A atriz italiana Monica Bellucci comprou dois apartamentos na zona do Castelo, em Lisboa.
Da janela rasteira emoldurada por vasos de flores, no largo do Contador-Mor, às portas da muralha do Castelo de São Jorge, em Lisboa, Emídio dos Santos já teve vista para a Escola nº 10 e para os gaiatos que para lá (e de lá) corriam de sapatos desapertados (quando não estavam descalços) e livros ao colo.
Também dali via a drogaria, a fábrica de plásticos e toda uma série de gente que morava abaixo e acima da escola, de um lado e do outro do edifício agora debruado a azulejos e há três anos totalmente recuperado, depois de uns quantos ao abandono. Mas nos últimos dias a azáfama voltou a tomar conta do prédio que no passado albergava tamanha disparidade de pessoas e serviços. Em breve, da sua janela rasteira emoldurada por vasos de flores, Emídio, de 89 anos, verá sair e entrar (assim ela se mostre) a italiana Monica Bellucci, para muitos (e por muito que os anos também passem por ela) ‘la piú bella del mondo’. A conhecida atriz de 51 anos (que esteve recentemente no festival de Veneza na apresentação do seu mais recente filme ‘On the Milky Road’, de Emir Kusturika) comprou dois apartamentos – cada um custou um milhão e trezentos mil euros –, no recuperado Palácio das Damas (assim se chamava o edifício da escola), que uniu num só na mais alta colina de Lisboa, cidade onde em 2007 já tinha estado a rodar uma publicidade para uma conhecida marca de lingerie italiana (ali bem perto do Castelo).
Mobília "de novela"
"Mandou partir o tecto e colocar uma escada. Tem aí uma equipa de decoradores e arquitetos, a maioria italianos que estão numa azáfama só. Pelo que dá para ver aqui de fora os apartamentos são fantásticos, no fundo ela tem metade do prédio", conta Tiago Rocha, empregado do restaurante em frente. "E a mobília que para lá entrou? Está a ver a das novelas? Igual, tudo liiiindo", acrescenta à conversa o colega com quem partilha turno e sotaque brasileiro. "E cortaram a estrutura de ferro das varandas só para poderem passar os móveis, depois de tudo ter entrado voltaram a soldar", lembram-se em uníssono.
"Primeiro vieram abrir portas e janelas, que isto já se sabe que uma casa fechada se estraga mais depressa do que uma casa habitada, ainda para mais com aquelas tintas que agora se usam na construção. Depois vieram pintar. Ontem [terça-feira] chegaram as camionetas, pararam aí mais de três vezes só a descarregar mobílias e caixas. Veja lá que sobrou tanto papelão que foi preciso uma camioneta da câmara para vir buscar tudo e foi cheia até cima. Digo-lhe uma coisa: ou ela tem muita família ou é muito gorda porque aquilo são uns apartamentos grandes com oito assoalhadas cada e ainda tem lá em cima de tudo umas arrecadações [águas-furtadas]. O prédio esteve embargado uns dois anos por causa daquelas coisas que modificaram o edifício original, por isso pagaram uma quantia para poder ficar. Depois das obras feitas continuou a estar desabitada mas agora o Banco Espírito Santo – que é o dono disto – lá conseguiu vender esta parte", acrescenta Emídio, mais preocupado com a cegueira da mulher que dele depende do que com as novas vistas que terá em breve. "Eu, além de funcionário da EPAL, trabalhei no teatro mais de 30 anos, do Parque Mayer ao Dona Maria. Já vi as fotografias dela numa revista, mas farto de aturá-las [artistas] estou eu", continua.
Quando a ‘Domingo’ chegou ao local, das janelas abertas do apartamento comprado pela musa italiana dava para entrever uma mobília fundamentalmente em tons de vermelho e branco, mas assim que no interior se aperceberam da presença da equipa de reportagem, as janelas foram fechadas e, tocando à campainha, ninguém se mostrou disponível para prestar declarações. Por outro lado, no café O Conquistador, a poucos metros, são poucos os que não têm uma palavra a dizer. "Diz que a filha do Bertolucci [cineasta italiano] vem para aqui morar", atira uma idosa. "Você acha que ela vem cá beber café com a gente?", pergunta uma das funcionárias. "Olhe, lá bonita ela é", comenta um dos trabalhadores da recolha do lixo que por ali pára. "A Monica Bellucci tem 50 anos, se ela tivesse 20 era sim razão para eu estar entusiasmado, assim não. Já a atendi em Troia e olhe que não deve muito à… como é que eu hei de explicar… olhe, à simpatia, mas se cá vier vai ser bem atendida", garante Hugo Novo, o mais recente funcionário da pastelaria. Carlos Oliveira, um dos mais dinâmicos moradores do bairro, garante já a ter visto. "Ali junto à paragem do 37, que não é longe da casa que ela comprou. Estava de óculos escuros mas uma mulher daquelas não passa despercebida em lado nenhum", graceja. Só Gonçalo Brito e Cunha, da direção da Há Castelo - Associação de Moradores, Comerciantes e Amigos do Castelo de São Jorge teve de "ir googlar [na internet] o nome para ver quem era. Os meus amigos até gozaram comigo", brinca quem ali vive desde os 4 anos e conta 50 de vida. Sobre o bairro diz que a estocada final – fala em relação à diminuição dos residentes, que eram 1400 nos anos setenta e 350 nos últimos Censos – foi na segunda metade dos anos noventa. "Um projeto da câmara de João Soares em que tentaram fazer obras globais no bairro do Castelo a tempo da Expo’98, pegaram nas ruas uma por uma, tiraram provisoriamente os moradores, enquanto faziam obras. A câmara comprou e expropriou tudo o que pôde no Castelo e à boa maneira portuguesa, o projeto nunca acabou e as pessoas nunca regressaram", acusa.
Antes disso já a escola tinha mudado do largo do Contador-Mor para o interior das muralhas do Castelo, levando com ela os gaiatos apressados com os livros nas mãos. Foi- -se também a drogaria, a fábrica de plásticos e ano após ano os moradores continuaram a desaparecer. "As rendas para habitação no Castelo são altíssimas e estão perfeitamente fora do que são as possibilidades dos anteriores residentes. Tem havido por parte dos donos dos edifícios uma pressão para a saída dos poucos residentes que ainda restam e isto tem levado a uma descaracterização de toda a vida desta zona", acusa Carlos Oliveira, de 66 anos.
Ainda assim, Gonçalo Brito e Cunha reconhece a falta de oferta de casas no local. "Aqui não há muita coisa para comprar, o bairro do Castelo é muito pobre. São espaços pequeninos, escuros, a construção não é de tijolo, é de areia, é muito pouco atraente. É boa para os turistas que recorrem ao alojamento local porque nunca ficam muitos dias", acrescenta. Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que alerta precisamente para o perigo da fixação temporária numa zona da cidade que (ainda) considera autêntica.
"A tendência dominante não é a fixação de residentes permanentes mas sim a de procura flutuante – em virtude da obscena oferta de alojamento local. A persistir esta prática sem controlo e regulamentação, tenho dúvidas de que alguns dos famosos que agora querem vir para cá, aqui queiram permanecer, uma vez que a ‘expulsão’ dos residentes tradicionais pode matar a tão apreciada autenticidade", critica o presidente da Junta.
A história do hotel
Diz a vizinhança que o prédio contíguo ao de Mónica Bellucci – que está bastante degradado – foi recentemente vendido, também pelo Banco Espírito Santo. "Foi comprado por uma cadeia hoteleira bastante conhecida", diz Tiago Rocha. "Morava aí muita gente mas o senhorio entendeu que havia de vender isto, viviam aí pessoas normais, pessoal operário. As pessoas foram saindo há mais de um ano ou dois. Ele vinha aí todos os dias mais do que uma vez. Eu dizia-lhe: ‘você nunca mais vende isto, faça por partes’. Ele disse: ‘não, quando vender, vendo tudo’. E lá conseguiu", conta Emídio. Consta que não muito longe da nova casa de Monica Bellucci também Christian Louboutin (o famoso designer francês de calçado cuja ‘marca’ pessoal são as solas em vermelho) tem morada. "Esse não sei quem é", diz Lúcia Carreteiro, que foi aluna do espaço onde já moram as mobílias da atriz italiana considerada um ícone de beleza. "Ai que me estou a arrepiar toda só de me lembrar da escola. Neste sítio – aponta para os apartamentos à esquerda onde a ‘Bellissima’ vai assentar arraiais – era o grande salão onde fazíamos as festas de Natal. E não me consigo esquecer que daquela varanda caiu a grade com uma colega minha, mas sobreviveu, graças a Deus", recorda a residente Lúcia.
Carlos Oliveira prefere lembrar os ilustres que pelo Castelo também tiveram cama e comida na mesa. "Aqui viveram embaixadores e ministros – como o embaixador Brito e Cunha que vai pelo menos na 4ª geração. Também vivia aqui o chefe do protocolo do Estado à altura da Revolução de Abril. Ou escritores, como Sttau Monteiro, Ary dos Santos, Alexandre O’Neill. Por isso, para os moradores não é estranho haver aqui mais uma celebridade. E ainda morou o António Tabucchi (escritor italiano apaixonado por Portugal) – ali no início da rua do Milagre de Santo António – há ainda um ator português que mora há vários anos aqui na Bartolomeu de Gusmão e a família da fadista Hermínia Silva é daqui", sublinha satisfeito.
Satisfeito ficou também um grupo de italianos alertados pela ‘Domingo’ de que a sua conterrânea se estava a mudar para a casa que estava mesmo à frente deles. "Bela escolha", "Muito belo", disseram de dedo em riste antes da guia os levar para dentro das muralhas e se ouvirem, cada vez mais ao longe, os flashes das máquinas e o burburinho cantado.l
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