Mais de 50 imigrantes de Leste vivem há três meses em Cacilhas, Margem Sul do Tejo, na mais profunda miséria. Dormem ao relento e à chuva e vivem das esmolas nas ruas de Lisboa.
Lençóis de plástico andrajoso cobrem os velhos sofás tingidos a negro e ensopados nas poças da chuva, que por estes dias não abranda à beira Tejo. Há muito que o tecto desabou na fábrica de redes do Cais do Ginjal, Cacilhas – e, até ao último Verão, só os ratos se arriscavam nos escombros, a vaguearem pelo enorme labirinto de entulho que nem a força das águas consegue arrastar. Depois vieram as crianças.
Chegaram do Leste pela mão dos pais e foram abrigadas ali, num pérfido refúgio a céu aberto onde tudo lhes serve de comida e brinquedo. Crescem rodeadas do próprio lixo. Homens e mulheres, novos e velhos, o clã já reúne mais de 50 mendigos na Margem Sul e vive diariamente da esmola nas ruas de Lisboa. Passam as noites à chuva e ao relento e, no meio da miséria, resta a estes imigrantes clandestinos o consolo de terem a melhor vista sobre as luzes da capital.
Titi é cigano de origem romena, calça ténis rotos e veste o fato de treino de sempre. Não tem mais de 10 anos e foi um dos primeiros a chegar. Conta que seguiu a família até Portugal há pouco mais de três meses e, diariamente, sabe que tem uma missão a cumprir. Sem água nem luz, afasta os caixotes do lixo que o protegem das chuvas e deixa o abrigo de madrugada. Começa por tentar a sorte nas ruas de Almada e Cova da Piedade. A esmola tem locais próprios, entre a porta da igreja, arcadas, cafés, restaurantes ou supermercados, e a comida passa sempre por restos de carne e peixe da praça – ao princípio da noite tudo é cozinhado ao lume de uma pequena fogueira na velha fábrica abandonada.
Outros, como Cristi, búlgaro de estatura média e cicatriz estampada no rosto, mostram-se mais expeditos e arriscam a outra margem. Atravessam o rio de barco e deambulam por Lisboa a partir do Cais do Sodré. “Entram em bando e têm as suas manhas, são sempre difíceis de controlar”, confessa um funcionário da Transtejo, que antes das 07h00 já tem de vigiar os primeiros grupos à entrada em Cacilhas.
Dispersam pelos mais concorridos semáforos da capital mas, numa altura em que os vidros dos carros dispensam lavagem, pouco lhes resta além de estender a mão e esperar uma moeda de quem passa. Mas junto ao Cais do Ginjal, onde o sentimento dos últimos meses se divide entre o medo e a revolta dos vizinhos, os imigrantes são acusados de “vários assaltos aos turistas” que por ali passam à beira rio. Ibraim, 48 anos, é líder e um dos mais reservados do clã mas, no seu português limitado, garante só quererem “trabalhar”. A relação com o comércio local não é fácil e, agravada pela constante chegada de novos membros, dizem estar cada vez mais expostos a “um verdadeiro foco de doenças”.
“Não têm qualquer espécie de higiene e arrastam para aqui todo o tipo de lixo”, adianta revoltado José Manuel Lopes Ribeiro, 61 anos, que gere uma serralharia paredes meias com a velha fábrica. O Cais do Ginjal é hoje em dia feito de pequenos negócios, prejudicados com o cenário de miséria em que se foi transformando em poucos meses. E por detrás da ocupação das ruínas da fábrica parecem não ter dúvidas de que estão “redes de tráfico humano” – uma vez que, “ao princípio”, antes do início do Verão, “não eram mais de quatro ou cinco” os imigrantes de Leste que ali se instalavam.
CRESCIMENTO DA COMUNIDADE
O crescimento da comunidade foi exponencial e os vizinhos recordam “as várias carrinhas que os vêm trazendo todas as semanas” e partem de seguida. Ao frio e à chuva, sentados num charco e cobertos de lama, votados à mais baixa dignidade humana, são os próprios a confirmar já serem hoje em dia mais de 50. “Arrombaram portas e janelas e foram-se acomodando aos poucos”, conta quem acompanhou a situação, ao mesmo tempo que aponta os quilos de lixo que se vão amontoando de forma impressionante e já se estendem às portas da vizinhança. Mas embrulhados nas mantas rotas e encharcadas que vão arranjando um pouco “por todos os lados onde andam”, búlgaros e romenos dormem as poucas horas diárias de qualquer forma e já se preparam para enfrentar o frio do próximo Inverno.
Ainda não são 06h30 quando Anabela Almeida, 27 anos, se habituou a vê-los passar “em bandos” à porta do café onde trabalha, no largo que serve de terminal às camionetas e de onde partem os barcos em direcção a Lisboa. “Chegam a ser 20 e 30 ao mesmo tempo” e detêm-se minutos a fio num pequeno repuxo em frente ao café, aproveitando aí “para se lavarem à vez”. O ritual repete-se dia após dia nos últimos meses e, na movimentada zona de Cacilhas, “já praticamente toda a gente sabe quem eles são”. Os problemas sucedem-se antes de partirem e “quando voltam da mendigagem, cerca das 17h00”, ao invadirem o café e “pedirem coisas sem pagar. Umas vezes querem entrar todos ao mesmo tempo para a casa-de-banho, outras lembram-se de ligar para a Roménia com apenas 50 cêntimos no bolso...”
O diálogo é praticamente impossível, apesar de os vizinhos estarem convictos de que “eles percebem melhor o português do que fazem crer”. Os imigrantes limitam-se a falar entre si, na sua língua, brindando quem passa com um largo sorriso e oferecendo a escassa comida que partilham e cozinham sem qualquer higiene. Charban convida-nos a entrar, numa altura em que a chuva parece disposta a dar tréguas e mostra as condições sobre-humanas em que dezenas de famílias vivem naquela lixeira. Ao final da tarde, começam a juntar--se no largo as crianças, homens e mulheres e caminham pelo cais até aos escombros da antiga fábrica. Carregam caixotes com objectos encontrados ao abandono, assim como os garrafões de água que diariamente enchem no repuxo. Zena, Narchisa e Gulbia são três das muitas mulheres do clã e debruçam-se sobre o lume, onde improvisam o jantar dos primeiros que se aproximam.
CLANDESTINIDADE
A clandestinidade parece não os incomodar e mostram o pouco que têm no mundo sem nada a esconder. E tudo “porque não têm qualquer controlo” da Polícia, garante um funcionário da Transtejo, que pede para não ser identificado. “Só é pena que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras passe a vida a fiscalizar imigrantes nas fábricas, aqueles que estão cá para trabalhar, e, em relação a estes, que passam a vida a mendigar e roubar, nem sequer saibam que eles existem”. Comentários que passam ao lado dos mais de 50 romenos e búlgaros, enquanto dançam e riem com os seus dentes de ouro, sabendo que é na animação que continuam a encontrar o único meio de subsistência. Emir Kusturika, o realizador bósnio que se celebrizou no estilo cómico-trágico, não poderia encontrar melhor cenário.
“VIVEM NO LIXO”
Nome: José Manuel Ribeiro Lopes
Profissão: Gerente da Serralharia Lunavalv
“A Polícia nunca cá veio e é lamentável que isto se continue a passar ao fim de tanto tempo”, lamenta o gerente da serralharia, paredes meias com romenos e búlgaros clandestinos. “Vêm aqui pedir água e, quando recusamos alguma coisa, ainda são malcriados”. Diz José Manuel Lopes que os imigrantes “vivem no meio do lixo”, “poluem toda a zona” e tornaram-se “uma verdadeira ameaça” para todos os que ali vivem e trabalham diariamente.
EVOLUÇÃO EM APENAS TRÊS MESES
"ZONA PERIGOSA”
Nome: José Monteiro
Profissão: Serralheiro metalomecânico
A partir da Serralharia Lunavalv, este funcionário de 47 anos acompanhou o “degradante” evoluir na fábrica de pescas desactivada, desde que, “de quatro ou cinco imigrantes, em apenas três meses, passaram a ser mais de 50”. E recorda que “estão sempre a mendigar na praça, debaixo das arcadas ou à porta dos supermercados. Esta zona tornou-se perigosa”. José Monteiro diz que “passam a vida com os sacos do lixo para trás e para a frente”.
CÂMARA DE ALMADA DESCONHECE OS MAIS DE 50 CLANDESTINOS NO CAIS DO GINJAL
Os mais de 50 romenos e búlgaros clandestinos, entre homens, mulheres e crianças, que fomos encontrar no Cais do Ginjal, Cacilhas, em condições miseráveis, refugiam-se ali há mais de três meses e sem que as autoridades tenham “qualquer conhecimento desta situação”, adiantou à Domingo fonte oficial da Câmara Municipal de Almada. “A autarquia tem procedido à limpeza de toda a zona, mas o Cais do Ginjal pertence à Administração do Porto de Lisboa”. Contactámos ainda a Rede Social da Concelhia Local de Acção Social de Almada, de onde também nos foi dito desconhecerem o problema por completo.
Entretanto, comerciantes e moradores da zona queixam-se das “péssimas condições de higiene” em que vivem os 50 imigrantes, que se lavam “dia após dia no repuxo” de um policiado largo de Cacilhas – e dizem-se expostos “a um verdadeiro foco de doenças”. Homens e mulheres percorrem diariamente as ruas da Margem Sul e dali apanham o barco para Lisboa, onde assumem viver exclusivamente da mendicidade. Entre eles, estão dezenas de crianças que dormem ao relento e debaixo de chuva. Comem os restos de carne e peixe que apanham no chão da praça e dormem cobertos por plásticos e mantas que encontram abandonados no lixo.
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