Ex-mulher, sogros e enteado morreram pelas balas das armas de Paulo. O assassino estava falido e em litígio com o sogro
O dia 27 de abril de 2015 vai ficar profundamente marcado na vida dos habitantes de Estela, uma pacata freguesia do concelho da Póvoa de Varzim. Foi neste dia que um dos seus residentes assassinou de forma fria, premeditada e bárbara, quatro pessoas muito próximas. Esse homem, Paulo Silva, de 44 anos de idade, num ato de profunda barbárie, tirou a vida à ex-companheira, Sílvia Lima, de 42 anos, ao enteado, Renato Alves, 23 anos, filho de uma relação anterior de Sílvia, e aos sogros, Domingos Lima e Maria de Fátima Lima, ambos de 70 anos.
Paulo Silva conhecia Sílvia Lima há muitos anos. Dizem as gentes de Estela que Paulo sempre foi profundamente apaixonado por Sílvia. Quis o destino e a vida que Paulo Silva, à semelhança do que aconteceu com dois dos seus três irmãos, emigrasse para França, ainda muito jovem. Quando regressou, Sílvia havia casado com A. Silva, de quem teve um filho, Renato. Este casamento acabou, tendo o homem emigrado para França, onde constituiu nova família. O mesmo aconteceu com Sílvia.
Entretanto, Paulo Silva regressa de França e finalmente realiza o seu sonho de infância e inicia uma relação com Sílvia. Nunca se casaram, viveram sempre em união de facto.
VINTE ANOS
Estiveram juntos cerca de 20 anos, tendo dessa relação nascido Joel Silva, hoje com 16 anos, um jovem que testemunhou os crimes, que viu o seu pai tirar a vida à sua mãe, ao seu irmão e aos seus avós, e uma menina, Inês Silva, de 9 anos, que não presenciou a tragédia por estar na escola.
A vida de Paulo Silva e de Sílvia Lima decorria aparentemente sem problemas. Paulo abriu uma empresa de montagem de tectos falsos, empresa essa que abriu com dinheiro do sogro e ficou instalada nuns armazéns/barracões construídos num terreno do sogro em Estela. Paralelamente, terá tido também interesses empresariais em Espanha, mais concretamente em Tui, onde terá tido uma empresa e uma residência, daí o facto de ser proprietário de um veículo Mercedes com matrícula espanhola.
Entretanto, por vicissitudes da própria vida, a relação entre Paulo Silva e Sílvia Lima começou a deteriorar-se, os problemas foram-se agravando, as discussões foram- -se agudizando, razão pela qual, há cerca de dois anos, o casal se separou.
Aparentemente tinham reorganizado a sua vida. Sílvia Lima teria uma nova relação com um homem que residia fora de Portugal e Paulo Silva uma nova companheira, com quem vivia em Vila do Conde. Não terão sido ciúmes ou desconfianças as razões que estiveram na base desta tragédia, deste crime bárbaro.
Os problemas ter-se-ão iniciado aquando da separação do casal, mas por razões patrimoniais, mais concretamente partilhas. Aparentemente, os negócios de Paulo Silva iam de mal a pior. A empresa sediada em Espanha está encerrada e a empresa de tectos falsos sediada em Estela, a Paulo Silva & Lima, está falida.
Finda a relação com Sílvia, Domingos Lima, o sogro, terá dito a Paulo que queria reaver o dinheiro que lhe havia emprestado. Simultaneamente, Domingos queria igualmente o seu terreno de volta. Domingos terá pressionado Paulo Silva para saldarem as contas.
Estas seriam as principais causas de discussão entre Paulo e a família da ex-companheira. Esta situação ter-se-á agravado nos últimos tempos, tendo Paulo Silva começado a ameaçar Domingos Lima e os seus familiares.
Foi por esta razão que alguns dias antes do crime e depois de mais uma vez ter sido ameaçado por Paulo Silva que Domingos Lima se dirigiu ao posto da GNR e apresentou uma queixa-crime contra Paulo Silva por ameaças. De pouco lhe serviu, já que nada se fez.
Um homem que ameaça de morte toda uma família, que tem registadas em seu nome meia dúzia de armas de fogo, tinha de ser levado a sério. A ameaça era evidente. Paulo Silva era um homem desesperado, amargurado, desiludido com a vida, completamente falido, com pouquíssimos recursos financeiros e que não via uma saída para esta sua situação. Este homem, acossado, pressionado pelo sogro a devolver o dinheiro que não tinha e na posse de tantas armas de fogo era uma bomba-relógio. Essa situação não foi tida em conta, e a tragédia aconteceu.
Dias depois de terem apresentado queixa contra ele, a 27 de abril, pelas 09h30, Paulo Silva parou a sua viatura Mercedes de matrícula espanhola à porta do Café São Tomé, em Estela, que era propriedade dos sogros, munido de duas armas, uma pistola 6,35 e um revólver .22. Saiu da viatura com as armas e entrou no café. Aparentemente, a primeira vítima mortal terá sido a sogra Maria de Fátima Lima. Segundo os relatos conhecidos, estaria no café, junto a uma mesa, e terá sido atingida por dois disparos, o primeiro no ombro e o segundo na cabeça.
Os mesmos relatos contam que o enteado de 23 anos, Renato Alves, foi atraído ao café pelo som dos disparos. Quando entrou foi atingido com dois disparos, ambos na cabeça. A terceira vítima foi a sua ex-companheira, Sílvia Lima. Ao que parece, Paulo saiu do café e entrou na casa contígua ao estabelecimento onde tinha vivido com Sílvia e os filhos. Terá encontrado Sílvia no corredor da casa. Sem qualquer tipo de contemplação, terá atingido a mulher com pelo menos dois disparos na cabeça.
No meio da confusão e dos gritos do seu próprio filho, Joel Silva – que pedia ao pai para parar e que o terá tentado desarmar –, Paulo terá ido em busca do sogro. Domingos Lima tentou fugir e ter-se-á refugiado na cave do imóvel. De nada lhe valeu. Paulo encontrou-o e abateu-o com dois disparos.
De seguida, saiu do café, não se preocupou minimamente com o seu filho Joel, que havia presenciado a matança e que gritava e chorava compulsivamente, e entrou na viatura para fugir para Espanha.
Essa tentativa de fuga não foi conseguida porque teve um acidente de viação, mesmo à entrada da ponte internacional de Valença, tendo sido detido pela GNR de Valença.
NA CABEÇA DE PAULO
O que terá pensado este homem? Existirá algum tipo de razão que leva um ser humano a ter um comportamento deste tipo, a assassinar de forma gratuita pessoas com as quais havia tido quase vinte anos de vida em comum?
É lógico que não. Não existe nenhuma razão, nenhum motivo, que possa justificar este comportamento.
Muitas são as pessoas que perguntam se Paulo Silva não pensou sequer na vida dos seus dois filhos. Em pouco mais de cinco minutos, Paulo tirou a vida à mãe e aos avós maternos dos menores. Se a isto juntarmos que Joel e Inês Silva, filhos de Paulo, já não tinham avós paternos e que os tios estão longe, o que será da vida destes dois adolescentes? Paulo Silva, além de criminoso, é um ser egoísta, pois para si prevalecia uma vingança mesquinha, uma vingança que era só sua, não pensando nos filhos. Cortou-lhes a possibilidade de crescerem e de beneficiarem do apoio e acompanhamento da mãe, dos avós e do próprio pai, o qual depois de tão bárbaro ato não se livrará de uma pena de prisão, que dificilmente será inferior a 25 anos. Paulo Silva dificilmente sairá da prisão nos próximos anos. Será mais um assassino a engrossar o sistema prisional português.
Egoísta, Paulo não pensou nos filhos, nos seus filhos. Mas será que podemos analisar Paulo Silva à luz dos nossos valores morais e éticos? Terá Paulo crescido num ambiente que lhe proporcionasse a sedimentação de valores éticos e morais assentes no respeito absoluto pela vida dos nossos semelhantes?
Penso que não. Paulo não teve de todo uma infância normal. No entanto – que fique claro – que o que a seguir escrevo em defesa de Paulo Silva, em circunstância alguma pode ser entendido como uma justificação ou uma desculpa para os seus atos. Não. Esses atos são indesculpáveis e sem justificação.
Posto isto, teremos de perceber que Paulo Silva foi vítima, ainda que indireta, de situações de violência doméstica. Ao longo da sua infância, terá presenciado situações de violência em sua casa, tendo mesmo afirmado que assistiu ao momento em que o seu pai matou a sua mãe. O pai de Paulo, que já faleceu, terá cumprido uma pena de 20 anos de prisão. A confirmar-se, Paulo Silva fez ao seu filho Joel o que o seu pai lhe havia feito; ou seja, "obrigou-o" a ver o momento em que lhe tirou o direito à mãe. Paulo Silva fez ao seu filho Joel o mesmo que o pai lhe havia feito a ele.
Esta situação remete-nos para a problemática da violência doméstica; o que estarão esses agressores a fazer aos seus filhos quando os obrigam a presenciar dias e dias de cenas brutais de violência, destratando e agredindo as mães à frente deles? Que homens e mulheres estão estes agressores a educar, quando obrigam estas crianças a crescer em ambientes em que a violência física ou psíquica se torna banal, em que aqueles menores têm de encontrar defesas que lhes permitam sobreviver naqueles ambientes tão adversos?
O crime da Violência Doméstica é hoje em dia um crime nuclear na sociedade portuguesa. Não podemos dissociá-lo de alguns casos de abusos sexuais cometidos sobre as mulheres, mas também sobre as próprias crianças; não podemos dissociá-lo de situações de maus-tratos a crianças; e acima de tudo não podemos dissociá-lo dos homens e mulheres que estamos a criar e a quem não estamos a proporcionar as condições ideais de um dia poderem vir a ser bons cidadãos ou, se quiserem, boas pessoas.
Paulo Silva foi isso mesmo. Não teve as condições ideais de crescimento em família e tornou-se num monstro. E de um monstro só podemos esperar as maiores monstruosidades.
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