Partiram recentemente e encontraram trabalho. Não pensam voltar tão cedo.
As histórias de quem decidiu sair do País desde 2008 são distintas, mas têm em comum as palavras "dificuldade", "esperança", "sacrifício" e "sonho". Na última década terão saído do País cerca de 700 mil pessoas – só em 2007 e 2008 foram mais de 200 mil – e o fluxo não dá mostras de abrandar. A cantora Sara Belo, de 39 anos, foi das mais recentes a deixarem Lisboa. Partiu em fevereiro – porque o marido (que é militar) foi destacado para uma missão de três anos em Bruxelas – e ela arrancou, levando também a filha de ambos, de sete anos. Pediu licença sem vencimento à Escola Superior de Teatro e Cinema, onde dá aulas de voz, e foi
com o entusiasmo de quem experimenta algo de novo.
"Sempre quis viver noutro país e agora surgiu esta oportunidade, que não desperdicei", conta. Apesar de estar a fazer doutoramento – e de pensar usar este tempo para escrever a tese –, não descarta a possibilidade tentar encontrar emprego na sua área. E se assim for, ficará mais tempo na Bélgica. "Sair de Portugal e ficar numa situação pior não era opção, mas se surgisse a possibilidade de trabalhar aqui... Aliás, já iniciei os primeiros contactos nesse sentido. Considero este país muito aliciante em termos profissionais", garante.
Percurso muito diferente fez Catarina Correia, que, aos 21 anos, decidiu abandonar o curso de Gestão de Recursos Humanos e Comportamento Organizacional e foi para a Islândia com o namorado. "Fui movida pela ideia de que Portugal era, inevitavelmente, um lugar pequeno de mais para tanta gente", afirma. Catarina já tinha trabalhado como vendedora de produtos de telecomunicações e como promotora numa cadeia de supermercados (empregos que manteve para pagar os estudos), mas achava que, no final de todo esse esforço, não seria devidamente recompensada.
"O pai do meu namorado já estava a viver na Islândia e disse que nos ajudava a começar a nossa vida aqui", explica, acrescentando que, mesmo assim, os primeiros tempos foram "muito difíceis". "Tinham-me prometido um trabalho que na verdade não existia e vi-me forçada a trabalhar numa fábrica de peixe das quatro da manhã às quatro da tarde para que me fosse atribuído um número de identificação civil e pudesse ficar no país."
Dois anos depois, Catarina está a trabalhar "na mais antiga confeitaria da Islândia" e confessa-se "muito feliz". "Sei que tenho possibilidade para crescer – nesta ou noutra empresa – e tenho plena consciência de que dificilmente seria remunerada da mesma forma no meu país. Mesmo trabalhando na área que um dia julguei ser garantia de futuro..." Quanto ao projeto do Governo – o programa VEM – que quer apoiar emigrantes portugueses com vontade de voltar e investir no país, Catarina diz que "para já não". "É um risco voltar, agora que a Islândia já se tornou um porto de abrigo. Ainda que um dia queira voltar – quando planear ter filhos, por exemplo –, acho que ainda não é tempo."
MERCADO INTERNACIONAL
Esta é, de resto, opinião partilhada pelo maioria dos que partiram recentemente e que, com mais ou menos dificuldades, já conseguiram lugar nos países de acolhimento. É o caso do alentejano Tiago Barão, de 24 anos, que depois de concluir o curso de Engenharia Informática, e mesmo antes de arranjar emprego em Portugal, começou a enviar currículos e a tentar a sorte no mercado de trabalho internacional. Foi recompensado. Assim que recebeu uma proposta para a Noruega, largou o mestrado e fez as malas.
"Sempre ambicionei trabalhar no estrangeiro, mas nunca sairia sem ter um contrato assinado", afirma, ele que se diz "muito bem acolhido" naquele país nórdico. "Não é sítio para vir à aventura, tendo em conta o alto custo de vida que aqui se pratica. Caso não se encontre um emprego rapidamente, fica-se em pior situação do que aquela em que se estava..."
A trabalhar na área de formação (está a desenvolver um software para o sistema nacional de saúde norueguês), Tiago acrescenta que o salário lá é "três a quatro vezes superior" aos ordenados pagos em Portugal e que, se as coisas continuarem a evoluir como até aqui, tenciona constituir família na Noruega. "Tendo em conta a qualidade de vida e o apoio do estado à natalidade, este é um dos melhores países do Mundo para criar os filhos", garante. "Talvez só volte mesmo para a reforma, para aproveitar as planícies alentejanas…"
Ideia diferente tem Henrique Castilho, de 22 anos, e para quem trabalhar no estrangeiro é "aventura temporária". O cozinheiro (tirou o curso de Gestão e Produção de Cozinha na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra) está nas Ilhas Faroé (território dependente da Dinamarca, entre a Escócia e a Islândia) desde novembro do ano passado, e apesar de estar a ganhar "três vezes mais do que ganharia em Portugal", diz que tenciona voltar em breve para Portugal. Assim que tiver aprendido tudo o que há a aprender. "Na minha área, o ideal é ver um pouco do Mundo e absorver o que puder. Um chef deve estar em contacto com gastronomias diferentes e aprender outras técnicas."
Natural de Aveiro – e a sofrer com a falta de sol, de ovos moles, da família e dos amigos – não descarta a possibilidade de aproveitar os apoios que o Governo quer dar a quem queira regressar. "Seria um caso a pensar", responde.
PARTIR AOS 50 ANOS
Jorge Ataíde, ex-professor do ensino secundário e instrutor de condução, que saiu de Portugal em 2012 depois de ver falir a escola de condução que fundou e dirigia, acha que a medida revela o "pânico" do Governo com o surto massivo de emigração e teme que este projeto crie "falsas esperanças" em pessoas que depois "se vão afogar em empresas falidas à partida". Jorge já tinha quase 50 anos quando partiu para a Suíça e foi acolhido em Genebra por familiares. Admite que os primeiros tempos foram muito duros, mas que, quando finalmente encontrou trabalho, como condutor de veículos pesados numa empresa portuguesa, agarrou a oportunidade com todas as forças.
E dado que a sua verdadeira paixão sempre foi a informática – a que se dedicava nos tempos livres –, a capacidade de inovar acabou por lhe trazer benefícios. "Criei um programa para sistema Android que permite aos condutores registarem informaticamente todas as suas transações, o que, depois de um investimento inicial, se revelou muito útil para a empresa." Tanto assim que, dos camiões, Jorge passou a estar "quase a cem por cento" no escritório e até já tem novas ideias para desenvolver.
"Aqui há qualidade de vida e respeito. Se alguém pensa vir fazer mealheiro, desengane-se, mas vai saber-lhe bem ver o salário chegar ao fim do mês – o que em Portugal não acontecia..." Desaconselhando que se parta sem ter, pelo menos, onde ficar, Jorge é um dos que não quer voltar. "Fico até perceber que, além das paisagens, da comida e das pessoas, em Portugal há políticos sem nariz de Pinóquio."
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