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Dois não bastam, três não são demais

Estão na casa dos 30 anos, estatuto social médio-alto e apresentam-se com situações de infidelidade e ciúme. É o perfil dos casais portugueses que se renderam à terapia de casal.

25 de dezembro de 2006 às 00:00

Os populares costumam ditar que ‘entre marido e mulher não se mete a colher’, mas a modernidade dá provas do contrário. A terapia de casal existe há muito, mas nos últimos tempos converteu-se numa moda, a que, em tempos de crise, nem Madonna e o marido Guy Ritchie resistiram.

Desengane-se, porém, quem julga que só de aparência vive esta vertente da psicologia. Os resultados indicam que quando o casal se deita no divã a colher que recebem à boca agracia-os com um elixir que funciona quase sempre como regenerador de amor. Tudo começa como num sonho: uma paixão arrebatadora, uma tentativa de mudança de vida, a vontade de construir família. Com o tempo, os sonhos diluem-se, a compreensão é inexistente, a tensão toma conta do casal, soltam-se sentimentos de ódio, inveja, a comunicação fica impraticável.

A ver pelos números, os portugueses conhecem esta história de frente para trás e de trás para a frente. Portugal é o país da União Europeia (a 15) onde se verifica o maior aumento da taxa de divórcios entre os anos de 1995 e 2004.

Segundo um relatório do Instituto de Política Familiar, apresentado este ano no Parlamento Europeu, em Bruxelas, o crescimento dos divórcios no País foi de 89 por cento em apenas nove anos. São, por isso, cada vez mais os jovens que jogam pelo seguro, preferindo deixar o enlace para segundo plano nas prioridades da vida. De acordo com os últimos dados, em 2005 o número de casamentos baixou; como nos anos anteriores, tendo-se realizado um total de 48 671 casamentos face às 49 178 uniões registadas em 2004.

Qualquer relacionamento humano é a determinada altura da vida posto em cheque, sendo passível de dificuldades em maior ou menor grau e de sofrer com o desgaste natural do tempo. Quanto maior a convivência e a intimidade entre as pessoas, maior é a probabilidade de aparecimento de confrontos e desentendimentos.

É o que acontece quando duas pessoas mergulham numa vida a dois. Com o tempo, a chama do amor recebe a ameaça de ser engolida por panos molhados.

Se, por um lado, há casais que conseguem lidar e gerir estes altos e baixos, outros não têm essa capacidade, muitas vezes, por motivos que a própria razão desconhece. Mas antes de conhecer o desgaste e partir para a indiferença, o casal que ainda se ama e sente que há sombra de esperança não deve desistir.

PONTOS QUE PODEM SER TRABALHADOS PELO TERAPEUTA

Discordância, insatisfação sexual, dificuldade de resolução de conflitos, aumento de discussões, intolerância, irritabilidade, déficits na educação de filhos, melhoria da dinâmica familiar são alguns pontos que podem ser trabalhados por um terapeuta de casal.

A terapia de casal é uma forma de psicoterapia conjunta que ajuda a melhorar o relacionamento conjugal, tendo como meta derrubar barreiras de comunicação, desenvolver habilidades para a resolução de problemas, mudar padrões de comportamento, reavaliar situações atritivas, melhorar a vida sexual. “O objectivo do terapeuta depende de caso para caso mas, em regra, é melhorar as competências de comunicação do casal e ajudá-los a reconquistar o equilíbrio relacional e psíquico”, adianta Marta Pietra, terapeuta de casal na clínica Psicronos, em Lisboa. O ponto central é a felicidade do marido e da mulher.

Um estudo recente sobre este tipo de terapia, efectuado na Universidade de Washington, EUA, gaba-se de conquistar 89 por cento de sucesso a ajudar casais a melhorar significativamente a saúde do seu casamento. Marta Pietra corrobora a eficácia, embora haja excepções. “O grau de eficácia da terapia de casal é bastante elevado, mas existem situações de grande conflito e desgaste que são particularmente resistentes à terapêutica”, garante.

Também, por isso, o tempo da terapia seja indeterminado. “Habitualmente são intervenções breves (10-12 sessões. Poderá acontecer que um dos cônjuges passe da terapia de casal para acompanhamento individual e manter--se assim durante bastante tempo. Mas por norma a terapia terá acompanhamento máximo de um ano”, elucida a especialista.

AUMENTO DA PROCURA

Nos últimos anos o número de casais portugueses a procurar ajuda de um terapeuta para os ajudar a enfrentar problemas conjugais tem aumentado. “Os casais têm cada vez mais consciência da necessidade de cuidarem da relação e simultaneamente são cada vez mais exigentes um com o outro. As pessoas procuram ser felizes com o seu companheiro/a, já não estão tão dispostas a conformarem-se com uma relação simplesmente acomodada”, justifica Marta Pietra.

A faixa etária predominante de portugueses nas consultas de terapia de casal situa-se na casa dos 30. O estatuto social é na grande maioria médio-alto. Os problemas que os levam a procurar auxílio estão quase sempre relacionados com situações de infidelidade e ciúme. E há casos que, embora aparentemente simples, também necessitam de uma mãozinha.

“Tivemos um casal cujo problema prendia-se com o facto de a mulher atrasar-se por períodos de uma hora ou mais sempre que combinava um encontro com o marido. Ele reagia mal a estes atrasos porque se sentia desrespeitado. Trabalhámos com o casal no sentido de perceber o limite de tempo suportado pelo marido sem despoletar zanga.

Concluímos, após reflexão, que seriam cerca de 15 minutos. Nesta negociação a mulher percebeu o quanto era importante para o marido não esperar. Quando ela aceitou esta diferença houve uma mudança no próprio comportamento e na relação entre ambos”, conta Marta Pietra, para que se perceba que “quando o casal fala sobre pequenas grandes coisas, acontecem mudanças que fazem com que ambos se sintam melhor na relação”.

CONVERSA MAIS EFICAZ QUE ANTIDEPRESSIVOS

A terapia de casal é mais eficaz que as drogas para tratar a depressão, segundo uma pesquisa britânica, que concluiu que o parceiro de uma pessoa depressiva pode ajudá-la a superar estados depressivos e prevenir futuras crises.

“O objectivo da terapia é tirar o foco da pessoa depressiva como uma pessoa doente e centralizar a atenção na relação”, explicou o professor Juliam Leff do Instituto de Psiquiatria de Londres, um dos especialistas responsáveis por este estudo. “A ideia é que se a relação melhora e o parceiro se torna um aliado, a pessoa depressiva provavelmente vai sentir-se melhor”, acrescentou ainda.

Para chegar a estas conclusões, o especialista e a restante equipa dividiram 77 casais com um parceiro depressivo em dois grupos. O primeiro recebeu a terapia do casal por um ano, sem drogas. No outro, a pessoa deprimida tomou antidepressivos, sem terapia. Após o término do tratamento, os dois grupos foram acompanhados por mais um ano. “A terapia de grupo foi de facto melhor que as drogas antidepressivas. A depressão foi reduzida durante o ano de tratamento e essa vantagem persistiu no segundo ano”, rematou Leff.

Num compromisso a dois, nem tudo são rosas. Há um ponto em que o casal perde as forças para lidar com as diferenças. A terapia conjugal pode dar uma mão.

A: NO QUE CONSISTE?

A terapia conjugal possibilita novas abordagens para a solução dos conflitos que, pela falta de diálogo, atingem o relacionamento familiar. Rever as regras, as exigências, as expectativas, os sentimentos e a própria falta de identidade de cada cônjuge, são os objectivos principais da terapia.

B: ACORDO MÚTUO

Se existe amor, afecto e interesse em manter o relacionamento, uma terapia de casal pode ser, sem dúvida, benéfica. No entanto, é extremamente importante que tanto o homem como a mulher estejam de acordo com esta solução, pois de nada vai adiantar a participação forçada de um deles.

C: QUANDO PROCURAR AJUDA?

O ideal é o casal não deixar acumular muitos ‘desencontros’. Ressentimentos acumulados funcionam como um corrosivo nas relações, dificultam a comunicação e pode levar a um afastamento progressivo em relação ao outro, gerando frustração e diminuição de consideração e afecto.

D: DIVÓRCIO É A SOLUÇÃO

Mesmo nas situações em que a dissolução do relacionamento é a única opção, a terapia de casais poderá ser benéfica. A ajuda especializada possibilitará que esta passagem seja vivida sem grandes traumas ou conflitos, deixando os parceiros mais preparados para usufruir de relações futuras.

O MÁGICO (Opinião da jornalista Dulce Garcia)

Se os casamentos fossem empresas, tinham pelo menos cinco departamentos: desejo, compreensão, afecto, cumplicidade e expectativas.

O primeiro começaria por ocupar todo um andar. É o padrão de comportamento de 80 por cento dos amantes quando se descobrem: o corpo adquire a estranha dependência de outro corpo, há uma vontade imensa de o ter por perto, a sua ausência chega a provocar dor física.

Escusado será dizer que a equipa deste departamento seria minimalista: o desejo basta-se a si próprio, quanto muito exige alguns adereços ou um cenário mais extravagante – mesa em vez de cama, e por aí fora.

Depois viria a secção das expectativas: altas, no início são sempre altas. Até porque ainda não se teve tempo para perceber que o outro é bem diferente do retrato perfeito que se mandou tirar dele à revelia.

Afecto e cumplicidade também não faltam no início das relações. Tudo é perfeito. E tem de ser. Porque se quase todos os casamentos acabam em divórcio, há-de haver pelo menos uma razão para as pessoas insistirem em casar outra vez.

Finalmente, a compreensão, é de entre todos os factores o que exige mais racionalidade. E como a razão anda muito longe dos braços dos amantes, pode-se dizer que esta área de negócio começa sempre em défice. Com o tempo, tende a piorar: se as mulheres falam quase o dobro dos homens, e eles só ouvem um terço do que elas dizem, lá se vai o diálogo.

Quando as empresas começam a dar problemas, chama-se um consultor. Alguém que faça o diagnóstico e aponte a cura. Se o negócio é amor, talvez valha a pena procurar a ajuda de um terapeuta. Que terá pelo menos estes cinco factores para analisar. A questão é: como é que se recupera um edifício sem sair do sofá? Como é que se devolve o desejo aos corpos e se refaz a folha das expectativas, depois das primeiras contas saírem furadas?

Afecto? Esse até pode continuar a morar lá. Cumplicidade? Seguramente que haverá um álbum de memórias. Mas falta alguma coisa. Provavelmente aceitar o outro, depois de o compreender.

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