As eleições presidenciais brasileiras estão ao rubro. A julgar pela inconstância das sondagens, só será encontrado o vencedor aquando da ida às urnas, a 6 de Outubro. Até lá, o assalto ao Palácio do Planalto, em Brasília, parece uma telenovela de horário nobre
Patrícia Pillar não tem o aspecto profissional de Hillary Clinton mas promete fazer “estragos” nas próximas eleições presidenciais brasileiras. A actriz, que muitos portugueses conhecem das telenovelas da Globo, está a baralhar as sondagens na corrida ao Palácio do Planalto, com uma história digna dessas produções de horário nobre.
Qual produto venezuelano, o enredo ganhou contornos melodramáticos no final do ano passado, quando Patrícia descobriu ser mais uma entre os muitos milhares de mulheres vítimas de cancro da mama, preferindo lutar contra a doença a ficar de braços cruzados à espera da morte. Hoje, está quase curada e pronta para outras duras batalhas. A que se avizinha prende-se com a possível eleição do marido, Ciro Ferreira Gomes. De resto, o candidato do Partido Popular Socialista (PPS), a concorrer numa coligação denominada Frente Trabalhista (PPS - PTB e PDT), já esteve mais longe da frente, reunindo grande parte dos votos dos cidadãos ricos e das mulheres. Os primeiros votam nele porque parece equilibrado e sereno, capaz de transmitir confiança e levar o Brasil ao sucesso; elas emocionam-se com a imagem daquele marido de sonho.
Ciro construiu essa imagem de forma involuntária, quando soube da doença da mulher. Nessa altura, o candidato deixou a agenda de lado para acompanhar Patrícia em duas dolorosas operações cirúrgicas, seguindo-a depois nas complicadas sessões de quimioterapia e radioterapia.
Esta entrega à vida familiar e à “luta” da companheira, com qual está casado há quatro anos, valeram-lhe um forte impulso numa corrida presidencial em que até há bem pouco tempo era visto como perdedor – subiu 22 por cento em pouco mais de um mês.
Hoje, este advogado de 45 anos promete dar muito mais luta, mesmo que para vencer tenha de utilizar uma série de inverdades sobre a sua vida pessoal e o plano político, enquanto faz apelo à esquerda populista, com um discurso repleto de chavões e promessas impossíveis. Esquece-se de que, como diz o ditado, “a mentira tem perna curta”.
A HORA DE LULA?
Persistência e determinação são também características do outro homem com um pé na presidência: Luiz Inácio Lula da Silva. Este torneiro mecânico de 56 anos, que nasceu em Garanhuns e representa a alma do Partido dos Trabalhadores (PT), tem liderado as sondagens e espera chegar ao cargo pelo qual luta há 13 anos. Será desta? Os números já estiveram melhores, mas o homem que concorre pela quarta vez ainda é apontado como o futuro Presidente.
Contudo, a principal “pedra no sapato” de Lula é o seu passado. Não que esteja envolvido em algum escândalo financeiro, fraude fiscal ou actividade sexual com estagiárias, mas pelo facto de ter traçado um estilo de fazer política que até há bem pouco tempo muitos consideravam demasiado radical. Actualmente, o ex-sindicalista ainda merece a desconfiança dos grandes capitalistas, a quem a ideia de nacionalizar um hectare de terreno parece um pesadelo. Mas o seu estilo deixou de assustar os empresários.
Ao que parece, o candidato do PT deixou de considerar a figura de Robin Hood, sempre pronto a roubar aos ricos para dar aos pobres, um modelo. E mesmo os desfavorecidos descofiam que ele já não está somente virado para a luta do “proletariado”.
Mas a aposta num novo rumo ideológico por parte de quem chegou a ser tão esquerdista não deixa de ser surpreendente. Estará Lula a vender a alma ao diabo (?), é a questão que muitos levantam.
Verdadeiro self made man, o principal responsável do PT começou a trabalhar aos sete anos, como vendedor de amendoins, nas ruas de Guarujá, no litoral paulista. Aos 12 arranjou o primeiro emprego “a sério”, numa tinturaria, e dois anos mais tarde estava nos Armazens Gerais Colúmbia. Sem nunca parar, aos 15 anos entrou para uma fábrica de parafusos pertencente a Miguel Serrano. Pouco depois, Lula tirou o curso de torneiro mecânico e “atacou” a metalurgia. Foi nesse ramo que contactou com o movimento sindical, no qual subiu sem precipitações. No final dos anos 70 era o mais célebre líder sindical do Brasil, mas as sucessivas greves dos trabalhadores irritaram o poder político e o agora quase presidente foi preso, tendo estado encarcerado durante 31 dias. Arriscou-se a uma pena de três anos e meio, mas o Supremo Tribunal Militar safou-o de um processo que lhe poderia ter saído caro.
Enquanto candidato à presidência, Lula conheceu a derrota em três eleições consecutivas. A primeira contra Fernando Collor de Melo, em 1989, e depois enfrentando Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998. Agora, a história não é a mesma, e Lula espera que o resultado das eleições também não.
OS MAUS DA FITA
As intenções de voto atingem resultados bastante baixos nas candidaturas de outros candidatos de quem, porventura, se esperava melhor prestação, como são os casos de Anthony Garotinho e José Serra. Anthony, que de Garotinho só tem a alcunha, é um jornalista de 42 anos, presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB), a quem as sondagens não dão mais do que entre 10 a 11 por cento dos votos.
O facto de ser comentador desportivo podia ajudar num possível aumento de popularidade, mas a mistura de religião (pertence à Igreja Presbiteriana Betânia) e desporto parece não estar alcançar os seu propósitos. Aliás, polémica é algo que não lhe falta. Há dois anos, Luiz Eduardo Soares, coordenador de segurança do Rio de Janeiro, denunciou a existência de corrupção na polícia, relacionada com o poder. Garotinho, que ocupava um cargo no governo estadual, não foi de meias medidas: demitiu-o em directo na televisão.
Menos exuberante é, por certo, José Serra, o candidato escolhido pelo ainda Presidente da República do Brasil. Por mero erro de casting ou dificuldade em lutar com adversários tão experientes, Serra não tem aguentado o ritmo da campanha, pese embora estivesse até há bem pouco tempo a par com Ciro Gomes. Para este já sexagenário engenheiro civil, o destino parece estar traçado. Aliás, a viragem da cartilha esquerdista para o centro (enquanto Governo) nunca foi bem vista, mesmo para quem costuma ser considerado um bom administrador... sem carisma. Serra não parece ter forças para mudar a conjectura. É caso para dizer que Fernando Henrique Cardoso não merecia um candidato tão fraco.
Homem do “cherne” ataca Lula
O principal responsável pelo marketing da campanha de Ciro Gomes é Einhart Jacome da Paz, que nas legislativas portuguesas foi o homem por trás da construção da imagem de Durão Barroso (na foto). O “marqueteiro” - termo brasileiro para quem ocupa tais funções - volta a puxar as crianças para a operação publicitária.
Num spot referente às questões económicas, surge desta feita uma figura infantil a perguntar: “como vai haver crescimento se os juros que o Governo paga pela dívida são maiores que a taxa média de retorno dos negócios produtivos?” A questão parece complexa demais para ser colocada por uma criança. Mas Lula terá que saber responder se não quer perder as eleições. É que Jacome da Paz não costuma falhar nos seus objectivos.
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