Triste. Estava para apanhar o avião a tempo de passar a quadra com a família, quando fui obrigado por um capitão a passar mais 15 dias no mato.
Aminha guerra começou quando assentei praça na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, para tirar o Curso de Sargentos Milicianos, no dia 6 de Abril de 1970. Após a recruta fui para a Escola Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, fazer a especialidade de atirador, a qual terminei em Setembro seguinte, no 5º lugar da classificação. Este resultado permitia-me alimentar a esperança de não ser mobilizado para a guerra. Mas acabei por partir e até vi o meu regresso ser atrasado, ao fim de quase dois anos, por causa de um capitão.
Fiquei na EPA até Dezembro de 1970 a dar instrução a um Curso de Atiradores e, no final desse mês, fui transferido para a minha unidade, o Regimento de Artilharia Ligeira de Lisboa (RAL1). Em Janeiro de 1971, eu e 13 cabos milicianos ‘não mobilizáveis’ fomos colocados em Torres Novas, com funções administrativas, para organizarmos a documentação dos batalhões e companhias que seguiam para o Ultramar. Apesar de ir para mais longe de casa fiquei bastante satisfeito, porque era mais uma indicação de que não seria mobilizado. Pura ilusão. Em meados de Fevereiro de 1971 fui destacado para a Guiné em rendição individual, afim de substituir um furriel miliciano na Companhia de Caçadores 11 (Africana).
Embarquei no navio Niassa a 31 de Março e cheguei a Bissau a 6 de Abril. O cenário não era nada animador, mas, felizmente, foi uma comissão de 21 meses sem grandes sobressaltos, embora logo à chegada a Nova Lamego (Gabu) – em trânsito para a minha companhia – tenha visto sete mortos, vítimas de uma emboscada a um pelotão da milícia africana. Mais tarde, quando seguia de Paunca para Paiama, integrado numa coluna auto de reabastecimento, pude perceber o perigo constante que corríamos: na noite anterior tinha chovido torrencialmente e uma mina anticarro ficou a descoberto, poupando-nos a dissabores.
Os últimos quatro meses de comissão foram os piores, em especial ao nível psicológico. Vi partir para a Metrópole, por terem terminado a comissão, todos os brancos que faziam parte da companhia, ficando apenas eu com os seus substitutos. Nessa altura, e porque o novo comandante de companhia (o capitão Toucas) quis aproveitar a minha experiência de 17 meses, deixei de efectuar operações e dediquei-me a coadjuvá-lo na organização da companhia. Foi uma tarefa muito difícil, porque a generalidade dos meus novos camaradas não tinha vocação para integrar uma unidade africana, apesar de terem feito um estágio com esse objectivo em Bolama.
Os militares brancos não tinham sensibilidade para lidar com os africanos, que se revoltaram com as atitudes de alguns oficiais portugueses. Nos casos mais graves chegaram a verificar-se ameaças de morte. Recordo-me de pelo menos duas situações em que fui obrigado a intervir, falando com os militares brancos e africanos para evitar consequências de grande gravidade. Mais tarde, já na Metrópole, tive conhecimento de que se verificaram problemas na companhia, precisamente pela falta de condições dos nossos militares para lidar com os africanos. Mesmo depois de terem sido os primeiros a fazer um curso de formação sobre a melhor forma de gerir estas relações.
A poucos dias do regresso a Portugal, 23 de Dezembro de 1972, passei por uma situação que me deixou bastante revoltado. Estava em Bissau, preparado para apanhar um avião a tempo de passar o Natal em família, quando fui abordado pelo meu capitão. Como só acabava a comissão em Janeiro, disse-me que ainda não podia abandonar a Guiné. Depois foi falar com o chefe do Estado-Maior e obrigou-me a voltar para o mato mais 15 dias. Na deslocação em coluna para a companhia, entre Paunca e Pirada, foram levantadas várias minas anticarro, o que me deixou ainda mais desvairado com a atitude do capitão, pois podia ter-me acontecido alguma fatalidade pelo caminho.
Regressei, finalmente, à Metrópole no dia 6 de Janeiro de 1973, num avião comercial. A ansiedade do regresso era tão grande que paguei a viagem para não ter que esperar por um transporte militar.
Passaram 37 anos. E gostava de rever alguns dos meus ex-camaradas com quem nunca mais tive a oportunidade de contactar, nomeadamente os ex-furriéis Teixeira, Freitas, Serafim, Abrantes, Barroso e Torres, o capitão Almeida, os ex-alferes Barbosa e Nelson Ribeiro e os ex-cabos Romeu, Tomás e Encarnação.
AGORA DEDICA-SE AOS SEGUROS
Zulmiro Vieira é natural e residente no Montijo. Completou o antigo Curso Comercial com 16 anos e empregou-se numa companhia de seguros de Lisboa, onde permaneceu até aos 44 anos. Em seguida, dedicou-se à mediação de seguros por conta própria, tendo constituído uma mediadora, em 1997, da qual ainda é sócio-gerente. Casou-se em 1974, um ano após regressar, e tem uma filha, com 27 anos. Nos tempos livres gosta de se dedicar à pesca no mar ou à caça. Aprecia também todo o tipo de publicações que estejam relacionadas com a Guerra no Ultramar.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.