Samuel e Filipe aprenderam a tocar nas aldeias onde nasceram. Vão ter agora a oportunidade de mostrar o talento numa orquestra de topo.
Há música nas aldeias portuguesas. "Ir para a banda ao sábado é como ir à catequese, ou ao futebol." Com 25 anos, Samuel Bastos está em Zurique (Suíça) e a caminho de Berlim (Alemanha). Da aldeia de Oliveira (Barcelos) recorda a infância na banda musical, onde ensaiava.
O oboísta entrou na Academia da Orquestra Filarmónica de Berlim – considerada por muitos a melhor do Mundo. Lá o espera um jovem trompetista de outra aldeia, Tarouquela (Castelo de Paiva): Filipe Alves, 22 anos, orgulha-se do feito: "Duvido que no mundo da música haja alguma orquestra que nos realize mais."
MEMÓRIAS DA ALDEIA
As memórias de Samuel ainda vagueiam pela aldeia de Oliveira. Em pequeno hesitou entre a música e o futebol. Era guarda-redes, e chegou a fazer treinos de captação com Manuel Cajuda, no Sporting de Braga. Mas o oboé impôs-se. A música tem tradição na família: o pai foi trompetista e os três irmãos tocaram na banda da aldeia.
Estudou em Lisboa, na Escola Superior de Música, mas não por muito tempo. Uma bolsa da Fundação Gulbenkian levou-o para Zurique. "Há uma diferença abismal entre estudar em Portugal e na Suíça. Em organização, nem se comparam. E depois, ganhei pela qualidade dos professores, são os melhores", diz. Entrou para a Academia de Ópera de Zurique em Setembro de 2010. Já tocou para Plácido Domingo, José Carreras, Jonas Kaufmann e Cecilia Bartoli.
Já são quatro os jovens portugueses oboístas em Zurique, uma minoria. Na residência estudantil onde Samuel mora há chineses, coreanos, australianos, argentinos, americanos. A bolsa de estudos do músico era, inicialmente, de dez mil euros por ano. O que, em Zurique, "é no limite" dos gastos. Quando entrou para a Academia passou a ganhar 1830 € por mês. E sempre teve concertos, a tocar e a ganhar bom dinheiro. Os músicos na Suíça têm uma tabela mínima: 150 euros por cada ensaio de três horas e 180 por concerto.
Samuel é o guarda-redes da Ópera. Literalmente. A Academia de Ópera de Zurique tem uma equipa inscrita na Associação de Futebol de Orquestras. "A maioria deles joga muito mal futebol, por isso precisam de um bom guarda-redes", brinca.
O SONHO DE BERLIM
A partir de Julho, o futuro de Samuel cruza-se com o de Filipe na Academia da Orquestra Filarmónica de Berlim. "É a oportunidade de trabalhar com alguns dos melhores músicos e maestros da actualidade", diz Filipe Alves, que da sua aldeia de Tarouquela levou a primeira paixão: o trompete. Um músico nunca esquece as suas origens. Mas, para este jovem de 22 anos, uma terra com pouco mais de 700 moradores não era público suficiente. O pai está desempregado. A mãe é doméstica. E tem também um irmão músico, que toca trombone.
Depois da Escola Profissional Metropolitana de Lisboa, partiu para o mestrado na Universidade das Artes de Berlim. "Temos aqui [na Alemanha], uma das melhores orquestras da actualidade. Berlim é das cidades mais interessantes para a música."
A vontade de entrar na Academia da Orquestra Filarmónica de Berlim veio de um professor, Stefan Schulz, que o ouviu em Lisboa e gostou. Filipe disputou uma vaga com jovens de toda a Europa e conseguiu. Entrou em Setembro de 2011. Até agora, não tinha nenhum outro português consigo. Mas Samuel vai juntar-se a ele em Julho. Também ele terá a oportunidade de integrar a Orquestra Filarmónica de Berlim, dirigida pelo maestro principal Simon Rattle.
Filipe explica a sorte: "Posso dizer que sou fruto de uma avalanche de jovens portugueses que deram o salto para fora do País graças a professores colocados em Portugal que estão em contacto com o que de melhor se faz na Europa."
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