<I>Nuno Costa Santos nasceu em Lisboa (1974) e cresceu nos Açores. É jornalista e guionista. Como jornalista, foi director da revista Inventio (Faculdade de Direito de Lisboa), redactor de ‘A Capital’ e colaborador do ‘DNA’ (suplemento de sábado do ‘Diário de Notícias’), da ‘Ler’, da ‘Grande Reportagem’, da ‘:Ilhas’ e da ‘Focus’. Tem trabalhado para televisão e fez parte da equipa de ‘Zapping’, tendo sido igualmente editor dos programas ‘Serviço Público’ e ‘O Trabalho’ (todos da RTP 2) e redactor do ‘Primeira Página’ (RTP1). </I>
Neste momento, é um dos elementos das Produções Fictícias e, nessa qualidade, coordena o departamento de texto do projecto ‘Manobras de Diversão’, o qual integra também como autor. Compilou os poemas para uma pequena antologia de novíssima poesia portuguesa, editada no México. ‘Dez Regressos’, distribuído nos próximos dias, é o seu primeiro livro.
Título: “Dez Regressos”
Editora: Edições Salamandra
Quem diria que iríamos acabar namorando à maneira antiga no meio da agonia da cidade. Quem diria que estas duas almas habituadas a escarpas e ao ar salgado iriam trazer o que resta da sua intimidade para este lugar estranho, a milhares de quilómetros da baía onde ainda hoje ecoa o nosso segredo.
Estou há meia hora a olhar para ti e gostava de te poder dizer alguma coisa bonita. Durante a viagem para cá, ainda fiz alguns rabiscos nas costas do cartão de embarque – sinto-o dentro do bolso direito, enrodilhado entre um lenço e as chaves de casa. Mas agora não me lembro de nada do que escrevi. E mesmo se me lembrasse tu só irias perceber a declaração à terceira ou quarta, tal é o barulho cruzado dos motores dos carros.
“Vim ter contigo, Idalina”. Foi esta frase simples e redundante que me saiu quando, ontem, abris--te a porta da rua e olhaste para a minha velha mala castanha e para as minhas botas de carneiro com os atilhos soltos. Levaste-nos para a cozinha sem saber que iríamos conversar durante horas sentados à volta da mesa.
Lembro-me de, logo no início, ter sentido algum desconforto; de, atrás da tua figura encolhida, o branco sujo e degradado das paredes da cozinha me ter empurrado para sentimentos depressivos – para o medo do falhanço do nosso reencontro. A dada altura, concentraste a tua dor oculta numa pequena frase, tão ao teu jeito. “Trazes a culpa nos olhos”. Tentei explicar-te que não era assim. Tu riste-te para dentro e, nervosa, voltaste a pegar na faca da manteiga. Enquanto te via barrar o pão, pensava na justiça do teu comentário.
Evitei, até agora, verbalizar isso, mas a verdade é que fui arranjar coragem a um velho sentimento para levantar voo na tua direcção. Estás certa. Vim ter comigo, Idalina.
Durante anos, desvalorizei todas as promessas incumpridas que te fiz. Procurava considerá-las normais, condizentes com a nossa relação sem moral, sem equilíbrio. Isso acontecia sempre durante as viagens de barco para a tua casa. O vento contra sacudia todas as minhas angústias e eu desembarcava com uma segurança desmesurada, mais própria de um marinheiro regressado de uma missão no mar. Entrava pela tua casa dentro e deixava o peixe fresco em cima da mesa.
Quando te via um pouco mais triste, procurava animar-te com palavras de esperança; com mais uma promessa.
A partir de certa altura, percebi, pela tua expressão, que já não acreditavas em nenhuma das minhas conversas. Mas eu continuei a fazer de actor decadente que ainda insiste em subir ao palco para tentar convencer um público que o despreza.
Inventei não sei quantos destinos. Marquei dezenas de datas-limite para a nossa fuga. E tu, sentada na tua cadeira, levantando e baixando a cabeça, sabias que a cena seguinte seria exactamente igual à da noite anterior: daqui a nada, eu iria para o quarto e, já com a luz apagada, esperaria pelo calor da tua presença.
Quando voltava para casa, começava a ser tomado pelo arrependimento. Era o vento. O vento contra libertava as angústias, o vento a favor ajudava a reconstruí-las. Todas as perguntas iam ter à jura de não mais voltar. Atravessava depois o cheiro de casa com uma dor muito fina picando o coração. Mas, ao abraçar o corpo da minha mulher, tudo desaparecia. A vida voltava a fazer sentido. Uma das minhas maneiras preferidas de adormecer era imaginar a sensação agradável do vento batendo no meu rosto, durante a viagem de barco que faria no fim do dia seguinte. A minha imaginação, por puro egoísmo, não navegava mais algumas milhas, sempre rente à costa. Não se dava ao trabalho de entrar pela janela do teu quarto, normalmente aberta, para saber se já havias adormecido ou se ainda estavas sentada em cima dos lençóis, com a branca expressão de quem já percebeu não existir uma hipótese de futuro para nós.
Quem diria, Idalina. Quem diria que os nossos corpos esculpidos a sal iriam aportar nesta cidade que não nos diz nada, junto a esta gente que nos ignora. Tenho a impressão de que, se caísses daí de cima, ninguém iria olhar. Talvez mais tarde, quando chegassem as televisões, fosses rodeada de testemunhas. Talvez.
Agora, é como se só nós dois estivéssemos aqui, namorando à janela, como o faziam os antigos. Pedi-te, ontem, que assim fosse e tu acedeste. Quis que o nosso reencontro fosse feito de pureza e de memória, mas, no fim de contas, estraguei tudo. Não há nada de natural nisto. Parece-me também, daqui de baixo, que já te faltam forças para os afectos. Estás muito pálida e vê-se que respiras com dificuldade. Ainda sofres a ausência do André, talvez a única pessoa que te deu atenção. Orgulho-me de te ter ajudado a agradecer-lhe isso. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para corresponder à forma do teu pedido: arranjei a melhor embarcação, falei com outros pescadores para me ajudarem, esperei pela madrugada certa. As cinzas do André foram lançadas ao mar de uma maneira sóbria, antes de uma jornada normal de pesca. Orgulho-me de ter correspondido, da melhor forma, ao desejo dele – e ao teu desejo. Mas esse gesto está longe de ser suficiente para me apaziguar. Ainda hoje não me perdoo. Nunca levei o nosso filho dentro do barco, numa das milhares de viagens para a tua casa porque tive medo que isso precipitasse a tragédia da minha vida na freguesia. O menino iria querer voltar e, mais dia, menos dia, todos saberiam da minha vida paralela. Até aí percebo a dimensão da minha cobardia.
O que não aceito em mim, o que nunca aceitarei em mim é o facto de nunca te ter levado sequer uma fotografia, por mais miserável que fosse, do nosso rapaz. Viste-o, de relance, quando nasceu e logo te foi roubado dos braços. Até hoje, tudo o que sabes da sua actual fisionomia é fruto da tua imaginação. Por causa da minha crueldade, o nosso filho, o teu filho, é apenas uma ficção dentro da tua cabeça.
Ontem, menti-te mais uma vez, durante a nossa longa conversa na cozinha. Pousaste o pão em cima das migalhas espalhadas no guardanapo e perguntaste, a medo, se tinha, alguma vez, regressado à tua casa. Disse-te que não. Despistei o teu olhar desapontado com uma qualquer pergunta sobre a qualidade do pão daqui em comparação com as nossas carcaças.
Mas só pensava no dia do regresso. Voltei, Idalina, voltei à baía. Não o fiz num momento melancólico, como seria de esperar da nossa relação de desencontros. (...)
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