluntários de Pampilhosa da Serra. Tinha 34 anos. Era solteiro. Não tinha pais nem irmãos. Chamava-se Paulo Jorge Piedade. Foi no sábado, 9 de Julho, no mesmo dia da tragédia de Guadalajara. Uma “função de risco”, a que o Estado “não dá a devida importância”, no entender de Duarte Caldeira. “A vida de um bombeiro vale 15 mil contos. É quanto recebe a família de indemnização. É irrelevante. É uma afronta a uma família que pode ficar sem o principal pilar financeiro, como acontece em quase todos os casos”.
“É urgente rever o esquema de protecção social dos bombeiros. Caso contrário, não faltará muito para que precisemos de voluntários e não os temos”, conclui.
Aviso: O Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas divulga diariamente, após o Telejornal (Canal 1- RTP), o índice de risco de incêndio por distrito, bem como as restrições legais a actividade humana em função do grau de risco de incêndio. Esta informação é complementada com um conjunto de recomendações.
Queimadas: Está interdita a realização de queimadas, ou seja, o uso de fogo para renovação de pastagens. A multa vai dos 100 aos 44.500 euros.
Fogueiras: É proibido fazer fogueiras e queimas, isto é, o uso do fogo para eliminar sobrantes de exploração cortados e amontoados. A exemplo das queimadas, as coimas variam entre os 100 e os 44.500 euros.
Foguetes: Está interdito o lançamento de foguetes e de quaisquer outras formas de fogo em espaços rurais. O montante das coimas é idêntico ao previsto nos casos anteriores.
Fumar: É proibido fumar no interior das áreas florestais ou nas vias que as delimitam ou as atravessam. As coimas são as aplicáveis nos casos anteriores.
Máquinas: Nos trabalhos e outras actividades que decorram nos espaços rurais, é obrigatório que as máquinas de combustão interna e externa (tractores, máquinas e veículos de transporte pesados) estejam dotadas de dispositivos de retenção de faúlhas e de dispositivos tapa-chamas nos tubos de escape ou chaminés; é igualmente obrigatório que estejam equipados com extintores.
EVITE OS INCÊNDIOS FLORESTAIS
Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil aconselha as seguintes medidas de prevenção:
- Se mora junto de uma área florestal: Limpe o mato à volta de sua habitação.
- Separe as culturas com barreiras corta-fogo (por exemplo um caminho).
- Guarde, em lugar seguro e isolado, a lenha, o gasóleo e outros produtos inflamáveis.
- Afaste as velas e candeeiros a petróleo ou a gás, da madeira, papel, roupas ou outro material combustível.
- Se for passear à floresta: Não deite fósforos ou cigarros para o chão.
- Não deite pela janela do automóvel cinzas ou pontas de cigarro.
- Leve a refeição preparada. Não acenda fogueiras.
- Não abandone na floresta nenhum lixo, incluindo garrafas de vidro.
- Avise as autoridades: Se vir lixo ou mato denso acumulado próximo de habitações.
- Se notar a presença de pessoas com comportamentos suspeitos. Observe características que possam conduzir à sua identificação. Se avistar o início de um incêndio florestal, ligue de imediato para o 112 ou para os Bombeiros da área.
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