Muitos críticos e o público consideraram ‘Speed Racer’, o último trabalho dos irmãos Wachowski (já em DVD), um projecto falhado. No entanto, poucos filmes de 2008 estimularão tanto o espectador a pensar no futuro do cinema como esta fita infanto-juvenil sobre corridas de carros.
A dupla de cineastas tem vindo a aprofundar a noção de cinema virtual, ‘rodado’ dentro do computador. O seu mais recente filme está aquém de ‘Matrix’, que os celebrizou, no seu ‘conteúdo’. Mas também está aquém no literal sentido da palavra. As personagens ainda não vivem, como em ‘Matrix’, imóveis e conectadas a um computador central que, qual Deus, cria a realidade. Em ‘Speed Racer’ os humanos habitam uma realidade digital. Num universo ainda não totalmente computorizado. Caminha-se para o simulacro, mas ainda há esperança na vitória da diversidade/individualidade.
Neste filme, recorre-se a tecnologias do século XXI para contar uma saga do século XX, uma narrativa não linear folhetinesca. E independentemente do seu (in)sucesso, ‘Speed Racer’ abre estradas. Por exemplo, desafia a noção de plano: cabeças em movimento servem de cortina, escondendo e revelando inúmeras imagens diferentes. Não há cortes, não se sabe quando começam ou acabam os planos que têm uma vida prolongada graças à manipulação digital das imagens.
Por outro lado, este trabalho dos Wachoswki contraria a tendência de filmes como ‘Bewolf’, em que cenários e personagens parecem retirados de um jogo de computador, com pretensões a reproduzir a realidade. Em ‘Speed Racer’, os embates dos carros, nomeadamente, não aspiram a reproduzir um choque ‘real’. São cine-quadros pop-psicadélicos. Os seus actores são filmados 'realisticamente' e inseridos num ambiente digital, como se estivessem ‘mesmo’ a viver num jogo. É desse contraste que vive o filme. De fissuras entre os dois universos. Porque o Real incorpora o simulacro e é nessa dinâmica de estranheza que funciona (e não funciona) o filme.
Em ‘Speed Racer’, a soberba das corporações multinacionais é posta a nu, denunciando-se a falsificação das corridas automóveis. Mas os heróis são capazes de triunfar 'num mar de maldades capitalistas'. Essa temática ilustra também a paradoxal carreira dos irmãos Wachowski. Eles questionam a realidade no interior (aliás, no coração) do próprio sistema. Mas a sua ‘luta’ factura milhões. É o sonho americano digitalizado.
A MATRIZ
O pioneiro filme proto-cyberpunk ‘Tron’ (Steven Lisberger, 1982) alterou a relação de forças entre a realidade processada pela câmara e a processada por computador. Pena que, tal como em ‘Speed Racer’, a tecnologia esteja ao serviço dos ‘clichés’ do cinema ‘imaturo’. Para quando o verdadeiro filme digital ‘crescido’?
O ORIGINAL
Uma das primeiras animações japonesas de sucesso nos EUA foi ‘MachGoGoGo’ (‘Speed Racer’, anos 60) de Tatsuo Yoshida. Inspirada no carro de ‘Bond’ e no look de Presley, influenciou os Wachowski em ‘Animatrix’. É a globalização de influências, num vai-e-vem de retroalimentação pop.
O LABORATÓRIO
Mais complexos e sofisticados que a adaptação de ‘Star Wars’ ao reino digital (‘Guerra dos Clones’) são os filmes de animação ‘encomendados’ pelos irmãos Wachowski. Os episódios de ‘Animatrix’ expandem e contextualizam a mitologia/franchise ‘Matrix’. Sem o maniqueísmo de Lucas.
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