Filho de açorianos, Alcido vigia as ruas de Bristol, nos EUA, contra o bullying de crianças.
Não voa, não é mais rápido do que uma bala, nem tem a força de um ciclone. Mas, à sua maneira, Alcido Daluz quer ser um herói. Um herói à escala humana, com objetivos modestos e um nome inventado por si para se apresentar à cidade de Bristol, estado de Rhode Island, nos Estados Unidos da América. Um dos destinos da emigração açoriana, tanto que o ‘administrator’ (administrador) da cidade de 22 mil habitantes é um tal de António ‘Tony’ Teixeira, um lusodescendente.
Mas as razões que levaram Alcido a criar o alter ego ‘Portuguese Hero’ (‘herói português’) não têm tanto a ver com as suas raízes açorianas – a terra dos seus pais – mas antes com um acidente que presenciou há poucos anos. "Era de noite e ouvi um grande estrondo em frente à minha casa. Um carro tinha acabado de se despistar à minha porta. Saí e fui ver o que se passava."
Uma condutora tinha-se despistado com o carro e gemia, enquanto dizia algumas palavras em português. Língua que ele não domina porque nasceu americano e foi em inglês que sempre falou, mesmo dentro de casa. Mas algo mudou nele nesse dia. "Foi quando, pela primeira vez na vida, percebi que podia ajudar os outros. Fui eu que chamei a ambulância, acompanhei depois a recuperação da senhora no hospital. E o facto de ela falar português inspirou-me."
Nasceu assim a personagem. Alcido passou a ser o ‘Portuguese Hero’. Pensou que poderia ajudar aqueles que, como ele na juventude, sofrem humilhações e violência na escola. ‘Bullying’ é o termo inglês usado também por cá para designar essa guerra surda que faz tremer os mais fracos em tantas escolas por esse mundo fora. Realidade que Alcido viveu. "Desisti cedo da escola e em parte foi por causa disso. Tomava remédios para a asma, engordei, era gozado. Lembro-me de que um dos piores dias da minha vida foi quando fui ameaçado por dois colegas mais velhos na biblioteca. Não sabia como defender-me." Deixou os estudos no 9º ano de escolaridade.
DA OFICINA PARA A RUA
Alcido Daluz tem 27 anos e gere a sua própria oficina de conserto e embelezamento de automóveis. Mas o que realmente lhe dá gozo é sair para a rua, ir às escolas falar com os miúdos, dizer-lhes que "o bullying não tem de ser um castigo que dure para sempre".
Alcido foi alvo de notícias nos media locais, criou a página de Facebook do ‘Portuguese Hero’ e esforça-se por fazer chegar a mensagem "Não façam do bullying um segredo. Contem aos vossos pais ou a um adulto." Uma vez por semana, Alcido sai para a rua à noite, em Bristol ou em Providence, a capital do estado. Não leva fato nem máscara e as suas armas são o telemóvel, a lanterna e uma máquina para filmar e fotografar. "Percorro as áreas onde dormem os sem-abrigo, pergunto-lhes se está tudo bem. Mas não ando a correr riscos desnecessários. Se vir algo errado ligo para a polícia", conta à ‘Domingo’ via telefone quem se orgulha de ter "estragado" um negócio de droga – foi a sua presença que levou o dealer e o cliente a fugirem.
Agora que a América se afunda num espesso manto branco – esta semana a Florida foi o único estado que não teve neve –, o lusodescendente suspendeu as rondas noturnas: "Quando vier a primavera volto a sair."
Pretende tirar um curso da polícia local para cidadãos que querem manter Bristol segura. Nascido numa cidade onde existe um bairro a que chamam ‘Little Portugal’ (‘Pequeno Portugal’), Alcido confessa o sonho de conhecer a terra dos pais. Até lá, vai continuar a torcer pelo "Sporting Lisbon", vibrando com o futebol num país em que o desporto-rei não é o mais popular.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.