Lloret del Mar, em Espanha, é o paraíso dos finalistas portugueses. O álcool barato e sem restrições de venda faz a noite entroncar no dia, em bebedeira.
Traçam diagonais à estrada e acabam caídos nas bermas, copos e garrafas na mão, antes de serem recolhidos para o hospital. À média de “quinze por noite”, lamenta a médica Maria Fernandez. “Aqui não se vende cultura, é o culto do álcool. Os miúdos vêm para beber”. E bebem de tudo. Uísque e cerveja, do vodka ao cognac, “o que apanham”. São os portugueses. E mais precisamente 18 mil, de Norte a Sul do País, que este ano acabam ou dizem acabar o liceu. Invadem e tomam por paraíso Lloret del Mar, a vila catalã onde, há pouco mais de uma semana, uma rapariga de Vila Real de Santo António se queixou de ter sido violada (os pais já apresentaram queixa ao Ministério Público) e onde um grupo de estudantes foi expulso de um hotel por guerras de ovos. Ali, até um motorista que conduzia miúdos portugueses foi apanhado com um grau de alcoolemia impróprio para as leis espanholas.
Espanha proíbe o álcool a menores de 18, mas “é vê-los com 15 e 16 anos nas lojas”, com as garrafas a brilharem na montra. São duas semanas a encher sacos e atacam logo nos quartos. Muitos não chegam ao jantar. E “quando não saem já bêbados do autocarro”. Repete-se todos os anos, “não visitam a Costa Brava, Gerona, um museu, cateral. Nada. É uma tristeza. São jovens sem alternativas”, diz Fernandez.
Os holofotes cruzam-se a meio da larga avenida com acesso à praia e focam cartazes a anunciar festas e sessões de strip. Maria dos Copos é bar de paragem obrigatória, onde os copos de refrigerante escondem vodka e os mais novos se batem por aguentar novo brinde. E agora shot. Desta vez B-52, o ‘clássico’ de chama acesa é “só para alguns...” Vasco dá mais uma passa no cigarro e manda calar a “chata” da irmã mais velha, 17 anos. Nem duas da manhã são “e ela já quer entrar no Colossos”. Têm pulseira para a discoteca de três pisos mas não está “para aturar stresses”. Grita-lhe numa voz arrastada que já lá vai ter. Ainda vira mais um. E outro “para acalmar”. Ana veste-lhe o casaco e recorda a noite anterior, quando ele “aterrou na cama ainda antes do jantar”. Numa semana de chuva “as tardes são uma seca” e foi ao supermercado com os amigos do Porto. Bebeu meia garrafa de vodka e ficou a dormir. Mas só depois de gritar à janela e de vomitar.
Cinco da manhã é a hora crítica. Fecham as discotecas e chega a hora de polícia, monitores e ambulâncias entrarem numa roda-viva. Cruzam-se os cânticos de Benfica, Sporting ou Porto pelas ruas estreitas de acesso aos hotéis e “todo o cuidado é pouco”. A euforia de milhares não tem limites à porta do Tropics, Colossos ou Revolution, as três discotecas da moda pelos acordos que fazem com agências. E as patrulhas desdobram-se em rondas de madrugada pela vila. Controlam os gritos na rua e, já dentro dos hotéis, travam agressões e recolhem casos perdido ao hospital. “Às vezes à esquadra”, conta à Domingo um polícia, recordando o caso da rapariga que se virou a um agente. E os rapazes que andavam “à pancada na estrada por causa das namoradas”. Ou as “guerras entre terras rivais, sobretudo do Norte de Portugal”. Tudo inflamado pelo álcool.
Mas a rotina é a mesma “há já mais de dez anos” no hospital de Lloret del Mar nas duas semanas da Páscoa. “O que fazer?” Metem-nos logo a soro para hidratar, o álcool faz baixar os níveis de açucar. “Depois dormem, já temos aí umas caminhas para eles”, brinca uma enfermeira. E agressões, “claro, pois se eles se metem com as miúdas dos outros...” Depois “chegam aqui com monitores pouco mais velhos do que eles”. Em Espanha, os professores acompanham as viagens e “há logo outro respeito”. De Portugal não vêm “para não ter chatices”, arrisca Maria Fernandez. Ingleses, franceses e alemães chegam “com programas culturais definidos. É o que faz falta a estes jovens – alguém que lhes abra os horizontes”.
Grande defensor dos jovens finalistas é o director do D. Juan, hotel por onde passam 1400 alunos das nossas escolas. E isto ‘esquecendo’ que, logo na primeira semana, foi ele a expulsar um grupo de 60 em plena noite. Enquanto tiveram ovos e papel higiénico ninguém parou “meia-dúzia de rebeldes” pelos corredores e pagou o justo pelo pecador. “Uma miúda até estava a dormir” – e, antes de ser recambiada para a camioneta, “queixava-se de que os seguranças nem a deixavam lavar os dentes”, conta à Domingo Miguel Moreira, 17 anos, de Viseu. Mas o director do hotel mantém que “os portugueses são arma de arremesso político na região”, uma forma cobarde de a oposição atacar o partido no governo. E recorda um impacto económico “superior a nove milhões de euros” com os 18 mil estudantes.
As agências vendem packs de cinco e sete noites, em finais do ano passado já estavam em contacto com as escolas e rapidamente se lançaram na publicidade. A concorrência é feroz. E só a SporJovem “trouxe doze mil ao todo”, adianta o director-geral Orlando Sagaz Pinto. Oito mil na primeira semana e quatro mil na segunda. Com 40 anos não vai à cama “mais de duas a três horas por noite”, tal como os seus cem coordenadores. Prestam primeiros socorros e todos os dias seguem a caminho da polícia e hospital – andam “sempre a correr de um lado para o outro. Mas é normal”, garante.
Os monitores distribuem-se pelos hotéis e “muitas vezes” são os seguranças que lhes ligam. “Há situações difíceis de controlar. Acabam noites à pancada, a polícia leva-os e depois há que ir buscá-los...” O pior é entre as 23h00 e as 07h00, quando os copos e canecas batem ao balcão dos infinitos bares e discotecas da vila. O Benfica-Porto era também de risco em Espanha e, entre os “três mil miúdos” que a SporJovem juntou à volta de um ecrã, “foi lançado um petardo. Mas mais nada”, diz o director. E nos hotéis “o ideal é conseguir espaços só para eles”, caso do Costa Encantada, esgotado com 1200 camas portuguesas. “É mais fácil para todos”, confessa, ao contrário de outros hotéis onde os gritos e guerras de ovos se cruzam com a pacata rotina de casais ingleses ou franceses de terceira idade.
Vomitam na rua, já no hospital até na cama. Bebem muito em casa e recuperam o velho hábito espanhol do ‘botellon’ – já proibido e que passa por juntar garrafas de uísque e vodka na rua, servido com sumos e muito gelo à mistura. “Os supermercados aqui quase só vendem álcool, às vezes queremos comida e não há”, queixa-se Débora Silveira, 18 anos, chegada de Coimbra à vila na última semana. Está num grupo de 24 mas o tempo não ajuda e, sem sol, só chuva, cortaram--lhes todos os extras. “Piscina, massagens, festas na praia, um cruzeiro”. Resta-lhes a noite. Ricardo e Gonçalo, 17 e 18 anos, acordaram às três da tarde. Os olhos não disfarçam “a ressaca” mas agora é preciso “curá-la” – a noite ali “começa mais cedo” e há que estar em forma. “Temos absinto e malibu no quarto mas vamos com calma, ainda ontem ficaram dois estendidos na cama...”
Demba Mballo, senegalês há muitos anos em Espanha, é porteiro num bloco de apartamentos e tem por missão travar a gritaria madrugada dentro. “É uma época em que menos de 400 nunca aqui estão”. Há sempre problemas “mas é talvez próprio da idade, há que saber falar com eles. Parece que aqui se sentem eles próprios, soltam-se como nunca. O álcool transfoma-os e, quando entram já de manhã, desfigurados, não são os mesmos rapazes que vimos passar durante o dia...” A grande maioria não fala espanhol e “há que controlá-los”, quem tem experiência já os leva à certa – “apesar de entrarem por aqui aos gritos e a cantar, ainda de copos na mão. São problemas que temos de resolver, chamá-los à razão, porque temos também muitos hóspedes de terceira idade a descansar”.
Todos concordam que Lloret del Mar é um mundo à parte, “a loucura total”, e no próximo ano ‘colam-se’ a outros finalistas para lá voltar. Quim Barreiros explode pelas colunas da ‘Maria dos Copos’ e uma fila indiana corre aos saltos em volta da pista. “É o auge”. Melhor só mesmo “no dia da festa do gelo”, brinca um rapaz de Aveiro, tentando disfarçar o ar imberbe dos 15 anos. “Os cubos passam de boca em boca e derretem-se a meio dos beijos. E são elas que fazem umas com as outras”, garante. Mas não precisa. Na última quarta-feira passaram imagens da festa em ecrã gigante e a Domingo viu. Foi no Colossos, onde um casal de bailarinos dança seminu ao centro e leva ao delírio centenas de rapazes e raparigas de braços no ar. E drogas ali dentro “nem pensar”, garante a pequena Joana, de olhos revirados e já meio a dormir em cima de uma coluna de barulho estridente. No fim choram e cantam o Hino Nacional. Queriam mais.
“KEM VAI PA LLORET"
“Eu achava melhor uma pergunta do género: Quem é que NÃO vai para Lloret??? É tudo para lá! Até chateia... Eu vou pa Lloret!!!!!!!!! looooooool. ya, n’é o melhor lugar pa falar disso... mas lá vamos nós!!!!” O lugar é o Fórum do site dos Exames Nacionais e Acesso ao Ensino Superior, onde o português se ajusta aos códigos dos intervenientes com menos de 18 anos. O ano é 2006, mas podia ser qualquer um outro. A euforia das viagens de finalistas não é nova. A preferência por Lloret del Mar idem. Para quem vai. Para quem foi e repetiu, uma, duas, três vezes, é lugar comum para passar as férias da Páscoa na Catalunha entre praia, noite, muitos testes ao fígado e peripécias que nem sempre acabam bem.
“Lloret é um mundo à parte. Grandes ‘jardas’ que o pessoal apanha. Anda toda a gente bêbeda, ninguém escapa. Eu só bati num gajo. Pisou-me na discoteca e levou. Pensei: não posso sair daqui sem andar à porrada! É da praxe...” João Carlos, 18 anos, acaba de chegar de Espanha. Foi a segunda visita com direito a estadia no Hotel D. Juan. “Há três ou quatro anos a nossa escola (Secundária de Alcochete) foi interditada de ir a Lloret. Dois colegas foram presos por andarem à estalada com o motorista do autocarro que nos leva a todo o lado. Iam para o hotel, que ficava muito longe, mas o motorista não queria levá-los até à porta. Como estava a chover muito e eles estavam muito bêbedos, passaram-se”. Vantagens e desvantagens do álcool ao preço da chuva. “A viagem ficou em 265 euros – 300 incluindo a ida ao PortAventura. Inclui hotel e pensão completa. Levei 360 euros a mais e gastei tudo. As coisas até estão mais baratas. Paguei três euros por um uísque/cola e 90 cêntimos por cada shot”. Maria Ramos Silva.
CONFESSOR DA RAPARIGA VIOLADA
Entrou de madrugada pelo hospital com um finalista por uma “amigdalite elevada”, quando nas Urgências lhe disseram estar uma rapariga portuguesa violada por dois monitores. “Aproximei-me dela, esperei que acordasse e percebi que, por vergonha da família e dos colegas, estava com medo de apresentar queixa”, conta Luís Ferreira (na foto abaixo), bombeiro de Almada e socorrista ao serviço da SporJovem em Lloret del Mar. As amigas que a encontraram “num estado lastimável” anteciparam-se na queixa – e o socorrista não esquece o horror que a vítima lhe descreveu: “Saiu expulsa da discoteca Tropics pelos seguranças e seguiu para o Hotel San Marti”, onde, sem chave, esperou as colegas no corredor. “Chegaram dois monitores, perguntaram se estava bem e convidaram-na a descansar no quarto deles. Entrou e sentou--se na cama quando um deles lhe disse que não podia contar tudo o que se iria passar a seguir”. Tinha uma relação de quatro anos e gostava muito da namorada, justificou. Enquanto isso “o outro tirou-lhe a parte de cima da roupa e segurou-a, enquanto o colega se colocou em cima dela”. A vítima disse a Luís lembrar-se do acto por fases – e, a partir daí, só se recorda de ser acordada já no elevador por um rapaz. Uma amiga confirmou “o estado em que a encontraram”, foi apresentada queixa e os dois suspeitos detidos. Presentes ao juiz saíram em liberdade. A rapariga voltou a casa, em Vila Real de Santo António.
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