As tribos rivais que brandem panaceias para a crise fizeram os seus fóruns. Em Davos, o Económico Mundial acotovelou a elite governamental, empresarial e académica. Segundo a Bloomberg, a plutocracia ligou o 'modo de sobrevivência' – apertou o cinto. Entretanto, o Hotel Belvédère, o único 5 estrelas local, encomendou um lote de Château Petrus (1971).
Cada garrafa: 1500 euros. Já a BB Heli, que liga de helicóptero Zurique e Davos, esgotou a frota. Cada aluguer: 6 mil euros (a 1.ª classe do comboio para os 147 km sai por 60 euros). Em Davos, ninguém é culpado, nem Alan Greenspan, o ex-mago do banco central dos EUA – 'chocado' ao saber que a banca andava a emprestar balúrdios a clientes que assumidamente não podiam nem pretendiam pagar. Na brasileira Belém, o Fórum Social. Brasileira? Perdão. Foi na Abya Yala, como é bolivarianamente correcto indicar a América Latina.
O presidente Lula salmodiou: 'Deus escreve direito por linhas tortas: o deus mercado quebrou'. Bem, Lula escreve torto até por linhas direitas. Como convém unir o útil ao agradável, Belém encomendou 600 mil preservativos. Além de barretes de lama (aqueles simpáticos quadrúpedes andinos) e flautas de bambu (‘El Condor Passa’). O luso Boaventura Sousa Santos foi um dos colunáveis: 'Se o Mundo não reconhecer a posição deste Fórum sobre questões como o conflito em Gaza ou a crise global, corremos o risco da irrelevância'. O que é mais curioso: ele considerar o Fórum relevante ou julgar que ignoramos as respectivas posições (Gaza? O Hamas no trono, Israel sanita abaixo)? Observando Davos ou Belém, senti calafrios: a doença ou certas mezinhas? Marx não podia ter previsto esta crise nem que ele fosse Nostradamus (em certos aspectos, não passou de um Nostradamus).
Nunca vislumbrou a complexidade do crédito e o estágio actual do desenvolvimento. Nem admitiu que o capitalismo desse casa, comida e roupa lavada a milhões de pessoas – às vésperas da crise, a globalização tirou da miséria miríades de chineses e indianos. Claro que a bolha financeira rebentou e agora ameaça tudo o que se conquistou. Estado supervisor? Bom. Estado em vez do mercado? Mau. Utopias senis não salvam a pátria. Lembram-se de como as coisas começam? Tem-se uma causa em que se acredita. Depois, uma causa pela qual vale a pena morrer. Depois, uma causa pela qual vale a pena matar. Enfim, uma causa pela qual vale a pena matar inocentes. O remédio não está no Château Petrus. Mas, muito menos, nos bombos da festa bolivariana.
HUMOR NEGRO
A humorística ‘Mad’ dedicou a sua capa aos primeiros 100 minutos de Obama presidente. E anunciou que passará de mensal a trimestral. Há quem diga que não é por causa da crise, mas sim porque, sem Bush, perderam a inspiração para tantas piadas.
RADICAIS CHIQUES
Dos 14 ministros de Obama, pelo menos oito são milionários – com mais de 1 milhão de dólares em bens, segundo registos públicos. Adivinhem quem vem em primeiro? Bruxos! Hillary Clinton, com património de 50 milhões de dólares.
CONFESSIONÁRIO
Esta semana, um anúncio do ‘NY Times’ atraiu mais atenção do que as notícias. Na verdade, embasbacou. Foi o da venda da nova sede do próprio jornal, recém-inaugurada.
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