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Como é ser muito bonito

A beleza é como o dinheiro: não traz felicidade, mas que ajuda, ajuda. Outra coisa também é certa: não há belos sem senão e nem tudo se resume a uma cara laroca ou a um corpo de sonho. A atitude faz a diferença! Dizem eles, os belos. Gonçalo e Nadiya entram nesta categoria, a dos semideuses bafejados pela beleza. E não é só ao espelho que se nota. Com a sua ajuda, fomos saber....

12 de agosto de 2007 às 00:00

A Ucrânia das cabeças louras, que dão o couro e o cabelo às tintas para serem morenas, da tez muito alva que paga para se bronzear e dos olhos translúcidos, que preferiam ser negros, ficou para trás há quatro anos. Os belos 20 de Nadiya Sabelkina, que a leste são contracorrente, funcionam como exotismo em Portugal. Na região de Bragança, onde se instalou com a família, ainda mais. “Cá comecei logo a ouvir comentários. Não percebia o que tinha de diferente. Para mim, ter olhos claros não era novidade.”

A língua portuguesa sai-lhe menos límpida, mas suficientemente desembaraçada para surpreender quem a ouve. “Nunca me achei bonita. Quando abria as revistas, via mulheres tão perfeitas! Há trabalhos de modelo em que me põem muito bonita, mas é tudo maquilhagem!” Uma base até pode fazer milagres, mas alguém acredita que o desmaquilhante lhe deixa à mostra algum pingo de fealdade?!

A Central Models descobriu-a no Porto. Ao natural. As propostas de trabalho fizeram-na descobrir Lisboa, naturalmente. Onde voltou – e volta – a encontrar-se com os piropos dos outros. As propostas indecentes são em catadupa. Em qualquer lado. Ser bonita também dói. “Somos um povo mais frio. Os portugueses são pessoas mais abertas.” Mais abertos e mais afoitos e em alguns casos, com muita ‘lata’. “Às vezes até me estragam o dia. Evito usar saias. Uma coisa é ouvir coisas boas, outra é ouvir bocas, a maioria de pessoas com a idade do meu avô.”

Por ironia do destino, foi no metro que conheceu o actual namorado, “normalíssimo”, distante dos “rapazes bonitos” com quem trabalha. A gestão dos atributos de Nadiya exige de Pedro – que se sente a disputar outro campeonato – jogo de cintura. “Além de ser gira, também é modelo. É muito stressante! As ligas são diferentes. Ela está na Bwin e eu na quarta divisão”, admite o jovem de 21 anos. “Ele não gosta de piropos. Vem buscar-me ao trabalho porque não quer que eu ouça bocas!. É difícil ter namorado e muitos homens à nossa volta”, acrescenta a ucraniana.

Os 174 centímetros de Nadiya não passam despercebidos. Os irmãos herdaram altura e compleição semelhantes, “uma mistura de mãe e pai” que dá nas vistas entre os latinos. “O meu irmão mais novo tem imenso sucesso na escola! A minha irmã ouve na rua imensas coisas.” Será da graciosidade dos genes? “A minha mãe era muito bonita. Chegou a ser convidada para desfilar. O meu corpo é dela. Não sou muito alta. Até queria ser mais baixa para poder usar saltos altos e não olhar para toda a gente de cima!”

OS ESPECIALISTAS

Os especialistas afiançam que descender de quem tem dívida contraída com a beleza pode ajudar, mas não é condição exclusiva. “Não é uma média aritmética. Dois pais bonitos têm mais probabilidade de ter filhos bonitos, mas isso não é quantificável. Não há um gene dominante, mas uma interacção”, explica Alberto Barros, director do serviço de genética da Faculdade de Medicina da Universidade de Porto, que distingue a relatividade do factor ‘beleza’.

“O que pode ser indiscutível para uns, pode ser sem sal para outros. Tem sobretudo a ver com a expressão, com o que vem de dentro para fora, com o comportamento. Do ponto de vista genético, a beleza ou as características físicas são algo multifactorial. Há múltiplos genes a interagir com o meio ambiente. A genética é esta combinação. Podemos juntar um Mister Universo e uma Miss Universo e o filho não ter a beleza dos pais. Como podemos juntar dois prémios Nobel e o filho não ter a sua inteligência. As características resultam de um baralhar e voltar a dar de cartas. Podemos ter um bom jogo, ou um jogo sofrível, ou mesmo mau.”

Os trunfos nem sempre estão do lado dos belos. Nadiya fala por si. A cadência e teor dos olhares masculinos de que é alvo é inversamente proporcional aos femininos – e respectivos juízos de valor. “As mulheres não gostam de concorrência. Há também a mentalidade de que, se se é bonita, é-se fútil. Já os homens é o contrário. Metem-se, mas também não sabem falar com as raparigas e, se respondemos, têm medo!”

É assim a beleza vista por uma reduzida lente ocidental. Com todos os estereótipos que com ela andam de braço dado. Com a devida prevalência do velho ditado de que a galinha da vizinha é sempre mais apetecível do que a nossa. E com a garantia de que, aparentemente, há lugar para muitos padrões de beleza. Nadiya admite-o, sem complexos. “As pessoas bonitas têm mais facilidade na vida, até para arranjar trabalho.”

GENTE GIRA É OUTRA COISA

Gente gira é outra coisa? À primeira vista talvez. À segunda, nem por isso. Basta uma ida à praia, um café numa esplanada ou um passeio pela rua para constatar que a beleza também é de carne e osso. Ora sobressai radiante – e os olhos (os dos outros) acompanham-na – ora se dilui entre os demais. Como em tudo, tem dias.

Gonçalo Teixeira é uma reunião feliz da mãe e do pai. Do melhor de cada um. O nariz é dela, a boca e as sobrancelhas são dele. Os olhos uma lagoa que funde os tons cintilantes de ambos. “As pessoas ficam perdidas ali no meio, mas a minha mãe diz que sou a fotocópia do meu pai”, diz. “A minha cara ainda vai mudar muito. O auge é aos 23 anos.”

Confortável nos seus 18 anos, e no reflexo da sua imagem, desvaloriza o rótulo de ‘bonito’ e põe reticências aos critérios absolutos de uma categoria que, reconhece, pode destrancar muitas fechaduras. “Olho-me ao espelho e não vejo nada de especial. A beleza é relativa. Para ser manequim não é preciso ser bonito, muitos são ‘estranhos’. Tem de haver atitude. Também na vida não podemos transmitir um olhar oco, ser pão sem sal.”

A unicidade cai por terra. “É normal haver mais ‘bonitos’. Antigamente, a beleza era um atributo essencial feminino. Os homens não se queriam bonitos. Hoje a beleza define menos o género e deixa também de estar associada ao poder da atracção. A conquista de uma mulher bonita era algo vitorioso para o homem. Actualmente, as diferenças entre sexos são menos acentuadas”, explica o psicólogo Miguel Faria. “Até há bem pouco tempo punha-se o problema da beleza no negativo, associado à emergência do narcisismo. Mas este obstáculo nascia e morria dentro do próprio. Com a vulgarização da beleza, isso perdeu peso na parte mais patológica da relação”, continua.

MAIS DO QUE BELEZA

Gonçalo encara os desígnios da mãe-natureza com descontracção, até porque acredita que a embalagem inclui mais do que uma cara laroca e um corpo perfeito. “Ser bonito é muito importante. Sobretudo neste País, comercial, onde vivemos de aparências. Vê-se na televisão. Sinceramente, a beleza pode abrir portas.” Mas não basta ser uma estampa, é preciso mais: “É verdade que as pessoas olham para mim, mas tudo depende de como parto para o dia, se estou mais bem-disposto ou se não tenho energia. É a luz dos olhos. Se não a tiver, passo ao lado.”

Quanto a piropos, garante que não chovem a torto e a direito. Aqui e ali, um ou outro aguaceiro. A ressalva vai para noite, propícia a atrevimentos. “É dos dois lados. Se for a uns sítios, vêm mais mulheres ter comigo. Se for a outros, mais homens.”

Quem tem olho para a moda, soube pescá-lo. Aos 16 anos inscreveu-se na Elite Model Look. “Decidi apostar, foi uma raiva pessoal. Via as mães dos meus amigos a enviarem fotos dos filhos e a minha não se mexia! O concurso é feito por semifinais. Não ganhei a minha, mas no final acabei por vencer.” Sem “noção nenhuma” de onde se ia meter, deu por encetado um trilho que lhe trocou as voltas. “Aos 17 anos fiz a primeira viagem para Barcelona.” O curso profissional de Marketing e Relações Públicas ficou pelo caminho. “É difícil conciliar... mas a escola não está posta de parte. Mas estudar posso fazer sempre. Agora devo aproveitar as oportunidades.”

Regressou há dois meses de Milão, depois de uma campanha para a marca Sach e de uma apresentação restrita da colecção de Roberto Cavalli. Assumidamente “versátil” e “comercial”, não perde de vista a high fashion ou a linha da frente da moda nacional e internacional. “Quero explorar outros mercados, sair...”

Mas o universo que trilha é refém de clichés depreciativos, muito associados à profissão. “Diz-se que somos convencidos ou burros, que passamos fome e tomamos drogas. Acho um disparate, cada um é como é, física e psicologicamente, mas acontece muitos os manequins sentirem esse cliché.”

Como um íman, a beleza atrai a beleza, mas isso nem sempre é um passaporte assegurado para o triunfo. Pelo contrário. Quando o assunto é coração, a beleza é pródiga em assustar. “As pessoas gostam de se dar com pessoas bonitas. Encontro quem ache que andar com um modelo é uma coisa do outro Mundo! É complicado namorar...”

Com uma visão clínica, Gonçalo enumera os atributos que mais o contagiam nos outros. “A simetria da cara. Quanto mais simétrica, mais bela. A beleza científica tem a ver com a proporcionalidade. Numa mulher, reparo mais nos cabelos e nas unhas, o resto é relativo, não tenho um padrão específico. Os olhos também são importantes e o maxilar.” Se fosse tudo uma questão de ciência era bem mais fácil, mas não é. Estudos sobre os padrões de beleza põem em cheque as simetrias absolutas. As caras simétricas são mais bonitas, mas, no limite, a simetria pura não corresponde à beleza máxima. “As assimetrias invisíveis a olho nu, estão na ordem do dia.” E o pão ganha sal com a subtileza das imperfeições.

O NAMORADO DE NADIYA

Nadiya tem namorado. Verdade, verdadinha, a ucraniana de 20 anos é toda de um português muito banal. Ela que se cruza no trabalho de manequim com homens tão estampas como ela, escolheu um rapaz “de quarta divisão”, como o próprio reconhece. A máxima de que o que é de mais enjoa talvez não se aplique. Nadiya gosta de rapazes simples que não compitam com ela na aplicação de cremes.

BELEZA NO MOMENTO DO AMOR

Gonçalo trata do físico, mas as máquinas não fazem tudo – a figura resulta de imponderável genético. Não se ache que no momento do amor – eufemismo elegante para engate – as coisas são mais facilitadas quando as intenções surgem só do coração. “Elas acham o máximo namorar um manequim”, diz. Fica de fora a sinceridade dos sentimentos. Mas, quando ela é por sua vez bela, será isso motivo de depressão?!

NEM SEMPRE OS BELOS FORAM BELOS

Não é fácil defini-la. Aproximaram-na da transcendência, sinónimo de harmonia, de precisão, de simetria, qual esquema matemático pré-socrático. A classificação mais simples é porventura a de uma percepção individual que agrada aos sentidos. A beleza. Brad Pitt e Angelina Jolie podem ser hoje dela símbolo no Ocidente. Leonardo Da Vinci traduziu-a em Mona Lisa. À luz da época, as formas generosas eram belas. A ninfa de Lefebvre marcou a cultura ocidental, que ousou confundir a beleza feminina com a bondade. Basta pensar na história da ‘Bela Adormecida’.

TODOS DIFERENTES, TODOS IGUALMENTE BONITOS

É como um regresso às origens, onde a beleza se reveste de imperfeições, de uma rudeza leve e moderada e de uma panóplia de corpos e rostos. De realidade, no fundo. O investimento em campanhas publicitárias para valorizar a diversidade da aparência feminina é crescente. Mulheres e homens comuns – mas belos na diversidade – atenuam o padrão único.

A metrossexualidade limou os homens e puxou-lhes o lado feminino. Mas, os ‘heteropolitans’, categoria destacada pelo jornal ‘Independent’, ganham-lhes já terreno. É o ‘fim’ para bonitos como o actor Jude Law ou o futebolista David Beckam.

AS EXTRAORDINÁRIAS REGRAS DA ATRACÇÃO

Ainda há clichés operantes, como ‘o da loura burra’, mas a forma como a beleza é vista, e como influi nas relações, tem vindo a mudar. “A mulher bonita tinha associado um registo de passividade e hoje ela pode partir para a conquista, o que é complicado para o homem. O paradigma da relação ainda é da partida da iniciativa por parte do sexo masculino”, aponta o psicólogo Miguel Faria, que, no que toca à beleza, sublinha a relevância dos enquadramentos culturais e dos “padrões perfeitamente individuais”. “Posso sentir-me bem mais atraído por uma pessoa menos bonita do que outra”, justifica. Uma coisa é certa: “Estabelecemos hierarquias de forma quase automática. A beleza é a primeira base de avaliação em situações sociais. Numa festa, por exemplo, não nos é indiferente se verificamos que há pessoas bonitas. A relação com elas dá-nos uma sensação satisfatória. Respeitamo-las e não ser rejeitado é um triunfo. Sentimo-nos aceites, tão bonitas como elas.”

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