Ainda sem defender os divórcios na hora, o BE apresentou esta semana uma proposta parlamentar “contra o casamento contrariado e forçado”. Chumbou. Nada que preocupe Carlos Couto, Tânia Candeias e Higuinaldo das Neves que já se divorciaram num instante... pela net. É a rapidez prometida por um advogado a casos de mútuo acordo.
O divórcio pode estar por um clique. Na internet claro. Não é novidade que muitos casais se tenham conhecido na net, tenham casado depois frente ao padre ou no registo civil. A novidade é que há quem rompa on-line com o matrimónio. Mais sabem os advogados que, para angariar clientes, dão consultas jurídicas à distância, via e-mail ou por chat de conversação – com um olho nas tecnologias e outro na resolução do problema.
Tânia Candeias aos 16 anos encontrou o rapaz que mais lhe acelerou as hormonas da adolescência. “Pediu-me em casamento três vezes e, como eu já não podia ser pediatra, aceitei.” A escola entrou no marasmo. O sonho era outro – bem diferente do idealizado pelos pais, que nem queriam ouvir falar de alianças nos dedos. Solução? “Para casarmos precisei de engravidar da Luana.” O marido, aos 18 anos, foi trabalhar com o pai dela nas minas de sal, em Loulé; o casal encontrou morada na casa da família dela e, quando Tânia atingiu a maioridade, nasceu a Lara.
“Tinha a ideia de que só me casaria pela Igreja quando já tivesse casada (pelo registo civil) há dez anos. Quando tivesse a certeza de que era para toda a vida.” Mas quatro meses depois do nascimento da caçula, caiu por terra o desejo da bênção do padre. “Ele punha os amigos à frente de tudo. Tanto que a Lara nasceu fruto de uma reconciliação... e se era para eu criá-las sozinha...”
Para quem a net não oferecia empecilhos, bastou escrever ‘divórcio’ num motor de busca e surgiu o site divorcionet.pt. “Eu dizia-lhe durante o namoro: ‘Não vale a pena casar porque o divórcio está caro’”, conta Tânia, hoje com 23 anos, mas longe de adivinhar que a internet os ia separar. Apesar de tudo, avançou com o processo on-line. “Foi apenas por uma questão de rapidez e de disponibilidade. Nada mais.”
De acordo com Ricardo Candeias, advogado que lidera o site divorcionet.pt, os homens procuram a internet para se divorciar e as mulheres preferem apoio jurídico (ver caixa). Já a Ordem dos Advogados tem dúvidas sobre esta forma de consultas.
Casar era... “boa ideia”. Higuinaldo das Neves, viúvo, hoje com 62 anos, conhecia há anos a pessoa a quem se uniu em 2005. Até porque ela já tinha passado a barreira dos 45 anos e isso dava segurança. Casaram – “a relação era o melhor possível”. Mas não tardou a desilusão do catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia e ex-director da Direcção de Comprovação de Qualidade do Infarmed (Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento). “O casamento era óptimo. Até que ela foi visitar a filha à Suécia e desapareceu sem deixar rasto.” O professor tinha de reagir. Impunha-se o divórcio.
Sem bens comuns nem filhos, Higuinaldo apenas tinha o e-mail da sua mulher, que foi crucial para o advogado conseguir as procurações para romper laços. “Tenho internet desde sempre. Descobri o site através de uma pesquisa e, desde que assinámos os papéis, em duas ou três semanas tudo se resolveu”, conta.
Um caso diferente, mas com desfecho igual aos anteriores é o de Carlos Couto, 45 anos. Vive no corrupio de ser motorista privado. Levanta-se cedo, larga tarde o trabalho. Já vivia há cinco anos na mesma casa do que a sua mulher, separado, a dormir em quartos diferentes. Só a internet, que nem dominava, o convenceu de que o divórcio não lhe ia matar a profissão. Telefonou para o advogado e iniciou o processo.
Para trás ficaram as provações de um casamento simples, em 1989, seguido do copo-d’água singelo. Um ano mais nova – na altura com 25 anos –, a noiva estava grávida de três meses de uma menina. Seis anos depois nasceu o menino. Divorciaram-se agora por mútuo acordo. Carlos comprometeu-se a pagar a pensão de alimentos aos filhos, a vê-los quando quiser e, sem compromisso, a manter-se amigo da ex-mulher.
RICARDO CANDEIAS LIDERA O DIVORCIONET.PT
“São mais os homens a pedir o divórcio através da internet e mais as mulheres a colocarem questões sobre, por exemplo, a pensão de alimentos, as condições para ficar com as crianças, a partilha dos bens”, explica o advogado responsável por divórcios no site divorcionet.pt. Questões que não ficam sem a resposta de Ricardo Candeias. Os preços vão desde cinco euros mais IVA por uma pergunta de aconselhamento jurídico via e-mail a pacotes de conversação em chat por 15 euros mais IVA a cada 15 minutos. O divórcio on-line, para quem já tomou a decisão de mútuo acordo, custa entre 190 euros mais IVA e 600 euros mais IVA por um pacote com tudo incluído. Este site já tratou de cem actos destes.
ORDEM PROCESSA SITE
Os serviços prestados pelo site divorcionet.pt, além de satisfazerem as necessidades de alguns clientes, oferecem dúvidas à Ordem dos Advogados (OA). Horta Pinto, presidente do conselho disciplinar da OA de Coimbra, esclarece à Domingo que “decorre um processo disciplinar para apurar se é ou não correcto dar consultas desta forma”. Ou seja, sem a presença do cliente, sem garantia de que o advogado está a falar com a pessoa que se quer divorciar. E depois, há a fixação de honorários, por exemplo, ao minuto. O advogado Horta Pinto garante que o divórcio tradicional “pode ter a mesma rapidez” do on-line. E, quanto ao preço, poucas diferenças nota face ao processo tradicional: “Poderá custar menos de 900 euros, até 500!”; além do mais, “há conservatórias onde numa semana a pessoa se divorcia, outras onde demora três meses”. A única diferença parece residir no facto de o cliente precisar de dispor de meia hora na presença do advogado.
Há dois anos registou-se um decréscimo de 2,1 por cento no número de divórcios praticados em relação a 2004, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. A região Norte do País continua a liderar os divórcios, sendo que 22 576 foram registados nesta região face a um total de 22 853 a nível nacional.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.