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Discurso sobre o rato

O rato não pode ser um mamífero. Se o cão amigo é um mamífero, o rato não pode ser um mamífero.

14 de fevereiro de 2010 às 00:00

Por cada homem que morre afogado nascem dez milhões de ratos. É um cálculo proporcional, exactamente como contar tantas noites negras para tantos dias claros. E os ratos são aqui as noites negras que assustam.

É como se nos tivessem arrancado um órgão indispensável ao interior do corpo; e olhamos para ele agora ali, no chão, com patas. É um rato.

É um assalto orgânico, instantâneo, instintivo. Sentimo-nos roubados quando vemos um rato, mas roubados não em dinheiro ou propriedades exteriores, roubados no descanso; a falta vem de dentro. Tudo o que nos enoja relembra um pormenor do passado. Um calafrio é uma memória orgânica de algo que correu mal, séculos atrás. E um rato é produtor, precisamente, de frios desequilíbrios no corpo.

O rato não pode ser um mamífero. Se o cão amigo é um mamífero, o rato não pode ser um mamífero. Esta é a ciência, a única ciência verdadeira: a ciência das sensações.

O que provoca asco não é semelhante ao que provoca ternura. Não é necessário ser Aristóteles para o afirmar. O que é semelhante é semelhante, e o que é diferente é diferente. E o rato não é uma energia boa. É uma energia fechada. Não é um animal. É uma doença com pêlos.

Porém, todos têm o que merecem. O rato tem cara de rato; e é este o castigo severo que a natureza lhe atirou.

Algumas observações (sobre outros assuntos)

1 - O conhecimento principal de que são proprietárias as crianças é a curiosidade.

2 - O lado esquerdo do Imperador é mais valioso que os dois lados de um homem pobre.

3 - Parecendo que não, a superfície do lago é um tecto bem mais resistente que o de uma fábrica robusta. Qualquer coisa que aconteça, voltará sempre ao normal.

4 - O coveiro abre-te o apartamento para entrares. E tu entras. E ele também entrará.

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