Centro de linguística da Universidade de Lisboa desvenda cartas pessoais escritas entre o século XVI e o início do século XIX.
O barbeiro António de Araújo emigrara para o Brasil há quase vinte anos, à procura de melhor vida, quando Domingas, com quem tinha tido dois filhos, achando-se viúva, casou pela segunda vez com Francisco, um lavrador. Acontece que António escreveu para o irmão, o padre Manuel, a pedir desculpa por ainda lhe dever dinheiro e a anunciar estar afinal vivo e de boa saúde.
‘Dê muitos recados a todos os de mim quiserem ouvir novas (...) Do que me pesa não poder pagar a VM [Vossa Mercê], mas Deus acudirá para ser servido para além das mercês que VM me faz, que como Deus lhos pagará, porquanto eu não sou para o pagar, e assim lhe encomendo que tenha paciência até Deus nos dar cabelos (...) Dê-me mais novas a Domingas de Araújo donde estou’, rezava a missiva do barbeiro António.
Corria o ano de 1671 quando a carta foi escrita e o de 1690 quando Domingas, moradora na freguesia de Rio Caldo, Terras de Bouro, foi parar à mesa da Inquisição acusada de bigamia pelo cunhado que recebera a carta. Acabou absolvida porque, alegou então, escrevera ao marido e dele não havia obtido resposta, pensando por isto estar viúva. Disse ainda que fora coagida por parentes a casar de novo e que mal soube que o primeiro marido tinha chegado com vida ao Brasil logo se afastara do segundo – de quem veio a ter um filho –, tanto que António a desculpara. As cartas trocadas perduraram, amarelecidas mas resistentes à passagem dos séculos, dentro dos processos do Tribunal do Santo Ofício, da Inquisição de Lisboa.
São agora objeto de estudo de uma equipa de linguistas e historiadores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – que qual garimpeiros do século XXI recolhem o máximo de correspondência privada de outras eras que testemunhe duas coisas: "Em primeiro, a cultura de outras épocas no dia a dia e quais eram os hábitos das pessoas comuns; em segundo, como era a língua informal que usavam nas suas relações privadas", explica Rita Marquilhas, a líder de uma equipa formada no ano passado e que contempla seis portugueses (a investigar nos arquivos nacionais) e seis espanhóis (a fazer o mesmo no país vizinho). Por cá, os investigadores passam os dias na Torre do Tombo, em Lisboa, à procura daquilo a que chamam "as trincheiras do dia a dia de outro tempo".
As cartas – escritas num português antigo e com palavras indecifráveis na língua atual (de há 200, 300, 400, 500 anos) – são por eles ‘reescritas’, sem no entanto se alterar a construção das frases, modernizando apenas a ortografia. Dão-lhes também um contexto e sentido, fazendo das ‘personagens’ de eras imemoriais pessoas reais e quase palpáveis no presente. Já leram mais de quatro mil cartas.
BRUXARIA NO CONVENTO
‘Meu tio e senhor do meu coração (...) Tem uma regateira que na nossa igreja está fazendo feitiços continuamente (...) Chama-se esta tal Margarida, por alcunha ‘A Rata’. Tem muitos filhos e o marido agora fora (...) ameaçou uma freira pondo-lhe o dedo no nariz, como fazemos. E isto a pôs em termos de morte e, despois de dous dias não comer, vomitou aquela fita amarela que eu lá mandei. Outra freira, estando cantando o Tantum Ergo, pôs a regateira os olhos na grade e ela caiu por terra (...) sentiu a freira lhe puxavam pelos cabelos com tal força que lhe rebentavam a cabeça e lhe deu uma forte dor em um braço (...) Não tem explicação, meu tio, tais martírios e os efeitos deles. Há poucos dias apareceu um coração todo pingado de lacre e cera (...) a aflição em que nos vemos nos faz recorrer a VSa. como o único remédio abaixo de Deus". A ré deste processo é Maria do Rosário, religiosa do Convento do Santíssimo Sacramento de Alcântara da Ordem de São Domingos, em Lisboa, acusada em 1752 de crimes de bruxaria e feitiçaria.
A denúncia é feita pela Madre Soror Helena Josefa de Santa Maria. Nas sessões de interrogatório alegou que mesmo depois de Maria do Rosário ser presa continuava a entrar, por volta da meia-noite, no mosteiro, acompanhada pelo ‘demónio’ (sob a figura de uma fantasma enorme e horrenda) e outras feiticeiras. "Achamos que vamos conseguir traçar a história de uma série de fenómenos da língua portuguesa e da cultura contemporânea. Estamos a estudar do ponto de vista da abordagem cultural as múltiplas formas de expressão da cortesia. Há coisas estranhíssimas, como o facto de as pessoas se sentirem ‘obrigadas’ a serem educadas no início e no fim de uma carta, mesmo que entre a frase em que perguntam pela saúde do destinatário e a frase em que desejam muitos anos de vida à pessoa a quem estão a escrever façam ameaças de morte logo para o dia seguinte", explica Fernanda Pratas.
Aliás, a prática da cortesia por carta manteve-se quase inalterada ao longo dos séculos. "Uma carta de um soldado da guerra colonial pode começar de forma quase igual à de um combatente da I Guerra Mundial e à de um mandato do século XVII por um soldado que estava em Goa", confirma Rita Marquilhas.
Já o ‘suporte’ variava. "Nem sempre as cartas eram escritas em papel. Algumas eram bordadas, outras escritas em serapilheira, nas capas de livros impressos, enviadas na panela da carne (quando eram trocadas entre presos), na boca de um gato", conta Ana Rita Leitão, linguista e historiadora. "Uma das cartas mais engraçadas que li era a de uma rapariga, Luzia Bela do Carmo, que da prisão escrevia para o namorado, soldado. Ela estava acusada de ter roubado a casa de antigos patrões e foi sentenciada a ir para o degredo para Miranda do Douro. Acontece que ela era de Elvas e a meio do caminho – eles iam a pé, só lhes diziam o destino – virou para casa", recorda Mariana Gomes. ‘Com quem tens gasto muito, gastasses o pouco que me destes (...) E, se te comportares com alguns sentimentos por mim, onde tu morreres, hei de eu acabar (...) E o que te peço, que te lembres de mim com algum dinheiro, quando o tiveres’, escreveu Luzia em 1832.
Dez anos antes, dizia, também tomada de dores do coração, Gertrudes Rosa da Conceição: ‘O que lhe peço é que não me escandalize, pois sabe como eu estou, que estou pior que Vossa Mercê, porque Vossa Mercê é homem e eu sou mulher. Porque Vossa Mercê diz que está perdido por amor de mim, isso não é assim, porque se Vossa Mercê está por amor de mim, eu estou por amor de Vossa Mercê (...) O que eu desejava era haver quem lhe tirasse agora a vida, que só assim éramos livres (...) Não repare o papel ir sujo, porque estava uma bêbeda e mo salpicou todo’. Gertrudes foi acusada de adultério. Mesmo depois de presos, os amantes continuaram a trocar correspondência na cadeia do Limoeiro.
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