Quando os estudantes fizeram tremer a ditadura.
No dia 17 de abril de 1969, durante a inauguração solene do edifício das Matemáticas, Alberto Martins, presidente da Associação Académica de Coimbra, levantou-se e pediu a palavra, em nome dos estudantes, ao Presidente da República, almirante Américo Tomás, na presença dos ministros das Obras Públicas, Rui Sanches, e da Educação, José Hermano Saraiva. Não o deixaram falar, a cerimónia terminou atabalhoadamente e, à saída, os estudantes apuparam o Presidente Tomás.
Nessa noite de há 57 anos, Alberto Martins (futuro ministro da Justiça) foi preso pela polícia política, a PIDE. Começou assim a crise académica que dias depois alastrou às universidades de Lisboa e do Porto. Reunidos em Assembleia Magna, a 22 de abril, os estudantes declararam-se em greve. A Assembleia Magna decretou o Luto Académico, implicando a suspensão da praxe e seus rituais (prolongou-se até 1980) e manifestado através do uso das capas caídas pelos ombros. Quando o ministro da Educação foi à televisão prometer que “a ordem iria ser restabelecida na Universidade de Coimbra” suscitou uma resposta que ficou célebre. Um estudante desenhou uma caricatura mostrando o ministro a cair de uma coluna, com a legenda: “Hermano, o firme”. O autor foi João Botelho, hoje um dos mais prestigiados realizadores portugueses.
Dias depois, Hermano Saraiva mandou encerrar a Universidade – e os estudantes decretaram greve aos exames. A 2 de junho de 1969, data do início das provas, Coimbra acordou em estado de guerra. A cidade fora ocupada pela PSP e pela GNR, com um aparato que incluía patrulhas a cavalo e jipes com grades de arame farpado. Os estudantes não se deixaram intimidar e durante a greve, além dos debates que substituíram as aulas, das sessões de teatro e dos concertos de solidariedade (em que participou José Afonso), organizaram manifestações quase diárias e eventos destinados a ganhar o apoio da população, como a “Operação Flor”, em que ofereceram flores até aos polícias, e a “Operação Balão”, com o lançamento de centenas de balões da Praça da Portagem, um dos locais mais concorridos da cidade, junto ao Mondego.
As universidades portuguesas não voltaram a ser as mesmas. Quanto ao castigo aplicado aos contestatários, de integração forçada no exército, foi um erro estratégico. A punição dos universitários levou-os ao Curso de Oficiais Milicianos, de onde saíram para os quartéis e para o mato, em África. Foram politizar os oficiais de carreira, de quem se tornaram camaradas de armas. Cinco anos depois, a 25 de abril de 1974, o “movimento dos capitães” derrubou a ditadura, num golpe militar cuja imagem icónica são cravos nos canos das G-3, que muitos veteranos da greve dos estudantes de Coimbra de 1969 insistem em comparar à sua “Operação Flor”.
Quando a Académica de Coimbra se qualificou para a final da Taça de Portugal foi o delírio. A 22 de junho de 1969, milhares de universitários marcaram presença no Estádio Nacional, no Jamor, ostentando cartazes alusivos ao protesto coimbrão, cuja exibição nas bancadas a polícia não conseguiu impedir. Os jogadores da Académica – todos estudantes – saudaram o público trajados com as capas negras caídas, em sinal de luto. Nunca se viu tamanho aparato policial num jogo de futebol. Foi a primeira vez que a televisão não transmitiu em direto uma final da Taça. E foi a primeira vez que um Presidente da República não esteve presente para entregar o troféu ao vencedor, que foi o Benfica (2-1). A Académica até marcou primeiro, por Manuel António. Mas Simões empatou e Eusébio resolveu, já no tempo suplementar. Tivessem ganhado, havia um plano que passava pela saída dos estudantes do estádio em manifestação.
A 24 de julho, no rescaldo da primeira época de exames, tornou-se impossível negar o êxito da greve: a adesão dos estudantes foi estimada em 86,8%. O regime sentiu-se repudiado pelos filhos da elite. E também pelas filhas: 45% das estudantes de Coimbra em 1969 eram mulheres que, partindo de uma fraca participação inicial nas atividades associativas (apenas três em 28 membros do Conselho das Repúblicas e só uma entre os sete eleitos para a Direção Geral da Associação Académica), tiveram um “curso acelerado” de consciencialização e mobilização políticas. Quando a polícia prendeu 83 estudantes pelo crime de sedição, 16 dos acusados (cerca de 20%) eram mulheres.
A 4 de julho de 1969, em plena greve, o governo publicou um Decreto que alterava a Lei do Serviço Militar. Mudou as regras, alterando as condições para o adiamento da integração dos universitários na tropa, acrescentando uma nova condição: o “bom comportamento académico” do estudante. Embora o fim da “crise académica” tivesse sido declarado a 1 de outubro de 1969, nesse mesmo dia o Ministério da Educação enviou ao Ministério da Defesa uma lista de 83 “alunos da Universidade de Coimbra considerados gravemente responsáveis pela indisciplina e desobediência coletiva às autoridades”. Daqueles, 49 acabaram por ser mobilizados compulsivamente para o Curso de Oficiais Milicianos na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, a caminho da guerra colonial.
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