Na última época de saldos, havia em Lisboa lojas de cadeias espanholas com letreiros a dizer ‘Rebajas’, como se estivéssemos em Madrid. Os castelhanos voltaram a invadir o País? Ainda não. Mas em pleno século XX Espanha quis anexar-nos duas vezes...
São duas imperiais, por favor.” Pedro Vasconcelos, o gerente, faz soar um sintete, ‘dlim-dlim’, grita “Saem duas ‘canhas!’” e abre a torneira de pressão para encher um par de copos largos e rasos. Aqui ninguém bebe cerveja pelos copos finos portugueses. O balcão está coberto de pratos com pedaços de queijo, de enchidos, de carne, de calamares, presos a bocados de pão com palitos. Quem quiser ‘tapear’ – ou seja, comer as ‘tapas’ – pode servir-se à vontade: à saída, paga-se o número de palitos depositados num pequeno copo. Às 23h30, no Lizarran, restaurante-bar espanhol, na rua Latino Coelho, em Lisboa, o ambiente começa a aquecer.
Quando Pedro Vasconcelos aumenta o volume da música que dá fama à casa, três raparigas de um jantar de aniversário sobem para as cadeiras. A música ‘Um Movimiento Sexy’ soa nas colunas e os convidados da festa, no meio do bar cheio de gente, coordenam as coreografias, movendo as ancas para um lado e para o outro. “Así, así...”, gritam. E escalam das cadeiras para cima das mesas. Uma das mulheres quase pisa o prato de outro conviva. Mas ninguém leva a mal. É uma ‘fiesta’ que atinge o clímax aos primeiros acordes de ‘Asereje’, a canção do trio feminino Las Ketchup, sucesso comercial hispânico na moda. Nesse momento, as coreografias aceleram em delírio e o mundo agita-se dentro do bar: novos e velhos, executivos engravatados e estudantes descontraídos – todos dão nas vistas em cima da mobília. É tudo muito efusivo, muito espanhol, embora sem a presença notória de espanhóis. Estamos numa sexta-feira. ‘Nuestros hermanos’ foram passar o fim-de-semana a casa.
A AMBIÇÃO DO AVÔ BOURBON
Poderia Portugal ser hoje um gigantesco Lizarran? Se não fossem os conjurados do 1 de Dezembro de 1640, que puseram fim ao domínio dos Filipes, estaríamos nós condenados a comer ‘tapas’ e ‘tortillas’ em vez de cozido à portuguesa e bacalhau com todos? É difícil responder. O certo é que a ameaça espanhola atravessou os séculos e voltou a estar presente 300 anos depois da Restauração. Apesar de o imaginário antiespanhol estar dominado desde a época medieval pelas lendárias espadeiradas da padeira, que desbaratou um grupo de soldados castelhanos em Aljubarrota, foi no século XX que a independência voltou a ser ameaçada pelo país vizinho. A invasão militar esteve por duas vezes – e não há muito tempo – nos planos de Madrid.
Disso dá conta um livro editado pela Junta da Extremadura, apresentado em finais de Janeiro na Sociedade de Geografia de Lisboa. Na obra ‘El Império del Rey - Alfonso XIII, Portugal y los Ingleses (1907-1916)’, o historiador espanhol Hipólito de la Torre Gomez – professor na Universidade Complutense de Madrid –, demonstra que o perigo espanhol esteve muito mais presente do que pensam os portugueses. Nos anos que antecederam a I Grande Guerra, Afonso XIII – avô do actual rei Juan Carlos – fez saber da sua ambição para anexar Portugal. Em Inglaterra, Winston Churchill não se lhe opunha.
Hipólito de la Torre Gomez refere que Afonso XIII de Bourbon, tomou muito directamente em suas mãos, quase como uma coisa sua, a ‘questão portuguesa’. E, a partir de 1909, deixou de esconder os seus propósitos de intervenção e anexação de Portugal. Nas vésperas do primeiro conflito mundial, o rei quase teve o beneplácito do Reino Unido. Nessa época, os dirigentes ingleses ponderavam escolher entre a aliança luso-britânica e o estreitamento de relações com Madrid, para que a Espanha não alinhasse com as potências da Entente, ao lado da Alemanha. Em 1912, Winston Churchill, 1º Lorde do Almirantado, escrevia: “Se tivermos de escolher entre a amizade de Portugal e a de Espanha, a de Espanha é de superior valor.” O futuro primeiro-ministro britânico sabia que uma aliança com o maior Estado Ibérico trazia vantagens na contenda que se avizinhava.
Tomando consciência da posição vantajosa de Espanha, os líderes da jovem República portuguesa ansiavam por oferecer ajuda militar à Grã-Bretanha. Objectivo? O reconhecimento internacional do novo regime e a protecção contra Castela. Mas Churchill desprezou o aliado lusitano. “A nossa atitude em relação a Portugal deve ser fria e (...) devemos aceitar os menores serviços possíveis”, declarou numa carta a um governante britânico.
Resumindo, “Portugal foi (...) objecto de uma espécie de persistente ‘negociação’ sugerida, informal e às vezes explícita, com as potências ocidentais, especialmente com a Inglaterra”, descreve Hipólito de la Torre Gomez. O historiador dá conta de que os ímpetos expansionistas do jovem monarca espanhol acabaram por ser travados por políticos mais prudentes. Do lado inglês, o subsecretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Eyre Crowe, dizia, nesses anos, que os desígnios de Afonso XIII sobre Portugal provavelmente permaneciam no reino da utopia e classificava o estilo do rei como impulsivo e irresponsável. Quando a sangrenta guerra das trincheiras começou a desenrolar-se em 1914, conclui de la Torre, “a neutralidade da Espanha acabou por tranquilizar Portugal”.
A COBIÇA DO GENERALÍSSIMO FRANCO
Mas o perigo espanhol não parou aqui. “Sempre que viu uma oportunidade para controlar ou até anexar Portugal, Espanha tentou aproveitá-la”, argumenta o historiador António José Telo, professor na Academia Millitar. A última vez que o Governo espanhol manifestou vontade em dominar a península foi na segunda metade de 1940, estava a II Guerra Mundial numa fase em que a máquina de guerra nazi ainda detinha alguma vantagem no desenvolvimento do conflito.
Sem mostar qualquer gratidão pelo apoio de Salazar durante a Guerra Civil de Espanha, o número dois do regime e cunhado de Franco, Serrano Suñer, defendeu em Berlim, junto de Hitler, que, “numa Europa dominada pela Alemanha, era duvidoso que Portugal se mantivesse independente”, explica José Telo. Durante essa visita à Alemanha, Suñer fez saber que a Espanha achava que deveria fazer “pressão para Portugal se afastar de Inglaterra”. Mas foi o próprio Hitler a dizer que jamais os portugueses aceitariam tal proposta, pois perderiam de imediato o seu império.
O cinismo na diplomacia é tanto que, enquanto em Berlim decorriam estas conversações, os espanhóis garantiam ao Governo de Lisboa que poderiam estar seguros, pois não representavam qualquer perigo para a soberania lusa... Mas a Alemanha perdeu a guerra. E os dois regimes ibéricos sobreviveram até aos anos 70, com mais ou menos proximidade – muitas vezes de costas voltadas –, mas sempre em paz.
A CONQUISTA ECONÓMICA
E hoje? O vizinho espanhol continua a ser essa temível ameaça? Há quem pense que sim, embora noutro plano. Passadas quase duas décadas sobre a entrada dos dois países na então chamada Comunidade Económica Europeia – sendo ambos membros da mesma estrutura militar (a NATO) –, é através da economia que Portugal sente o peso do irmão ibérico. Os portugueses não se encharcam em ‘tapas’ – apesar do sucesso dos restaurantes Lizarran –, mas compram muita roupa na Zara, comem muita fruta espanhola, e gastam dinheiro no El Corte Inglés.
Aliás, a Avenida António Augusto Aguiar (onde fica esse grande espaço comercial), que curiosamente desemboca na Praça de Espanha, é a face mais visível do poder empresarial de ‘nuestros hermanos’. Em Madrid não há quarteirões inteiros de tiendas portugueses, mas em Lisboa sucedem-se as lojas espanholas entrecortadas por agências dos bancos Santander, Bilbao y Viscaya ou Totta. De cada vez que gastam cem euros no supermercado, os portugueses gastam 27 euros em produtos espanhóis, declarou, recentemente, Martins da Cruz, Ministro dos Negócios Estrangeiros. A Espanha é o segundo cliente de Portugal, absorvendo 19% das exportações nacionais; mas é, de longe, o maior fornecedor do País.
Num mercado livre vencem os mais fortes e competitivos. Por isso, Espanha, com uma economia cinco vezes maior do que a portuguesa, exerce uma influência esmagadora sobre o rectângulo encostado ao Atlântico (ver quadro). A força dos grupos empresariais hispânicos é tão poderosa que um conjunto de empresários e académicos entregou ao Presidente da República e ao Primeiro-Ministro, no ano passado, o já célebre Manifesto dos 40, para a manutenção dos centros de decisão em mãos nacionais.
“Embora nesse documento nunca seja mencionado o nome de Espanha, é o país para o qual será mais fácil perder os centros de decisão”, afirma António Nogueira Leite, um dos subscritores desse texto, professor na Faculdade de Economia na Universidade Nova e ex- secretário de Estado do Tesouro e Finanças de um Governo socialista. Se não houver uma estratégia bem definida, o grupo dos 40 teme que Portugal possa perder o poder de decisão em áreas tão sensíveis como as telecomunicações, a energia ou as infra-estruturas.
“É um jogo económico, mas também uma questão política”, alega Nogueira Leite, dando como exemplo a cumplicidade que o governo espanhol mantém com os grupos privados no seu país: “Nenhuma empresa onde o governo queria tomar decisões foi parar a mãos estrangeiras.” Na sua opinião, é muito difícil entrar no mercado espanhol: “Há verdadeiros entraves a empresas portuguesas. Quando a EDP quis comprar a Hidrocantábrico não me pareceu que houvesse regras muito claras”, exemplifica.
SOLDADOS DE UMA INVASÃO
Em 2001, apesar destas queixas, Portugal foi o maior investidor estrangeiro em Espanha. Mas as diferenças perduram: enquanto do lado de cá há existem mais de três mil empresas espanholas, em Espanha as portuguesas não chegam às quatrocentas, comparava o jornal ‘La Gaceta de los Negócios’ há poucas semanas. A desproporção continua a ser enorme.
Contrariando a opinião de uma parte dos empresários portugueses, Enrique Santos, presidente da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Espanhola, nega que as empresas portuguesas encontrem obstáculos no seu país. “O embaixador português em Madrid, Rosa Lã, pediu para sabermos junto dos nossos associados quais eram os problemas das empresas portuguesas em Espanha. Não conseguimos identificar quaisquer barreiras. O que encontrámos foi um mercado muito mais competitivo do que o português, em preços e qualidade. Os espanhóis compram as empresas portuguesas de forma legal”, acrescenta.
“Só que agora, para além dos sectores onde tomaram posições importantes, como na banca ou no comércio, estão a investir na agricultura, comprando herdades inteiras no Alentejo, que vão beneficiar com a Barragem do Alqueva. São agricultores da vizinha Extremadura. Os terrenos aparecem no mercado e eles compram porque os portugueses não o fazem”, remata Enrique Santos.
Num almoço organizado recentemente com mais de 200 empresários de ambos os países, Martins da Cruz, ministro dos Negócios Estrangeiros – que foi durante três anos embaixador em Madrid –, constatou o óbvio: “A Espanha tem mais importância para nós do que Portugal para os espanhóis.” Porém, achou exageradas as vozes incomodadas com o poderio do Estado vizinho: “Esta assimetria é por vezes mal percebida na nossa opinião pública, e até em alguns sectores da economia. Os empresários espanhóis são muitas vezes entendidos como soldados de uma ‘invasão’, ou como responsáveis de uma ‘deslocalização dos centros de decisão económica’ para o país vizinho”, ironizou o ministro, cuja aposta política passa pela diplomacia económica.
Segundo Martins da Cruz, Portugal ainda pode crescer sete a 12 por cento nas relações comerciais com Espanha. Mas será isso que vai inverter os pratos da balança e pôr os espanhóis a comer cozido ou bacalhau – ou seja, a consumir mais exportações portuguesas? Pelo menos é unânime que falta alguma agressividade às empresas portuguesas para concorrerem no mercado ibérico.
No andar de baixo do restaurante Lizarran concorrem as duas bandeiras, com vantagem para a portuguesa, que é enorme, ao lado da espanhola, bem mais discreta. Pedro Vasconcelos, o homem que pôs os portugueses a tapear, adora o nativos do país de Cervantes: “São mais educados do que os portugueses, mais arrojados, mais inteligentes, mais astutos, mais atrevidos”, mais tudo. À sua volta, a agitação continua. Serve um licor basco. Toca a sineta, ‘dlim-dlim’. E tira mais duas ‘canhas’, enquanto a clientela dança ao som dos ritmos ‘salerosos’.
O QUE NÓS GOSTAMOS NELES
Zara – As montras são apelativas, a roupa é moderna e barata, e o costume de lá comprar entrou nos hábitos nacionais. Homens e mulheres não dispensam a visita aos estabelecimentos do grupo Inditex (que em Portugal possui 152 lojas das marcas Zara, Massimo Dutti, Pull and Bear, Bershka, Stradivarius Oysho e Kiddy’s). São um dos símbolos da invasão espanhola, mas marcam de forma positiva o visual dos nativos lusitanos.
El Corte Inglés – O projecto demorou 14 anos a concretizar, é o único da cadeia situado fora de Espanha, mas os consumidores portugue-ses, ávidos de centros comerciais, aprovaram o conceito. Mais de 15 mi-lhões de pessoas entra-ram no centro comercial em 2002. É obra. Mas os comerciantes do Porto já fizeram saber que não querem lá nenhum estabelecimento do mesmo género. Terão medo do quê?
Tapas – Com atum, com queijo, com enchidos, com qualquer coisa, e acompanhadas de uma cerveja espumosa e de uma boa conversa, como fazem os espanhóis à noite – as tapas começam a ser apreciadas pelos petisqueiros nacionais. Bem haja quem as importou.
Auto-estima – A exagerada auto-estima dos espanhóis pode estar no limite da arrogância, mas não deixa de ser invejável. Ouvem a música deles, dobram os filmes estrangeiros, traduzem tudo. Em Portugal, onde o discurso oficial parou no não perder o comboio europeu, se um político fizesse como Aznar, chamavam-lhe louco. Empolgado num comício da última campanha, ele gritou: “Vamos ser os melhores da Europa!”
Las Ketchup – Não é molho para batatas fritas, mas o nome de um grupo de três raparigas mui guapas que interpretam uma cantiga impronunciável. O tema ‘Asereje’ é um sucesso mundial, e cada vez mais usado em toques de telemóvel. A coreografia com que as jovens portuguesas dançam a música é a herdeira da velha Macarena – lembram-se?
O QUE ELES GOSTAM EM NÓS
Luís Figo – Os catalães de Barcelona que o amavam passaram a odiá-lo quando se transferiu para o Real Madrid. Agora são os madrilenos que o adoram. Se não jogasse num campeonato como o espanhol, dificilmente teria sido considerado o melhor do mundo. É o maior embaixador de Portugal no país vizinho e, que se saiba, o melhor assalariado português a expensas espanholas. Nem Fernão de Magalhães terá conseguido tantas ‘prebendas’ em Castela...
Delta – É difícil negar que o café em Espanha é péssimo. Depois de uma semana do outro lado, um português já desespera por uma bica verdadeira. Mas a empresa de Campo Maior é uma das maiores naquele mercado. Se os espanhóis gostam tanto de café português, pode ser que um dia apreciemos as bicas à espanhola. Seria um avanço nas relações ibéricas.
Praia – Para muitos espanhóis da raia extremadurenha e mesmo de Madrid, as praias do litoral alentejano são um destino de eleição. Para os primeiros, o Atlântico fica mais perto do que o Mediterrâneo. Para os segundos, estes areais são como um paraíso, longe do confuso Sul de Espanha, mais parecido com o Algarve. Por isso é vê-los chegar ao Carvalhal, à Comporta ou a Milfontes nos fins-de-semana de Verão.
José Saramago – Quando venceu o Nobel da Literatura, foi abertura nos telejornais espanhóis. Quando apresentou ‘O Homem Duplicado’ em Barcelona, não havia lugar no auditório para tanta gente. Casado com a espanhola Pilar del Rio, a viver nas Canárias, o escritor publica os livros em simultâneo nos dois lados da fronteira.
Independência – Quem admira a independência portuguesa, não sem uma ponta de inveja, são os nacionalistas galegos, catalães e bascos. Numa manifestação recente na Galiza, após o acidente do ‘Prestige’, trabalhadores da televisão regional gritavam: “Menos mal que nos queda Portugal!” Numa das principais avenidas de Barcelona pode ler-se em Catalão: ‘L’autonomia que ens cal, es la de Portugal’ (‘A autonomia que nos faz falta é a de Portugal’). Por oposição, há um dito castelhano que fala de uma Espanha una e grande, de mar a mar, sem Portugal nem Gibraltar.
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