A morte das duas filhas numa vala roubou-lhe a alegria de viver mas não a coragem. Durante nove anos, Conceição travou uma luta desigual contra os gigantes da Lusoponte. Na sexta-feira, 22, o caso irá chegar ao fim. Haverá justiça?
Dos lábios murchos sai-lhe uma ladainha amarga, que rasga como uma faca o lençol de silêncio do cemitério adormecido. As palmas das mãos corroídas pela lixívia apertam as duas lápides rectangulares, ainda frias da geada. Conceição ampara-se a elas, como se a dor lhe tivesse roubado a força das pernas, cerrando os olhos com raiva. No escuro, imagina duas raparigas a correr por um infindável tapete verde de relva, entre gargalhadas pueris. A mesma relva para onde pingam as suas lágrimas furtivas, denunciadas pelo ruidoso fungar. Sem lenços de papel no bolso, limpa a cara à manga do casaco barato. O seu rosto ensopado mais parece um mar de solidão. Os nove anos de distância não lhe atenuaram o sofrimento, talvez guarde a secreta esperança de ver as duas filhas a emergir da vala lamacenta que lhes tirou a vida.
A guineense de 58 anos ajoelha-se para poder acariciar os retratos a sépia de Grigória e Sãozinha. Não trouxe ‘bouquets’ de flores – o magro ordenado co-mo empregada de limpeza não lhe permite grandes lirismos – mas vem carregada de saudades e lamentações. São sussurradas umas quantas palavras de carinho, imperceptíveis, porque o ruído do motor de uma máquina de cortar relva engole-as consigo. A um ritmo pachorrento, quatro funcionários do cemitério de Carnide vão arrancando ervas daninhas e arranjando os canteiros de flores. Habituados a estes e a outros dramas diários, nem olham duas vezes para a mulher chorosa, que parece desaparecer no mar de ciprestes e campas simétricas. “Não é justo. Porque tiveram de ser vocês a morrer? Ainda tinham tanta vida pela frente!”, grita inconformada. O clamor pungente sai-lhe das mais profundas entranhas do corpo, como se o funeral não tivesse sido num longínquo dia frio de Fevereiro de 1996, mas nesta tépida manhã de Abril. “Porquê?”, pergunta numa voz que se vai sumindo. Sem uma resposta que lhe reconforte a dor, Conceição levanta-se, por fim, do chão húmido e despede-se das duas filhas com a mesma ladainha triste e rouca.
ÁLBUM DE MEMÓRIAS
Grigória, de 10 anos e Sãozinha, de 7 anos, gostavam de brincar aos índios e ‘cowboys’, com paus toscos a fazer de pistolas e flechas nas vielas do bairro de barracas da Quinta do Carmo, na portela de Sacavém. Todas as tardes, depois da escola, as duas irmãs pulavam cercas enferrujadas, fintavam poças de lama e corriam à beira da lagoa, indiferentes ao cheiro a lodo podre. “Eram um poço de alegria, sempre de um lado para o outro na reinação”, recorda José Quintino, 50 anos, o tio e vizinho das raparigas. Quando Conceição chegava à noitinha do trabalho, Grigória e Sãozinha escondiam-se sob os lençóis da sua cama e serpenteavam-se como duas cobras. A mãe nunca resistia à brincadeira, mesmo se estivesse esgotada: “Onde andam as minhas meninas?”, perguntava num tom falsamente grave. Os risos infantis e o ranger das molas do colchão eram a resposta. Voltava então a entoar a voz cavernosa que as divertia: “Quem são os bichos que estão no meu quarto?”. Mais gargalhadas. Era altura de envolver as crianças nos seus braços com afecto: “Éramos uma família pobre mas feliz”, recorda Conceição com nostalgia enquanto folheia o espesso álbum de família.
Nas primeiras páginas guarda as fotografias mais antigas, algumas já descoloridas e amachucadas, dos tempos da Guiné-Bissau. “Era professora primária e o meu marido dono de uns bons pedaços de terra onde se plantava milho, feijão, batata, mandioca e cana-de-açúcar”, revela. “Até tínhamos criação de animais.” Custa a perceber porque abandonou uma vida de certezas por um pedaço de sonho falhado. “A minha filha mais velha, a Manézia sofria de problemas de audição e a Sãozinha tinha os olhos tortos”, explica num português pouco escorreito. Em Bissau escasseavam os especialistas que pudessem tratar delas, portanto Conceição decidiu juntar as poupanças e viajar com as três filhas, ainda bebés, rumo a Lisboa, no final dos anos 80. Deixou para trás o marido e os restantes quatro filhos. Uma decisão difícil, que viria mudar o rumo da sua vida. “Viemos viver com a minha irmã mais velha na Quinta do Carmo.”
Da terra natal recebia notícias a conta-gotas. E raramente eram boas-novas. “Um dia, enviaram-me uma carta a contar que o meu marido fora assassinado. Uns colegas deitaram-lhe veneno na cerveja. Tinham inveja por ele ser o capataz da quinta”, acusa a mulher, embora nunca se tenha provado o crime. “Quis regressar, mas como, se tinha gasto tudo nos bilhetes de avião? Os meus filhos ficaram na Guiné ao Deus-dará, sem pai nem mãe, e eu não tinha dinheiro para trazê-los.”
1996, O ANO FATAL
Marcos, o rapaz mais popular do grupo, ídolo das meninas mais novas, lançou a prancha de ‘bodyboard’ às águas fedorentas da ‘piscina’ – nome pelo qual era conhecida a enorme vala de instalação de energia eléctrica para a Ponte Vasco da Gama, escavada à porta do bairro esquecido. As chuvas fortes de Fevereiro haviam-na transformado numa lagoa com oito metros de profundidade. “Quem é a corajosa que a vai buscar?”, perguntou em tom de desafio. Ele queria estrear o seu brinquedo novinho em folha naquela tarde de sábado. “Eu vou. Já aprendi a nadar e tudo”, respondeu Sãozinha, a mais nova, com prontidão. A prancha deslizava apenas a dois metros de distância, não seria difícil apanhá-la – e secar a roupa ainda antes da mãe chegar do trabalho. “É canja”, terá pensado antes de inspirar fundo e saltar para a água sob os aplausos das outras crianças.
A rapariga franzina nem teve tempo para dar a primeira braçada. A lama engoliu-a como se tivesse uma âncora presa aos pés. Assustada, Grigória, sua alma gémea das brincadeiras, tentou logo agarrar-lhe as mãos, mas a irmã estava demasiado longe da margem. Não suportando mais os seus gritos de socorro, encheu-se de coragem e deu um mergulho com esperança de a poder salvar. Mas nenhuma delas sabia realmente nadar, desaparecendo nas águas turvas. Poucos segundos depois, a comprida prancha de esferovite era o único sinal de vida na conspurcada vala. “Quando lá chegámos, as raparigas já estavam mortas”, recorda José Luís Gouveia, comandante dos Bombeiros Voluntários de Sacavém. “Não havia nada a fazer.” Apercebendo-se dos contornos da tragédia, os moradores juntaram-se em redor da obra com a ira estampada na cara. “Os responsáveis da Lusoponte abriram os buracões em frente às barracas e não colocaram barreiras de segurança nem contrataram um vigilante” , lembra José Quintino. “Limitaram-se a usar uma rede velha, já existente, que só protegia um dos lados.” O guineense revela que só depois do acidente é que colocaram tapumes em redor da obra. “Tinham um desprezo total por todos nós. Talvez por sermos africanos, não sei…”.
Enquanto a polícia tentava serenar os ânimos cada vez mais exaltados, Conceição limpava o chão num lar de idosos da Bobadela, ignorando o drama familiar. Estava feliz. Iria passear com as três filhas no dia seguinte. Até cantarolava músicas tradicionais da sua terra. Os lábios emudeceram quando a sua encarregada, de olhos postos no chão, a chamou à parte: “Desmaiei mal recebi a notícia”.
Era um golpe duro demais: em apenas dois anos perdia o marido e duas filhas. “Grigória queria ser médica. Tinha boas notas na escola. Porque lhe roubaram o sonho?”, pergunta. Desde então, nunca mais ninguém lhe arrancou um sorriso dos lábios.
SENHORA DO DESTINO
Conceição sai do prédio espelhado, linhas modernas, do centro da cidade no sentido inverso dos rapazes engravatados e perfumados. Eles ignoram a sua presença. Os ponteiros do relógio ainda indicam nove da manhã mas a africana já transporta nos ombros um ar vencido: aspirou, limpou o pó, arrumou dossiers, esvaziou baldes de lixo desde as seis da manhã. “Este é um dos meus três empregos”, anuncia numa voz descorçoada. Ao fim do mês, não leva mais de 300 euros para casa. “É pouco, mas é o meu sustento.” Até ao meio-dia tem algum tempo livre. Um luxo. Depois de almoço, voltará a pegar no balde e na esfregona, só terminando a faxina às oito. Adormecerá em frente ao televisor, a assistir a mais um episódio da novela ‘Senhora do Destino’. São assim os seus dias...
Conceição vive num tristonho sétimo andar num dormitório de Lisboa, Santo António dos Cavaleiros, com o seu actual companheiro, a filha mais velha, Manézia –hoje com 20 anos – e Filipe, o rebento de 12 anos da nova relação amorosa: “Fui realojada em 1997, um ano depois da morte das minhas filhas. Pensavam que me calavam se me tirassem das barracas, ou se pagassem o funeral, mas enganaram-se…”. Depois da tragédia, avançou com uma queixa-crime contra nove engenheiros e técnicos da Lusoponte/Novaponte. “Eles são todos culpados”, exclama enquanto percorre os corredores mal iluminados do prédio. Os vizinhos com quem se cruza no elevador trocam apenas um seco ‘bom dia’. Nada mais. “Não sei o nome de quase ninguém. Cada um faz a sua vidinha. Mas gosto de morar aqui. É mais sossegado do que nas barracas”, declara enquanto roda a chave da fechadura na penumbra. A campainha da porta encontra-se avariada. Conceição encolhe os ombros, resignada: “Arranjá-la para quê?”.
Os móveis envelhecidos da casa são tão tristes como o seu estado de alma. A sala, decorada com gravuras de Nossa Senhora de Fátima e fotografias da Irmã Lúcia, transformou-se no último reduto de fé. “Sou preta e pobre. Não vou ter as minhas filhas de volta, mas rezo para que se faça justiça.”
Por enquanto não teve sorte. O caso da Lusoponte arrasta-se há tanto tempo nos tribunais que na Boa-Hora os funcionários já a conhecem pelo primeiro nome. “Nove anos é demais. Mesmo para a lenta justiça portuguesa. Mas estou determinada a ir até ao fim”, afirma, num lampejo de determinação. “E não me intimido com os sorrisos de troça dos senhores engravatados nos corredores do tribunal. Sei que tenho a razão do meu lado.”
SAPATOS NO ASFALTO
José Quintino tem acompanhado de perto a triste saga da irmã, embora viva a alguns quilómetros dela, no bairro social da Apelação. “Conceição perdeu a vontade de viver. Anda meio aérea desde a morte das filhas, chora por tudo e por nada.” Ele tem razões para se preocupar. Numa noite em que esperava pelo autocarro no Campo Grande, Conceição atravessou a estrada, sem olhar para os lados. “Ela deu um grande pulo para o lado, até ficou com os sapatos presos no asfalto. Se não fosse o automobilista a travar, já cá não estava.” Ela recorda-se do episódio. De voz embargada, deixa escapar: “Só pensava em coisas negativas. Quis acabar com a minha vida.”
Aos domingos, a numerosa família de guineenses reúne-se à mesa de um café em Santo António dos Cavaleiros. Os mais velhos deitam abaixo uma garrafa de Casal Garcia, recordando o sol equatorial de Bissau, os caldos de mancarra (amendoim), ou as águas mornas nas ilhas de Bubaque e Bolama. Alguns choram de saudade. “Se ganhar o processo e for indemnizada, a primeira coisa que vou fazer é visitar os meus quatro filhos na Guiné. Não os vejo há vinte anos”, suspira Conceição. Sempre que pode, envia-lhes 50 euros por correspondência, insuficientes para suprir as suas carências. “Eles estão desempregados, passam fome. Recentemente, as suas casas foram incendiadas”, conta, mostrando uma fotografia de uma habitação em cinzas e um rapaz agachado de olhar vazio. “É a miséria…”
A advogada, Gracinda Barreiros, 45 anos, conduz o caso desde o início mas ainda se emociona com o drama de Conceição. “Ninguém mostra muita vontade de ressarcir uma mãe que perdeu duas filhas.” Depois de tantos avanços e recuos, este mês surgiu finalmente a luz ao fundo do túnel. Na próxima sexta-feira, 22, serão feitas as alegações finais do caso da Lusoponte, presidido pela mediática juíza Ana Peres. “É uma boa notícia”, exulta Gracinda Barreiros que pediu uma indemnização de 3,9 milhões de euros no processo cível. “Não será fácil ganhar. Quando há muita gente envolvida, faz-se o jogo do empurra e ninguém é culpado. Os arguidos são pessoas poderosas, que arrastaram o processo para que ele caísse no esquecimento.” A causídica tem esperança que mais uma vez David, o pequeno pastor, consiga vergar o gigante Golias, como conta a lenda bíblica: “Porque a morte não tem preço” .
A pequena Conceição fecha o álbum de fotografias, arrumando-o no armário da sala, sem sorrir. ‘Dai-nos Senhor o Pão Nosso de Cada Dia’, lê-se numa reprodução barata da ‘Última Ceia’ de Da Vinci, pendurada na parede sem cor. Está na hora de ir para o fogão da cozinha e aquecer uma sopa que lhe vai aconchegar o estômago para o resto do dia: “Tenho de ganhar a vida. Se não, quem dará de comer aos meus filhos?”
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