"Eu sentia um misto de estupefacção e prazer diante daquele estranho encontro, tão desejado e tão impremeditado"
Por que razão toda a gente pronuncia, como se a compreendesse, a máxima “não há coincidências”, com um brilho misterioso no olhar? Duvido que saibamos o que essa frase encerra, para além do poder do seu próprio mistério. Aceitamo-la, com maior ou menor entusiasmo, porque ela se basta a si mesma. Procurar decifrá-la, seria entrar num jogo filosófico interminável. Será que tudo, na vida, faz parte de um plano? Será que as coincidências diluem as distâncias do Universo? Serão o atalho óbvio para a compreensão de uma ordem que nos escapa? Será verdade que a mesma água possa passar duas vezes debaixo da mesma ponte? Se não há coincidências, porque é preciso que se dê uma para que possamos dizer que nada acontece por acaso?
Quando procurava o título para esta crónica, lembrei-me do poema de Wilfred Owen, que às vezes digo em palco com o meu amigo Nicholas McNair. De um estranho encontro vos quero falar hoje, mas talvez o tema seja outro: as coincidências.
No dia em que me decidi pelo título, comprei livros. Entre outros, comprei a nova aventura de Blake & Mortimer, da série criada por Edgar Pierre Jacobs, sem ligar ao título. Só em casa, à noite, acabei por olhar com olhos de ver para a capa. Claro, chama-se “Um Estranho Encontro”.
Quantos encontros tive assim! Às vezes nem isso, simples acasos. A sombra vaga de Pina Bausch com quem quase esbarrei, quando saía de um café em Paris. Desejei-lhe “guten tag”, e recebi o seu sorriso. Um amabilíssimo Willem Daffoe, que se sentou ao meu lado no Falstaff, em Bruxelas. Uma amiga perdida, perdida de novo numa rua improvável de Viena. Um amigo que regressa a Córdoba na exacta hora de tornar possível o nosso reencontro. Por vezes, as coincidências estremecem um só universo, por vezes os de todos os que tomam parte nessa obra do acaso.
Nunca conheci Shakespeare pessoalmente. Tenho ouvido falar muito dele, mas é mais que seguro que ele nada saiba a meu respeito. Que lhe poderia interessar um obscuro actor de um país incógnito? E, no entanto, é praticamente impossível ser-se actor sem se saber quem é Shakespeare, admirar-lhe a obra e o génio e, estranhamente, temer-lhe o julgamento, como se ele estivesse para isso, sobretudo não nos conhecendo de lado nenhum. A verdade é que nunca tive a oportunidade de representar uma personagem escrita por ele, o que seria de certo modo a forma ideal de o conhecer pessoalmente. Mas creio que o actor que representa Shakespeare, ou qualquer outro autor grande, deseja estar à altura de um legado que se confunde com o próprio teatro.
Fui a Londres há dois anos, entre outras coisas à procura de Shakespeare. Vi um Hamlet no National Theatre. Visitei a réplica do Globe. Vi um curioso MacBeth minimal. Comprei carradas de livros, e trouxe com que continuar a procurá-lo. No último dia, com duas horas livres antes de me meter no comboio para o aeroporto, ainda pude dar uma saltada à National Gallery. Corri a exposição de retrato contemporâneo com o fraco entusiasmo de quem está a queimar os últimos cartuchos. Por um estranho impulso, subi uma escadaria que me deu acesso ao resto do edifício. Desemboquei nas salas adornadas por retratos de ingleses da época dos Tudor, que me enfastiaram tanto como uma tarde passada num salão com senhoras idosas a abrirem pesados medalhões, para me mostrar os retratos dos familiares queridos.
Olhei o relógio: estava a começar a atrasar-me. Ainda era preciso levantar as malas no bengaleiro da ala Sainsbury, o que representava pelo menos um bom quarto-de-hora. Estuguei o passo pelos corredores carregados de retratos, à procura da saída. E foi então que o encontrei. Subitamente, à minha frente, estava Shakespeare. O seu retrato pendurava-se diante dos meus olhos, barrando a passagem. Não sei explicar porque razão o meu coração disparou. Eu sentia um misto de estupefacção e prazer diante daquele estranho encontro, tão desejado e tão impremeditado, como são os encontros desta natureza. A minha vontade era falar com ele, interpelar o bardo na mudez fixa, acastanhada e antiga da pintura. Ri-me do ridículo da pretensão, quando me apercebi que algo não é fixo naquele quadro de Taylor.
Uma imperceptível tensão na luz do rosto e damo-nos conta do labor que encerra aquela cabeça, que nos observa com olhos onde perpassa uma crueza amenizada por um imperceptível sorriso, mais misterioso para mim que o da Gioconda. Oh, que admirável e prolongado silêncio se entreteceu então entre nós! O silêncio, essa exclamação de todas as palavras, ergueu-se como um pano de boca, e a ilusão impregnou o ar, fazendo desaparecer tudo em volta. Assim, num palco gerado pela imaginação, eu, espectador, dei vida àquele quadro e pude, finalmente, realizar o mais estranho encontro da minha vida. Assim é o poder das ilusões. Crer ou não crer, eis a questão? Por mim, não creio em coincidências. É a única forma de elas acontecerem.
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