Recusa-se a deixar de representar, seja em telenovelas ou numa peça de Shakespeare. O resto está bem resolvido pela atriz: encontrou aos 88 anos aquela serenidade de quem deitou fora os maus momentos e já só se lembra do bom que a vida tem
Eunice Muñoz completa em julho 89 anos de vida, mas nem por isso faz planos para abrandar. Está no pequeno ecrã na pele da matriarca da família Lencastre, que afinal é traficante de droga, e prepara-se para regressar aos palcos do Teatro Nacional D. Maria II em setembro com ‘Rei Lear’. Nada que seja de admirar numa mulher que, acima de tudo, sempre se entregou à vida com paixão.
De onde veio a vontade de ser atriz?
Não tive tempo nem oportunidade para ter vontade. Na minha família, da parte da minha mãe todos eram do teatro. A minha avó, as minhas tias, a minha mãe eram todas atrizes. A minha avó era até uma atriz extraordinária. Ela fazia tão bem comicidade como drama, mas lembro-me que quando ela fazia drama eu, miúda pequena, ficava muito perturbada. Chegaram a ter de me levar do teatro porque eu chorava muito.
Teve uma vida muito diferente das meninas daquela época?
Sim. Os meus pais tinham um teatro desmontável, faziam espetáculos itinerantes. Andávamos de terra em terra, pela província, a fazer teatro. Foi assim desde que nasci até ter mesmo de vir para Lisboa, para casa de pessoas amigas dos meus pais, para poder continuar a estudar. Só nas férias eu e o meu irmão voltávamos para ao pé dos meus pais e do nosso teatro, que era onde nos sentíamos bem.
Conheceu logo o País quase todo…
Era uma ambivalência extraordinária, porque por um lado conhecia a província de norte a sul de Portugal, mas ao mesmo tempo alimentava um deslumbre, um sonho encantado por Lisboa. Quando estávamos em sítios onde passava a linha férrea, corríamos para ir ver o comboio passar e eu ficava ali a olhar e a idealizar, porque sabia que o comboio vinha para Lisboa.
E quando chegou a Lisboa? A capital correspondeu às expetativas?
Fiquei muito perdida porque era muito diferente e principalmente porque não tinha os meus pais comigo. A minha mãe sempre teve uma grande paixão pelo ensino. Nós fizemos a primeira classe com ela em casa, mas ela recorria muitas vezes à professora da aldeia para se inteirar. Só na segunda classe eu e o meu irmão fomos para a escola.
Só teve um irmão?
Tive um outro, mas quando esse nasceu eu já tinha 14 anos. Durante os primeiros 14 anos da minha vida era só eu e o meu primeiro irmão, que era um ano mais novo. Era a criança mais doce e estável do mundo, o que contrastava com o meu mau feitio. Eu, sim, sempre fui muito torta! Ele não. Era muito bom. E era sempre o meu escravo nas nossas brincadeiras. Ele tinha de fazer tudo o que eu dizia ou queria!
Vê-se que eram muito cúmplices…
Ele admirava-me, tinha uma idolatração por mim. Fomos muito, muito unidos até ao fim. Tenho muito desgosto de o ter perdido. Ele tinha menos um ano, e eu ainda cá estou…
O que é que o palco lhe ensinou?
A minha relação com o palco era a relação de alguém que já lá estava. Mesmo assim, quando me estreei no Teatro Nacional D. Maria II, naquela sala enorme, com aquele pano de veludo, com aquela grandeza, foi uma emoção muito grande… com a senhora dona Amélia Rey Colaço por perto. Foi a minha grande mestra. Uma mestra querida. Era um teatro-escola cheio de disciplina. No Dona Maria havia muitos grandes atores e muitos primeiros atores, e isso era uma dádiva para quem queria aprender. Depois vamo-nos habituando. Mas o palco para um ator é sempre um lugar sagrado. Pode ser o inferno e o paraíso.
Porquê o inferno e o paraíso?
O inferno por causa da angústia com que vamos para o palco. Vamos sempre, mas especialmente no dia da estreia, porque não sabemos como o público vai reagir. É terrível. O paraíso é a nossa paixão por aquilo que estamos a fazer. Um ator, quando é realmente um ator, é sempre apaixonado.
Que papéis mais a marcaram?
Foram muitos, mas acabo sempre por referir a ‘Joana D’Arc’ que fiz aos 27 anos. Também gostei de ‘Zerlina’ (1955), encenada por João Perry. Da ‘Mãe Coragem e Seus Filhos’ (1986), também gostei muito e é um dos que refiro sempre. E ‘Madame’ (2000), em que contracenei com a Eva Wilma..
Agora está no papel de uma cómica traficante de droga, na telenovela ‘A Impostora’. É um desafio engraçado para quem tem 88 anos?
Eu rio-me muito com ela, porque é uma disfarçada, está sempre a mentir, mas ao mesmo tempo é muito cómica para uma vilã.
A Eunice casou três vezes e teve seis filhos, o que não era comum à época. Adivinha-se uma mulher de sentimentos muito fortes e arrebatados. Era assim?
A minha vida foi sempre a vida de uma mulher apaixonada. Casei-me a primeira vez com 18 anos e tive a minha primeira filha com 19. No segundo casamento tinha 28 anos, com um homem ótimo, de quem gostei muito e que também gostou muito de mim. Tivemos quatro filhos. Mas a vida tem os seus ciclos e o nosso amor chegou ao fim. Quando estava a ensaiar ‘Fedra’, do Racine, com a Companhia do Mestre Avilez, conheci o poeta e escritor António Barahona, que foi quem traduziu a peça. É um grande poeta. Tive uma outra filha com ele e foi também uma das grandes paixões da minha vida.
Foi fácil conciliar seis filhos com a carreira?
É sempre muito difícil. Os quatro do meio, então, que têm diferença de um ano e pouco uns dos outros, foi especialmente complicado. Até porque essa foi também uma época de muito trabalho. Eu estava com eles sempre que podia. Mas também tinha ajuda, claro. Quando eu não podia, eles ficavam com pessoas da minha confiança. Acho que tiveram uma infância alegre e bem-disposta. Durante esse tempo vivíamos numa quinta ali para os lados de Rio de Mouro e eles foram muito livres, puderam brincar ao ar livre, a nossa vida materialmente era boa… Apesar de tudo, acho que foram crianças felizes.
Tem uma imensa família, mas só a sua neta Lídia Munõz é atriz. Dos seis filhos e dos outros netos mais alguém passou pelo teatro?
Alguns passaram por lá, como a minha filha Maria, que chegou a representar. Tinha muita qualidade como atriz e iria certamente fazer carreira. Tive muita pena que se afastasse. A mais nova também chegou a fazer teatro mas também se afastou. Talvez porque é muito difícil ser filho ou neto de um ator reconhecido. Há muitas comparações e nem sempre há justiça.A minha neta Lídia, por exemplo: ao contrário do que possa parecer, até tem sido prejudicada por ser minha neta. Tem talento, é bonita, estudou teatro no Conservatório, era caso para já ter feito uma carreira muito mais ativa. Mas ela há-de ter o seu lugar. O seu espaço está reservado e ela merece-o.
Os tempos dela também são muito diferentes…
Isso também é uma grande verdade. Há muito mais gente a querer fazer teatro, e gente com qualidade. Ainda bem. Congratulo-me porque isso só pode trazer coisas boas para o futuro do teatro e das artes do palco.
Os mais jovens pedem-lhe muitos conselhos?
Eu conselhos não gosto nada de dar a ninguém, porque acho que é complicado, mas fico contente porque têm aparecido, tanto no teatro como na televisão, jovens com muita qualidade. E a maior parte deles despertam com uma curiosidade e uma vontade que antigamente não tinham. Muitos começam a fazer telenovelas, mas têm desejo de aprender e inscrevem-se no conservatório. Isso é bonito de se ver.
O que está a fazer de momento?
Vou começar em breve os ensaios, com direção do Bruno Bravo e com outros elementos da companhia dele, para levar ao palco ‘Rei Lear’. Tenho pelo Bruno Bravo muita admiração, pois como encenador tenho visto espetáculos notáveis. E estou-lhe muito grata por ele tomar parte deste meu sonho. Estou entusiasmada e, ao mesmo tempo, com muito medo. (risos)
Tem data de estreia?
Para setembro, no Teatro Nacional. D. Maria II.
Qual é o segredo para continuar no ativo aos 88 anos?
A minha saúde sofreu reveses. Aquela queda trouxe-me coisas dolorosas para o meu dia a dia, fez- -me uma fratura da coluna que me dá bastante sofrimento. A dor é muito perturbadora mesmo em relação ao meu cérebro. Mas os médicos ajudam-me a passar melhor. E, depois disso, foi esta operação à garganta que me afetou a voz. Acontece que não sou pessoa para me queixar. Não vale a pena.
Para um ator deve ser especialmente penoso ver a sua voz afetada.
Sim, para um ator é extremamente perturbador. Não deve haver coisa pior. E tudo o que peço a Deus, neste momento, é que me dê apenas a voz suficiente para continuar.
Se calhar outros já tinham pensado em desistir…
Eu não. Porque amo muito o meu ofício e tudo aquilo que faço. É uma parte muito importante da minha vida. Não podia desistir assim.
Entre televisão e teatro continua a preferir o teatro?
Sempre o teatro. O contacto com o público não tem nada a ver.
E entre os prémios e aplausos, o que prefere?
É sempre agradável receber prémios, é o reconhecimento do nosso percurso, e uma resposta ao nosso trabalho. Tenho tudo num armário. Mas o público é sempre o público.
Quando olha para trás, tudo valeu a pena?
O envelhecimento traz-nos uma grande riqueza. É evidente que não posso deixar de reparar, quando olho ao espelho, que já sou uma rapariga com muita idade. Mas, ao mesmo tempo, há uma serenidade incrível. Juntamos as lembranças, lembramos tudo, as coisas más e boas e encontramos no meio de tudo uma grande tranquilidade. Quando se tem a minha idade deita-se fora os maus momentos. À superfície só fica o bom que tivemos na vida. Só por isso vale a pena ter quase 90 anos.
Como gostava de ser recordada?
Acima de tudo como boa pessoa. Isso eu gostava.
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