As grades da prisão congelam laços de afecto. Só não os cortam. Francis Obikwelu está a pagar a defesa do ‘primo’ (como, afectuosamente, o chama) Sylvester Omodiale, um antigo atleta dos 400 metros barreiras no Sporting, que apostou na corrida errada: foi condenado a quatro anos e seis meses de prisão por ter servido de ‘mula’ de 790,495 gramas de cocaína; transportou a droga, em 68 ‘bolotas’, no estômago entre a capital da Guiné-Bissau e Lisboa. Unidos desde 1994 pela aventura de não voltar à Nigéria e de provar a sorte em Portugal, agora só se reencontram na voz.
Quando é possível telefonar a partir do Estabelecimento Prisional de Lisboa, “ele liga para mim. É pena que eu não lhe possa também ligar...” – lamenta à Domingo o luso-nigeriano eleito Atleta Europeu de 2006, a viver e a treinar em Madrid, Espanha. Num discurso humilde – com as palavras em português a roçar o espanhol –, Obikwelu prefere não revelar nada sobre o contrato com a advogada Maria Paula Gouveia Andrade, que lhe defende o amigo. “Não gosto de falar nisso. Se faço isso por uma pessoa, não é para demonstrar, é com normalidade.”
“Sinto-o igual, feliz”, revela Obikwelu. Assim estará o ‘primo’, apesar da infelicidade (pese embora a antítese). Dia 5 de Setembro de 2006, 07h30, a manhã do seu vigésimo nono aniversário, Sylvester Omodiale aterrava na Portela, Lisboa, para não mais apagar as velas do bolo. A Polícia Judiciária (PJ) – através da Direcção Central de Investigação do Tráfico de Estupefacientes – já andava no encalço de “suspeitos de introduzirem, com alguma regularidade, em território nacional, quantidades apreciáveis de estupefacientes”.
A fiscalização resultou na detenção de cinco nigerianos e de seis quilos de cocaína. O ex-atleta carregava no aparelho digestivo o equivalente a ‘coca’ suficiente, estima-se, para 3952 doses individuais – a render mais de 36 mil euros.
“Tu és mais preto do que eu.” Longe de complexos ou discriminação, apenas num jeito divertido de falar, Sylvester metia-se com Obikwelu. Eram inseparáveis, desde que se conheceram na selecção nigeriana de Juniores de Atletismo. O primeiro tinha 17 anos, o outro 16, e aproveitaram uma viagem a Portugal paga pela Federação para não regressarem à terra natal.
À porta do autocarro que os levaria de volta, quando ninguém os via, largaram as malas e fugiram com um terceiro amigo, Wilson Ogbeide. E de Lisboa partiram para o Algarve. “Não correu bem e tive de fazer algo para comer. Então, fui trabalhar para as obras – falar disto não tem nada a ver com vergonha, até dá mais força.” Obikwelu admite a garra com que definhou os dias no seu país de sonho. “Preferia trabalhar para ajudar a família.” Entretanto, o ‘primo’ Sylvester deixou as obras e voou para Inglaterra. “Ele foi visitar a irmã, mas as coisas não correram bem. Depois, liguei-lhe para voltar porque eu já estava no Belenenses e ele também podia ir.”
Os nigerianos estavam preparados para grandes corridas. Fausto Ribeiro treinava os atletas do Belenenses quando, em 1996, tira Obikwelu das obras e, pouco depois, se junta a eles Sylvester. Os atletas foram viver para um espaço do clube e, pelo menos, Obikwelu recebia 150 euros por mês. O Belenenses estava em crise financeira e, no Verão de 1998, Fausto passa para o Sporting com os seus pupilos.
Hugo Dias, hoje com 29 anos e fisioterapeuta a viver em Abrantes, conheceu Obikwelu e Sylvester no refeitório do clube. Recua à época de 1994/95, quando ainda jogava futebol nos juniores do Belenenses: “O Sylvester sempre foi cinco estrelas, superdivertido, brincalhão, muito religioso e sempre pronto para ajudar os amigos.” Só que, claro, a precisar de ajuda. “Muitas vezes eu trazia comida de casa dos meus pais para lhes dar. Desde leite, a cereais, a todos os bens de primeira necessidade”, revela o amigo que no sábado (24 de Fevereiro) foi visitar Sylvester à cadeia.
Naquela época, Ricardo e Isabel Ferreira conheceram Obikwelu no Restelo. Pouco depois, o casal enternecia-se com a pergunta: “E se eu te tratasse por mãe, tu aceitas?” Mesmo com uma família de seis pessoas, não tardou a resposta. Tornaram-se pais de afecto do promissor atleta. “A minha casa era, como se costuma dizer, onde entram todos. Normalmente, ao jantar éramos entre dez a 14 pessoas”, conta Ricardo.
Sylvester, à mesa na conversa, era muito “brincalhão”; “era um homem caseiro, gostava de cozinhar. Enquanto íamos passear, ele ficava em casa; foi sempre muito dedicado ao Francis e aos amigos”, retrata Ricardo.
O sonho de ser campeão fazia-lhe fervilhar as veias; Sylvester, em pista, atingia uma velocidade e destreza a ultrapassar barreiras impressionantes. E se já estava prestes a alcançar um topo, o carrossel pendeu a pique. A 20 de Maio de 2001, o então atleta do Sporting foi sujeito a um ‘meeting’ (controlo anti-doping) individual, em Lisboa. O resultado acusava nandrolona – um esteróide anabólico sintético derivado da testosterona, que melhora as prestações.
A polémica espantou os leões: Sylvester foi afastado, o clube perdeu os 18 pontos conquistados pelo corredor dos 400 metros barreiras, entregando ao Futebol Clube do Porto o título de campeão nacional e só não ficaram fora da Taça dos Campeões por serem, naquele ano, o clube organizador.
“Salvo o erro, foi logo para o Canadá, depois do doping”, conta Ricardo. Segundo o processo de acusação de tráfico de droga, Sylvester terá uma mulher e uma filha naquele país. Obikwelu não acredita, mas ninguém desmente.
“O Sylvester queria sempre mais e melhor. Era uma pessoa cheia de qualidades. Unicamente, alguém quis fazer dele mais do que ele era” – prossegue Ricardo. “A nível nacional, devia suplantar todas as marcas a breve trecho.” Nem o amigo Hugo sabe o que se passou no caso do doping e recorda: “A sua vida era o desporto. Qualquer pessoa, ainda por cima sentindo-se inocente, ficaria triste com isto.”
Do que Moniz Pereira, vice-presidente do Sporting, se recorda de imediato é do facto de a carreira de Sylvester ter sido curta. “Teve um problema de controlo antidoping e o Sporting perdeu o campeonato para o Futebol Clube do Porto, por um ponto.” O antigo treinador acrescenta ainda que o nigeriano “era muito bom corredor”.
“Até 2002, vivemos sempre juntos [em apartamentos dos clubes]. Éramos como irmãos: comíamos juntos, saíamos juntos”, lembra Obikwelu. Mais: os ‘primos’ iam juntos à Igreja. Ao domingo, agarrado aos princípios cristãos Sylvester vestia o hábito branco, a cruz ao peito. Como acólito, ajudava à missa na Igreja do Corpo Santo (dominicana), em Lisboa. A notícia da detenção (a 5 de Setembro de 2006) pesou o ambiente. E intensificou as orações. “Aquilo caiu como uma bomba”, recorda Aline Vieira. Conheciam-se há 11 anos e nada impediu a ministra dos dominicanos de depor a favor do ex-atleta. “No tribunal perguntaram-me as coisas mais estranhas. Se eu alguma vez o tinha visto sob o efeito do álcool ou de drogas!?”
Os dominicanos estavam habituados a um Sylvester risonho; bem-disposto. “Fazia piadas por ser negro: ‘não preciso de café porque sou da cor do café’”, recorda Aline. Agora, o ex-atleta campeão nacional da Nigéria e campeão de África (em 2000) só pode agradecer por carta as orações feitas à sua pessoa. “Até fiquei muito bem impressionada com a carta, num inglês muito correcto, uma letra muito bonita.” Mas Aline não perdeu a compaixão. Costuma ir visitá-lo à prisão. “Ele gosta muito de Bacalhau à Braz e de leite. Mas só lhe posso levar queijo partido aos bocadinhos. Ele adora queijo.” E como está Sylvester? “I’m fine. Everything's ok.” – responde (“estou bem, está tudo bem”).
A advogada contratada por Obikwelu disse apenas à Domingo que não gosta de prestar declarações sobre processos pendentes do recurso apresentado ao Tribunal da Relação de Lisboa. Porém, acrescenta, espera que “se obtenha a suspensão da pena”.
Os amigos que falam agora com Sylvester repetem, em uníssono, as suas palavras: “Obrigaram-no a engolir a cocaína.” Mas não foi o que ficou provado em tribunal. “O arguido tinha conhecimento de que transportava consigo cocaína, assim como da natureza estupefaciente dessa substância, e mesmo assim, com o único intuito de auferir proventos pecuniários, quis fazê-lo e concretizou os seus intentos.”
Acontece que, “devido à forma como os suspeitos transportavam e dissimulavam a droga no interior do corpo e ao risco de vida que corriam pela ingestão de grande quantidade de ‘bolotas’ tornou-se necessário, para todos eles [cinco nigerianos], o acompanhamento médico numa unidade hospitalar de Lisboa”, comunicou a PJ. Sylvester foi operado duas vezes – a primeira cirurgia não terá corrido bem; na segunda extraíram-lhe a droga, dizem os amigos. A Domingo apurou que a sua defensora conta processar este hospital, mas não foi possível confirmar de qual se trata.
“O que ele mais gostava de fazer era correr. Depois destas cirurgias parece--me que seja impossível vir a acontecer”, explica o amigo e fisioterapeuta Hugo Dias. “Antes de tudo isto acontecer, eu até estava a tentar relançar-lhe a carreira no Abrantes Futebol Clube. Cheguei a oferecer-lhe estadia na minha casa”, acrescenta. Já Obikwelu remata: “As nossas famílias são muito religiosas e católicas e sempre nos disseram para acreditar em Deus.”
'MULAS' E 'GLUTÕES'
Os correios de droga – ou ‘mulas’ – são imaginativos a dissimular a droga. O exemplo mais perigoso para a saúde é dado pelos ‘glutões’, que introduzem no corpo ‘bolotas’ – pacotes de droga feitos, por exemplo, com preservativos. Por dinheiro, os ‘glutões’ arriscam-se a um dos pacotes se romper e sofrerem uma overdose. Em 2005, um em cada três reclusos era estrangeiro. Destes, 47 por cento foi preso por tráfico de droga.
APREENSÕES EM 2006: COCAÍNA
925,4 kg por ar
16 253 kg por mar
17 157 kg por terra
34,5 toneladas em total
45,73 euros/grama preço médio
1576,6 milhões de euros em total
DOIS AMIGOS, DUAS VIDAS
ASCENSÃO E QUEDA
Nasceu na Nigéria a 5 de Setembro de 1977 (29 anos). Viajou para Portugal em 1994 numa representação paga pela Federação de Atletismo nigeriana. Fugiu do grupo com mais dois companheiros, Francis Obikwelu (eleito Atleta Europeu de 2006) e Wilson Ogbeide, e ficaram no País. Ex-atleta de 400 metros barreiras do Belenenses, entre 1996 e 1998, e do Sporting, até 2001 – quando foi apanhado nas malhas do doping (nandrolona, substância que melhora o rendimento desportivo). Em 2000, foi campeão da Europa de clubes, campeão nacional da Nigéria, campeão de África e participou nos Jogos de Sydney. A 5 de Setembro de 2006, data do seu aniversário, foi preso pela Polícia Judiciária (operação ‘Voo Picado’) no Aeroporto da Portela, Lisboa, com 790,495 gramas de cocaína no estômago, proveniente de Bissau. Seguiram-se duas intervenções cirúrgicas – a primeira, mal sucedida – para retirar a droga. Está preso no Estabelecimento Prisional de Lisboa, condenado a quatro anos e seis meses de reclusão por tráfico de estupefacientes. Não foi decretada a expulsão.
CAMPEÃO E AMIGO
Nasceu em Onitsha (Nigéria) a 22 de Novembro de 1978 (28 anos), um ano mais novo do que Sylvester Omodiale. Tal como este último, aproveitou o Campeonato de Juniores do Mundo para se radicar em Portugal. Ainda ilegal, rumou para o Algarve onde trabalhou na construção civil e conheceu a inglesa Mary Josephine Morgan, a sua primeira ‘mãe de afecto’. Em 1996 consegue ir para o Belenenses. Nessa altura, liga para Sylvester – que estava em Inglaterra com a irmã – e pede-lhe que regresse para integrar o clube do Restelo. Os dois viveram sob o mesmo tecto e treinaram no Belenenses e no Sporting. Francis adquiriu a nacionalidade portuguesa em Outubro de 2001, ao contrário do amigo nigeriano que nunca se conseguiu nacionalizar e, nesta altura, já tinha sido afastado do clube leonino. Enquanto Sylvester partiu para o Canadá, Obikwelu foi medalha de ouro no Campeonato da Europa de Atletismo de 2002. Mais tarde, sagrou-se vice-campeão olímpico nos 100 metros em Atenas (2004), altura em que Sylvester trabalhava nas obras. No ano em que o ‘primo’ foi preso e condenado, o luso-nigeriano foi eleito Atleta Europeu de 2006.
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