“Eu sou o mais velho, o meu irmão João é neurocirurgião e aos trinta anos já era <BR>presidente da Associação Mundial de Neurocirurgia. Pedro é arquitecto, Miguel dirige o Centro Cultural de Belém. Nuno é médico e vive em Nova Iorque e Manuel <BR>é do corpo diplomático”
Depois dos novos romances de José Luís Peixoto e Paul Auster, a ‘Domingo Magazine’ procede à pré-publicação de uma biografia de Lobo Antunes, escrita sob a forma de conversa. Com a chancela da D. Quixote, “Conversas com António Lobo Antunes” é o resultado de uma longa entrevista feita por uma reputada jornalista espanhola, a partir de variadíssimos encontros, a um dos maiores autores portugueses da actualidade.O volume teve enorme sucesso em Espanha e chega amanhã às bancas portuguesas. Eis um excerto do primeiro capítulo:
Se o primeiro olhar sobre as coisas configura a visão do mundo, a infância é sem dúvida o território onde se gera essa cosmovisão. Em toda a obra de Lobo Antunes, nos seu livros, nas suas crónicas, encontram-se, como fogachos, essas primeiras impressões vitais que marcam a singular estética do escritor.
As suas obsessões, os seus desvelos, a sua obstinação em se dedicar ao ofício de escrever nasceram nessa casa do bairro lisboeta de Benfica. Um bairro em que a sua família viveu toda a vida e cuja casa, onde ainda continuam a viver os seus pais, actualmente nem parece tão grande como a sua memória evoca, nem já restam vestígios daquelas moradias que nos anos cinquenta serviam de lugar de veraneio às abastadas famílias lisboetas. O bairro é hoje um bairro operário, no qual a casa dos pais de António, com um jardim praticamente abandonado, é como um vestígio melancólico do que deve ter sido noutros tempos.
Também nasceram nessa casa, inculcados pelos seus pais João e Margarida, o amor do escritor pelos livros e a sua grande sensibilidade para a arte e para a música. A sua educação foi, seguramente, excessivamente austera e a disciplina demasiado férrea. O escritor lamentou reiteradamente a falta de carícias e atenções por parte dos pais: mas, embora Lobo Antunes censure hoje aos seus progenitores a ausência de “calorias de ternura” que eles não souberam dar-lhe, muitos concordariam em afirmar que, de qualquer modo, não foi escasso o seu legado.
(...)
– Voltemos ao seu tempo de rapaz. Como decorreu a sua infância?
– Vivi em Benfica, um bairro da periferia, a oeste da cidade. Naqueles tempos, quando as pessoas do bairro se deslocavam para o centro da cidade, diziam: “Vou a Lisboa.” Era um bairro de gente pobre e humilde, embora também houvesse famílias com dinheiro. Havia gente que se deslocava de Lisboa a Benfica para passar ali o Verão. Agora converteu-se num imenso bairro-dormitório. Nós tínhamos uma casa muito grande com um jardim muito grande… E, lá fora, estavam os pobres. Lembro-me de que as minhas avós passeavam no bairro como castelãs.
– Qual era a sua vida então?
– O colégio não teve em mim qualquer influência e as famílias do meu pai e da minha mãe eram famílias muito grandes e muito diferentes entre si. Havia quem se interessasse pela literatura, outros pela música ou pela pintura; mas ninguém escrevia. Os meus irmãos também não escreviam, nem então nem agora, e embora eu o fizesse, não era com intenção de publicar, nunca pensei em publicar. Escrevia umas coisinhas: poesia, ensaio, novela, narrativa, que depois incluía nas minhas “Obras Completas”, coisas que eram muito más e depois destruía-as; queimava-as no jardim. Os resultados eram tão pobrezinhos, tão esquálidos, que ficava muito triste. Pensava sempre: “Será que nunca irei fazer algo de bom?” Ainda hoje penso assim. Agora estou contente, há livros com os quais fiquei satisfeito, embora pense sempre que poderia tê-lo feito melhor. Quanto mais avanço, mais problemas tenho e mais difícil e lento é o meu trabalho, porque cada vez corrijo mais e mais aumentam as minhas dúvidas. Por outro lado, não creio que as minhas dúvidas sejam tão atípicas. Quando leio os escritos não literários dos autores de que gosto – as suas cartas, notas ou documentos –, encontro sempre nas suas reflexões uma insegurança muito grande. E pergunto-me? “Porquê essa insegurança se o seu trabalho é tão bom? Porque duvidam tanto?” Creio que a insegurança e a dúvida são muito frequentes entre os escritores, não creio que eu seja uma excepção. O meu amigo Tom Colchie, que não é só o meu agente literário, mas também o meu crítico mais duro e exigente, telefona-me todas as semanas e pergunta-me: “Como vai o romance?.” E eu respondo-lhe sempre: “Muito mal; uma merda.” E ele: “Ah, bom; então fico tranquilo…”
– Falávamos dos seus anos de adolescente. Cresceu num ambiente aristocrático e privilegiado. Como eram os seus pais, como eram as suas relações com os seus irmãos?
– Creio que os meus pais são pessoas excepcionais e os seus seis filhos também são. Eu sou o mais velho, o meu irmão João é neurocirurgião e aos trinta anos já era presidente da Associação Mundial de Neurocirurgia. Pedro é arquitecto, Miguel dirige o Centro Cultural de Belém. Nuno é médico e vive em Nova Iorque e Manuel é do corpo diplomático. Todos devemos muito aos nossos pais, porque nos educaram numa grande austeridade. O meu pai nunca nos dizia que alguma coisa estava mal, mas apenas: “Isso é estúpido.” Dava-nos uma grande independência e sentido da responsabilidade. Aos catorze anos dava-nos a chave de casa, não nos fazia perguntas e só nos recomendava: “Não faças nada de que venhas a arrepender-te.” O meu pai é médico, neuropatologista. Trabalhou muito tempo na Alemanha e na Bélgica, é um grande admirador de Ramón y Cajal e tem um grande amor pelos livros. Aos doze anos dava-nos a ler Oscar Wilde, Flaubert… Durante as férias tínhamos de ler um capítulo de “Madame Bovary”, e depois obrigava-nos a fazer um resumo ou a ouvir uma sinfonia e discuti-la com ele e compará-la. Ao princípio era terrivelmente aborrecido, era uma obrigação pesadíssima, mas depois essa disciplina é muito útil, no momento em que desperta a sensibilidade. Eu escrevia então uns poemas muito maus e ele levava-os para o hospital e lia-os aos pobres médicos… No entanto, a mim nunca me dizia se eram bons ou maus. Nem agora falo com o meu pai dos meus livros. Nunca falei com ele dos meus romances nem sobre o meu trabalho como escritor. Ele nunca me disse se gosta deles ou não. Só sobre “A Ordem Natural das Coisas”, onde conto a morte da sua irmã, que eu adorava, me fez um único comentário: “Não compreendi este livro.” Fomos educados numa grande austeridade, se queríamos dinheiro tínhamos de trabalhar. João fazia programas infantis para a televisão e eu dava umas explicações. O meu pai pensava que era essa a forma de conhecer o valor do dinheiro e que era importante que o aprendêssemos. De facto, eu tenho uma relação muito estranha com o dinheiro, creio que influenciada por essa educação. Na última vez que visitei o meu pai, o homem que trabalha no jardim da casa quis beijar-me a mão, como se estivéssemos num regime feudal. Crescemos rodeados de livros e de quadros. O meu pai tem duas paixões pictóricas: Velázquez e Vermeer, no entanto, é muito crítico com Goya. Aos catorze anos deu-me a ler a primeira edição de Céline e, durante o Verão, obrigava-nos a copiar quadros de Gauguin. Ao princípio era horrível, mas pouco a pouco íamos gostando. Penso que o meu pai nos obrigava a tudo isso por reacção contra o meu avô, que era um monárquico conservador que não gostava nada de livros.
– O seu avô António é, na realidade, a sua grande referência.
– Sim, naturalmente. O meu avô foi muito mais importante para mim do que o meu pai. Com ele nunca tive um sentimento competitivo. Foi ele que me levou por toda a Europa aos sete anos, e essa é uma experiência irrepetível para uma criança. Estava sempre com ele. Sempre, sempre. Não encontrei a sua ternura e a sua generosidade noutros homens. Era um homem raro, que possuía a extraordinária qualidade de fazer-me sentir único. Quando me olhava, sentia que era a única pessoa que existia. Dizia-me: “De mim, tens apenas o nome”, porque ele era moreno, era grande, era muito forte e extrovertido. A sua casa estava sempre cheia de gente. Aos sábados todos os filhos iam comer com ele. Dava muitas festas, muitos jantares em casa. Eu, obviamente, não sou assim, ele tinha razão, sou precisamente o contrário dele, mas eu adorava-o. Era o seu neto mais velho, o herdeiro do seu nome e tudo isso… Quando eu tinha treze anos, um dia chamou-me e perguntou-me muito inquieto se eu era maricas… Só porque escrevia.
(...)
María Luisa Blanco é licenciada em Filosofia, mas tem desenvolvido toda a sua carreira profissional no jornalismo, sempre relacionado com a cultura. Entre 1998 e 2001 dirigiu o suplemento cultural do ABC e, actualmente, dirige o suplemento de cultura do El País (Babelia), o mais prestigiado de Espanha. António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em Setembro de 1942, e afirmou-se como um escritor de talento logo em 1979, quando publicou Memória de Elefante (18 edições) e ‘Os Cus de Judas’ (19a edição em 1997). Licenciado em Medicina, especializou-se em Psiquiatria, exercendo até há bem pouco tempo no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa.. É autor de uma vasta obra literária, internacionalmente reconhecida e traduzida, , de que destacamos os romances ‘Explicação dos Pássaros’, ‘Auto dos Danados’, ‘A Morte de Carlos Gardel’, ‘O Manual dos Inquisidores’, ‘O Esplendor de Portugal’ e ‘Exortação aos Crocodilos’, ‘Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura’. Livro de Crónicas, de que agora sai o segundo volume, é outro dos seus livros mais apreciados.
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