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Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

E SE EU FOSSE FAMOSO?

Um pescador e uma florista, uma peixeira e um motorista de autocarros, um barbeiro e uma estudante, um pastor e um oleiro. Ao todo são treze, como na casa do ‘Big Brother’.

01 de novembro de 2002 às 20:12

O Domingo Magazine percorreu o País para sentir o que significa a fama para gente de todas as idades, de todas as profissões e de todas as sensibilidades. Gente simples, igual a todos nós, com os mesmos sonhos e as mesmas desilusões dos nossos amigos, dos nossos vizinhos, até de nós próprios. Feitas as contas, a fama é, para muitos,o que menos interessa. Mas são eles, na verdade, os nossos verdadeiros famosos!

Pastor

Boidobra, Covilhã

24 anos

Casado

Um filho quase a nascer

“Quero ser o pastor mais famoso do País”

“Claro que não sou famoso! Só para as minhas ovelhas... As pessoas nunca me quiseram conhecer… Serei quando tiver um rebanho meu. De momento sou um pastor assalariado e ganho 300 euros. Mas quero ser o pastor mais conhecido do País! A pessoa mais famosa que conheço é o meu patrão... Sinceramente não conheço mais ninguém, porque alguns dizem-se famosos e são pessoas mais tristes do que eu. Não lhes ligo muito, porque eles também não querem saber de mim. O Figo, por exemplo, é dos poucos portugueses que se poderá considerar famoso, porque é conhecido no Mundo inteiro e é bom jogador. Nunca estive com nenhum famoso nem estou muito interessado. Eu posso parecer um zé ninguém mas sei muito da vida… Para dizer a verdade não vejo muito televisão e não leio revistas, porque não sei ler. A Marisa Cruz? Quem é?... Não, não conheço! Mas não aceitaria participar no ‘Big Brother’. Só quem precisa de dinheiro é que aceita participar em programas assim.”

MARIA BORDA DE ÁGUA

Peixeira

Nazaré

64 anos

Casada

Três filhos

“A Rádio Nazaré já me quis entrevistar”

“Se eu fosse famosa também gostava de ir ao ‘Big Brother’. Isto se fosse solteira e não tivesse compromissos... Aquilo é só brincar, comer e beber... E trazem o oficiozinho quando vêm. Se eu fosse rapariga nova, aceitava e ia para lá brincar também. Não ia fazer nada de malcriado. Eu até digo que eles fazem qualquer coisa debaixo daqueles cobertores, mas não se vê... Eles, se falarem assim devagarinho, devagarinho, é natural que ninguém ouça cá fora. Eu até gostava de saber cantar. Em pequena cantava, mas era as modas aqui da Nazaré, no Carnaval. Também gostava de estar a apresentar na televisão e fazer aquelas coisas bonitas que elas fazem. Mas não sei ler. No nosso tempo era só trabalhar, nem televisão havia... A gente, se queria passar um serãozinho, ia a casa de umas e outras. Era só trabalhar. Eu trabalho desde os 12 anos, sempre no peixe, e casei com 13. Da Rádio Nazaré já vieram aqui falar para eu lá ir falar, mas eu disse que não ia porque o meu marido não é dessas coisas.”

Varredor

Lisboa

46 anos

Casado

Duas filhas

“Adorava ser cantor”

“Gostava de ser famoso. Então não gostava?!... Gostava de fazer de tudo um pouco... Talvez ser cantor, porque sempre gostei muito de cantar. Antigamente, quando vivia na província, ainda cantei em algumas festas populares para divertir a malta, mas nunca houve oportunidade de seguir a carreira. Há 21 anos que sou varredor de rua. Se fosse convidado, acho que aceitava entrar na casa do ‘Big Brother dos Famosos’. Havia muita gente com quem gostava de estar lá dentro... Mas se tivesse de escolher um famoso, seria o Carlos Cruz, porque o admiro muito como profissional.

Pescador

Alvor, Portimão

51 anos

Casado

Quatro filhos

“Quem quer um velho a cheirar a peixe?”

“Na infância todos temos os nossos sonhos e queremos ser alguém de importância, mas acabei por contentar-me com a realidade: a ida para o mar todos os dias, à procura do sustento para a família. E este trabalho não deixa ninguém rico nem famoso. Agora, só me tornaria numa figura pública se me saísse um prémio grande na lotaria ou no totoloto. Caso tal acontecesse, deixaria estas canseiras e dedicaria o tempo a passear, comer e beber, à boa vida que nunca tive… As pessoas mais famosas que conheço são a minha mulher e os meus quatro filhos. Os outros, vejo-os pela televisão mas dou-lhes pouca importância, embora mais do que a que eles me dão a mim... Como gosto muito de futebol e do Benfica, ficaria satisfeito se surgisse a oportunidade de dar um abraço ao Simão Sabrosa. Neste ‘Big Brother’ eu por certo não teria lugar, pois não quereriam lá alguém já velho e a cheirar a peixe, habituado a viver perto do mar…”

Empregada

de balcão

Faro

30 anos

Casada

Dois filhos

“É melhor famoso do que pobre...”

“Ai, se eu fosse famosa, dava a volta ao mundo em 80 dias... Comprava uma vivenda com piscina, um carro topo de gama e ia àquelas festas onde eles vão todos muito bem vestidos. Depois passava os dias inteiros no café, sentada a dar à língua, como os famosos, e até passagens de modelos fazia, se pudesse. E também não me preocupava nada com a censura, porque cada um faz na vida o que bem entende e, seja como for, a vida dos famosos é uma bela vida. Mas pronto, não nasci num berço de ouro nem estudei como eles estudam, por isso não tive sorte. Embora nunca se saiba o dia de amanhã... Ainda posso vir a ser famosa de repente, como os concorrentes do ‘Big Brother’. Gostava tanto de ir para lá... E havia de fazer tudo muito direitinho, para ganhar o dinheiro do prémio. A minha esperança é que algum dos meus filhos tenha mais sorte do que eu e venha a ser famoso. Eu já conheci o actor Mário Gomes e o ‘Fininho’. E estive ao pé dos Excesso. Foi cá uma emoção...”

MARIA MANUELA PEREIRA

Florista

Porto

40 anos

Solteira

Um filho

“Já estive ao pé do Mário Soares”

“Famosa, eu? Ia ser uma carga de trabalhos... Olhe, eu nem sou famosa e já estou a dar uma entrevista. Imagine, agora, como seria se viessem cá todos os dias os jornais e as televisões vasculhar a minha vida... E, se me convidassem para o ‘Big Brother’, lá ia o sossego. Que ia eu para lá fazer? Não aceitaria nem que me pagassem bem. Eu até nem gosto do programa. Gasta-se um dinheirão naquilo, que não serve para nada. Ser florista é uma profissão vulgar. Se fosse jogador de futebol ou andasse na política é que era falada. Até se eu assaltasse um banco e roubasse muito dinheiro ficaria muito conhecida. A mim, chega-me ser famosa para os meus clientes, que me dão os parabéns pelos ramos de flores. Dos famosos que conheci lembro-me do senhor Mário Soares, quando veio um dia aqui ao mercado do Bom Sucesso. Estive perto dele como estou agora de si. Mas tenho esperança que um dia o meu filho seja famoso. Anda a tirar o curso de Arquitectura e pode um dia ser outro Siza Vieira.”

Barbeiro

Lisboa

52 anos

Casado

Dois filhos

“Sou famoso aqui no bairro”

“Gostava muito de ser famoso. Quem não gostaria! Mas, se o fosse, era dentro da minha profissão, porque sempre foi uma coisa que gostei de fazer. Sou barbeiro há 40 anos e penso que não sou famoso porque, para isso, tem de se atender clientes famosos. Isto é um barbeiro de bairro, e um barbeiro de bairro é conhecido só nesse local. Eu, por acaso, até sou famoso, mas só aqui no bairro. Mas já atendi gente famosa, como o actor José António Assunção, já falecido. Outro que vinha aí muitas vezes era o Carlos Veríssimo. Também cortei o cabelo ao Paulo Gonzo. E, depois, vêm cá algumas pessoas que só mais tarde é que venho a saber que são famosas. Mas, para mim, o atendimento é sempre igual. O meu filho teve a oportunidade de seguir a mesma profissão, mas não quis. Agora, não tenho esperança de que alguém meu conhecido venha a tornar-se famoso. Não aceitava ir para o ‘Big Brother’ porque é um programa de que não gosto. Mas, se fosse, ao menos que estivesse lá a Marisa Cruz...”

Oleiro

Bisalhães, Vila Real

66 anos

Casado

Três filhos

“É só malandragem a comer à custa do povo”

“Nasci nisto e, se Deus quiser, hei-de morrer nisto. Herdei esta arte dos meus pais, que já a tinham aprendido com os meus avós. Nunca nenhum deles se sentiu famoso por trabalhar nesta arte. Se ser famoso é passar por algumas cenas que vemos nas televisões, então eu não desejo aquilo para nenhum dos meus. O meu filho é mecânico, nas horas vagas, ainda faz umas peças na roda que tenho lá em casa. A minha mulher e filhas ajudam-me a cozer o barro no formo. A arte delas e a minha corre Mundo, porque há peças de Bisalhães em toda a Europa e nas Américas. Se ser famoso é fazer algo digno, então nós somos famosos. Os ministros e gajos dos partidos, quando passam pela nossa barraca de venda, param para apreciar, ver e conversar. Mas a maioria quase nunca compra nada e só deixa ficar promessas. Quando aqui param, só por educação é que deixo de trabalhar para os cumprimentar. Ao ‘Big Brother’ é que não iria. Aquilo é só malandragem a comer à custa do povo.”

Vendedor

de castanhas

Lisboa

69 anos

Casado

Uma filha

“Nunca estudei para chegar à fama”

“Quem é que não gostava de ser famoso? Eu gostava de ser futebolista, um bom actor, jornalista… Mas nunca estudei para isso. Vim para Lisboa com 12 anos e no tempo da outra senhora não era como agora. Vim para cá trabalhar, sabe Deus!... Andei a trabalhar no liceu francês, a ganhar 15 escudos por dia, e naquele tempo era só trabalhar. Aos 15 anos já era pedreiro. Agora, sou vendedor de castanhas há 53 ou 54 anos, nesta zona do Chiado. Já vendi castanhas a muitos artistas portugueses e brasileiros. Actores de telenovelas vêm aí muitos e, no ano passado, esteve aqui o José Cid. Ontem comprou-

-me o menino Tonecas. A dra. Maria Barroso e o seu motorista também vêm cá muitas vezes porque dizem que preferem as minhas castanhas às do outro lá de cima. Na minha família, famoso, só se vier a ser o meu neto, que ainda tem sete anos. Se tivesse de ir ao ‘Big Brother’, qualquer uma delas me servia para companhia. Qualquer mulher me servia. Pois claro, era tudo em família....”

Estudante

Vila Franca de Xira

22 anos

Solteira

Sem filhos

“A fama não me interessa nada”

“Ser famosa não é algo que me cative. Não é um objectivo. Sou estudante do quarto ano de Direito e, se por acaso fosse conhecida, apenas gostava de ser uma advogada famosa. Nunca entraria para o ‘Big Brother dos Famosos’, porque é um programa que invade muito a privacidade das pessoas e expor assim a minha vida, o meu dia-a-dia, não dava. Se por acaso fosse obrigada a entrar, gostava de estar com o Herman José, porque ao menos tinha a certeza de que ele me faria rir lá dentro. Já que eu não iria gostar nada de lá estar, penso que ele seria a única pessoa que me conseguiria animar um bocadinho e fazer com que me abstraísse daquilo.”

Motorista

de autocarros

Lisboa

24 anos

Casado

Um filho

“Só conheço o Miguelito do Benfica...”

“Não vejo a fama como uma ambição... Mas porque não? Se fosse famoso, gostava de ser futebolista. O único amigo conhecido que tenho é o Miguelito, que joga no Benfica. Também já tive uma pequena abordagem com o Carlos Castro, mas não conheço muita gente famosa. Agora, com a vida que tenho, não concorria ao ‘Big Brother dos Famosos’. Só se me fizessem uma boa proposta financeira. Tinha que ser uma boa quantia. Caso entrasse na casa, talvez gostasse de lá estar com a Marisa Cruz. Ou então a Maria João Simões.”

Marnoto

Aveiro

43 anos

Casado

Um filho

“Quero um ‘Big Brother’ nas marinhas!”

“Dentro da minha profissão de marnoto, de homem que trabalha a marinha e a faz produzir sal, já fui famoso. E, mesmo que hoje eu fosse uma pessoa famosa, não mudava de profissão. Aproveitava o facto de ser alguém para ajudar o sal. Alertava quem manda para o estado em que deixaram cair esta tradição e fazia pressão para que as marinhas voltassem a ser uma actividade rentável. Da forma como as coisas estão hoje, já não acredito que alguém da minha família venha a continuar no sal. E não penso que haja alguém das minhas relações que venha a ser famoso. No entanto, para mim, não é famoso quem merece, é quem tem a oportunidade para isso. A pessoa mais célebre que conheci foi o Rui Veloso, mas fiquei desiludido, pensei que fosse simpático e não tivesse aquele ar de importância. O que eu gostava mesmo era de ver um ‘Big Brother’ nas marinhas! Queria ver se aqueles meninos conseguiam fazer pela vida e trabalhar de sol a sol num dos trabalhos mais duros do mundo.”

Ourives

Braga

32 anos

Casado

Duas filhas

“Ser famoso era uma canseira...”

“Eu não gostava de ser famoso, porque acho que dá imenso trabalho e é uma enorme canseira. Gosto de ser o que sou e faço tudo por ser bom profissional, bom marido e bom pai. E acho que consigo. Conheço uma pessoa que era um espectáculo e há uns anos saiu-

-lhe o totoloto e deixou de conhecer os amigos. Ora, eu não gosto disso. Depois, a fama tem o inconveniente de nos limitar o nosso espaço privado, e é por isso que eu nunca participaria num programa como o ‘Big Brother’. Repare que, até nesse programa, os famosos estão a portar-se muito pior do que aqueles que ninguém conhecia de lado nenhum. Eu gosto muito da minha profissão, e é isso que me importa. Um ourives de prata não tem a visibilidade de outras profissões, como apresentador de televisão ou actor, e é por isso que nunca serei uma pessoa famosa. Mas se alguém da minha família ou do meu grupo de amigos se tornar famoso, eu dou-lhe todo o apoio. A pessoa mais famosa que eu conheci foi o Sousa Cintra.”

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