As bicicletas ganham espaço nas ruas portuguesas. A tendência é exportada e tem conquistado cada vez mais adeptos
Em 1991, quando entrou na faculdade, a bicicleta já era o meio de transporte de Miguel Barroso, hoje arquitecto; mas por detrás dos vidros dos carros com que se cruzava ,conseguia perceber os olhares de espanto – e até desprezo – dos condutores que o viam no meio do trânsito da capital. "Chamavam-me maluco até porque as únicas pessoas que andavam de bicicleta eram os amoladores de tesouras e um grupo restrito que ia fazer BTT para Monsanto. Não havia ninguém a circular de bicicleta como quem circula de carro." Passaram duas décadas.
Hoje, enquanto leva os filhos à escola ou vai às compras a pedalar, já não lhe chamam maluco. E, quando olha para o lado, não é raro encontrar ‘companheiros’ de estrada que, tal como ele, se deslocam "de um ponto A até um ponto B de uma maneira rápida e sustentável". São muitos, cada vez mais, os ciclistas nas cidades portuguesas –e cada vez menos de ocasião. Tornou-se uma tendência. São solitários de casa para o trabalho, grupos organizados com dia e hora marcada, movimentos que nascem espontaneamente e vão conciliando as disponibilidades nas redes sociais. Há passeios que acabam em piqueniques com concertos improvisados, corridas para o cinema, desafios mais ou menos puxados que cada um faz a seu ritmo, festas temáticas em cima de bicicletas, grupos para todos os gostos e vontades. Basta saber pedalar. E arranjar bicicleta.
Miguel, como se vê, não descobriu agora o ovo de Colombo. Mas encontrou em 2010 uma forma de promover o uso da bicicleta, inspirado num movimento maior que nasceu de uma fotografia do dinamarquês, Mikael Colville-Andersen, que vive em Copenhaga: "Uma mulher de saia e saltos altos a andar de bicicleta. A foto tornou-se viral, correu o mundo" e ganhou uma projecção tal que fez nascer o blogue Copenhaga Cycle Chic. "É a cultura de andar de bicicleta com roupa da moda e com estilo – e para isso basta abrir o roupeiro e escolher a roupa que já lá está. Essa ideia foi fundamental para exportar a cultura da bicicleta e a mostrar ao mundo."
Miguel trouxe a ideia para Portugal, e assim nasceu o Lisbon Cycle Chic – aqui e em muitas outras cidades do planeta (e também no Porto). No seu blogue, desfilam fotos de pessoas a andar de bicicleta. O sucesso do álbum inusitado deu origem a um evento anual que começa e termina no Campo Pequeno, em Lisboa, e que tem cada vez mais seguidores. "O ponto de viragem foi em 2010; desde aí ,vê-se cada mais gente a andar de bicicleta".
UMA MATILHA COOL
A Matilha Cycle Crew também tem conseguido juntar muitos pedais em simultâneo. O projecto, que nasceu no Facebook e tem menos de um ano de existência, é gerido por três jovens com "vontade de dinamizar o uso da bicicleta com as pessoas. Nós somos os rostos da Matilha, mas os membros são todos os que andam de bicicleta em Lisboa. Este grupo quer ser de toda a gente", explica Micaela Neto, de 26 anos, que em conjunto com o namorado, Patrick Santos, da mesma idade, designers gráficos, e Fernando Augusto, de 25, copywriter, amigo de ambos, pôs a ideia a pedalar.
A ideia germinou quando se aperceberam das vantagens de usar a bicicleta como transporte diário. "Começámos por organizar passeios com a malta do emprego e de uma brincadeira chegámos aqui. Os ‘gostos’ no Facebook começaram a crescer e conseguimos ter 50 pessoas no nosso primeiro evento, o que foi uma óptima surpresa. A maioria das pessoas nem conhecíamos", contam.
O Cycle brunch começou no Cais do Sodré, seguiu pela avenida da Liberdade, cortou em direcção ao Rato e terminou no jardim da Estrela, num piquenique partilhado entre todos os participantes. "Mais do que um acessório de moda, mais do que a possibilidade de ficar tonificado, queremos que as pessoas a vejam como um veículo do dia-a-dia". Têm conseguido angariar fãs que continuaram a acompanhá-los nos eventos seguintes. "Fizemos recentemente o ‘Bike to Work Day’, na semana da mobilidade, em colaboração com a Câmara de Lisboa, e houve pessoas que disseram: ‘Foi graças a vocês que comecei a andar de bicicleta." O grupo, apesar de já ter criado uma sweat e um chapéu a pensar nos ciclistas, no embalo do projecto, não pretende transformar-se numa marca. "O nosso objectivo não é ganhar dinheiro com isto. Queremos que as pessoas participem e levem cada vez mais amigos a pedalar."
MANÍACOS DO PEDAL
Às quartas-feiras à noite, com os ponteiros virados para as 21h00, os Maníacos do Pedal também dão corda às bicicletas em trilhos que desvendam uma Lisboa de sete colinas, "sempre surpreendente e diferente".
São professores, gestores financeiros, bancários, estivadores, joalheiros, comerciantes. "Para nós, a bicicleta é quase um deus, um vício enorme, sejam cinco da manhã ou nove da noite, esteja chuva ou faça sol", conta Carlos Marques, professor, de 40 anos, um dos fundadores do fórum, há seis anos, em conjunto com mais dois Carlos. Aos sábados ou domingos, os caminhos são outros. "Temos as grandes rotas, a partir de 100 quilómetros, as mega-rotas, a partir de 150. Os trilhos preferidos ao fim-de-semana são pela Arrábida, Sintra, Zona Oeste, Arruda dos Vinhos, Torres Vedras. No fundo, agrada-nos o contacto com a natureza".
Um dia descobriram que mal se reconheciam quando vestidos à civil – "vamos sempre equipados com o equipamento dos maníacos e com capacete" – e resolveram partilhar convívio em terra, apeados. "Temos o café maníaco, o aniversário maníaco, o Natal maníaco, em que levamos as esposas e os miúdos connosco. Aí a bicicleta fica mais de lado".
Noutro ponto de Portugal, João Paulo Pedrosa, de 48 anos, junta-se, na última sexta-feira de cada mês, a outros ciclistas que com ele percorrem pontos vários da cidade de Aveiro. Ao mesmo tempo, em outros locais do País, e em outras 300 cidades do mundo, milhares estão a fazê-lo na mesma altura. Em Aveiro, o encontro é sempre junto à ria. Quando morava em Coimbra, já o fazia, com partida do largo da Portagem. João também já participou no mesmo evento em Lisboa, com saída do Marquês de Pombal e até em Madrid. Faz tudo parte das andanças da Massa Crítica, uma ideia que nasceu nos Estados Unidos, em São Francisco, e chegou a Portugal há oito anos. Por cá, mais de uma dezena de cidades aderiram às ‘bicicletadas’ com hora marcada.
"Reclamamos que também fazemos parte do trânsito, como uma manifestação, mas pela positiva", explica este agricultor no desemprego. A bicicleta tem ajudado a não desanimar.
AS HISTÓRIAS DE UM NEGÓCIO E DE UMA OFICINA QUE É GRATUITA
O casal Ana Pereira e Bruno Santos, de 31 anos (formados em Química Aplicada e Informática, respectivamente) criou em 2006 a Cenas a Pedal, uma empresa que quis "colmatar uma carência a nível de oferta de soluções de transporte utilitário em bicicleta". Funcionam como escola, oficina e loja e promovem eventos como piqueniques, discussão de temas relacionados com o recurso à bicicleta para transporte e lazer e até uma feira de bicicletas usadas.
Por outro lado, a Cicloficina dos Anjos serve para fazer a reparação das bicicletas de forma totalmente gratuita (tem ferramentas e acessórios cedidos por patrocinadores) e também meter as mãos na massa e aprender a fazer pequenos arranjos, às quartas a partir das 19h00.
NOTAS
FEDERAÇÃO
A Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta tem hoje 30 mil associados.
CICLOVIAS
Há um total de 873 quilómetros de ciclovias, ecovias e ecopistas em Portugal.
PREÇOS
O preço de uma bicicleta pode ir de 60 a dois mil e muitos euros. Em tempo de crise, voltar à bicicleta tem sido opção.
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