Há duas semanas, uma vaga de frio varreu Portugal e atingiu de forma brutal os estabelecimentos de ensino nacionais. Fevereiro promete ser um mês tranquilo, com a chuva a fazer subir as temperaturas, mas não há certezas de que o gelo não volte este ano. Nesta edição, fazemos um ponto da situação e traçamos o roteiro de quem vive com o problema. Uma viagem pelo País real, de Norte a Sul
O termómetro marca 10 graus, e uma simples passagem pelos corredores do Passos Manuel, um dos históricos liceus de Lisboa (Mercês), basta para sentir que o local é frio e não está preparado para Invernos rigorosos. Com traça antiga, o estabelecimento possui grandes dimensões e salas de aulas desmesuradas, denotando dificuldades de aquecimento. A aumentar o problema, faltam meios, económicos e materiais, para alterar a situação.
O frio nas escolas prejudica o rendimento dos alunos e é, em alguns casos, um importante foco de doenças. Depois de o Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) ter dado o alerta, o ‘Domingo Magazine’ optou por fazer um longo levantamento do problema, medindo a temperatura a uma série de escolas portuguesas, de Norte a Sul do País. E os resultados não são agradáveis.
No caso do Passos Manuel, Irene Fleming, presidente da Comissão Provisória, confessa que, quando está frio, “é um gelo” autêntico. “Apenas a biblioteca, o centro de recursos e a sala dos professores têm aquecimento, porque também são mais pequenas”, explica. A situação é comprovada por João Paulo Leonardo, professor de Ciências Naturais, que lembra que, há duas semanas, quando os termómetros registaram temperaturas quase negativas, “houve mesmo alunos que estiveram menos activos, visto as salas estarem muito frias.”
Ana Fernandes, 14 anos, sofreu com o problema e chegou mesmo a questionar a professora sobre se podiam mudar de sala. “É que tenho de estar de luvas e mal consigo escrever. Está mesmo frio”, explicou.
Mas as crianças das escolas primárias (Básicas 1) também sofrem. Ainda na Capital, a escola primária oficial número 2 também denota problemas de equipamento. Um pátio, sem qualquer tipo de cobertura, obriga os alunos a ficarem debaixo das arcadas ou nos corredores quando chove. E em nenhum destes sítios há aquecimento. Contudo, nas salas de aula a situação é diferente. Segundo o director desse estabelecimento de ensino, Alberto Tavares, “todas têm aquecimento eléctrico e todos os aquecedores são ligados sem olhar a despesas”. Na semana de baixas temperaturas, diz, “os miúdos não tiveram problemas com o frio.”
Mas hoje, com ou sem aquecimento ligado, Filomena Barbosa, professora do 3º ano, confessa: “Alertei os meus alunos em relação ao frio que iria fazer-se sentir. Muitos deles faltaram nos primeiros dias e alguns até tinham de escrever com luvas.”
GELO NO PORTO
A recente vaga de frio também se fez sentir nas escolas do Porto, a maioria sem aquecimento. É o que acontece com a Escola EB 2-3 Francisco Torrinha, um antigo colégio adaptado. Perante alguma degradação, o Conselho Executivo está a proceder a obras para tornar o edifício mais funcional, onde existem salas de aulas sem o mínimo de conforto e habitabilidade no piso superior do edifício, outrora espaço onde estavam sediadas as camaratas dos alunos internos do colégio. Nas salas, de dimensões exíguas, é visível a humidade nos tectos e nas paredes, uma situação adversa para vários alunos e pelo menos uma das professoras, alérgicos aos fungos. Em dias de frio, as crianças “estão carregadas de roupa”.
Perante o cenário de degradação, o Conselho Executivo (CE) resolveu-se, ao fim de 20 anos, pelos melhoramentos no exterior e interior do edifício, apoiados pela Associação de Pais, que ajudou a sensibilizar a DREN para as obras. “De facto, em meados de Janeiro os alunos e professores tiveram muita dificuldade em suportar o frio, o que se reflectiu no rendimento escolar”, diz Pedro Ferreira, presidente do CE.
MELHORIAS NA GUARDA
Na Guarda, as condições estão a melhorar. O distrito regista temperaturas muito baixas durante o Inverno, mas os alunos e os professores das 400 escolas do 1º ciclo não têm grandes razões de queixa em relação ao aquecimento. Segundo o executivo distrital do SPRC, não há ali “grandes problemas em relação ao aquecimento, a não ser uma situação ou outra pontual”.
Na última vaga de frio, não houve registo de queixas, com excepção de uma escola do 1º ciclo do concelho de Vila Nova de Foz Côa, onde, de acordo com Eduardo Espírito Santo, do SPRC, “houve deficiências no aquecimento.” “Este caso aconteceu numa zona onde, à partida, não se adivinhava que houvesse tanto frio, dado que é um microclima, e a escola não estava preparada”.
Ainda segundo a mesma fonte, as Câmaras Municipais “têm tido uma acção preponderante e têm equipado as escolas com aquecimento central. Pode estar a pingar na escola, uma parede pode estar molhada, mas têm sempre em conta o sistema de aquecimento”, diz.
FUNDÃO A LENHA
Dessa sorte não se podem congratular muitos alunos do Fundão. Apenas a lenha, no caso dos estabelecimentos que têm instaladas lareiras, a electricidade ou gás, fornecidos pelas autarquias, ajuda a combater o gelo que sopra da Serra da Estrela.
A escola do Mercado, por exemplo, tem graves deficiências resultantes de um edifício em estado de degradação, o que afecta o trabalho e os resultados escolares”, afirma a directora da escola, Corina Saudade Daniel. “O aquecimento é insuficiente, feito a partir de um minúsculo radiador eléctrico, porque o quadro não aguenta mais carga, e de um calorífero a gás. As crianças sentem amiúde necessidade de se deslocar dos seus lugares para irem aquecer as mãos.”
Nalguns dos últimos dias mais frios, as crianças abandonaram, por indicação da professora, os deveres escolares para se aquecerem através de exercícios físicos. Por outro lado, há salas de aula que metem água em dias de muita chuva.
Mais protegidos estão os alunos das escolas centrais do Parque das Tílias, que desde o início do ano lectivo frequentam a Escola Profissional, devido a obras de recuperação nas antigas instalações. Entre os benefícios, destaca-se a instalação de aquecimento central, o primeiro numa escola do concelho.
BOM EXEMPLO EM CASTELO BRANCO
Às 09h50 da manhã, no interior de uma das salas da Escola Básica do 1º Ciclo nº 9 de Castelo Branco, conhecida por Escola do Valongo, a temperatura ronda os 20 graus, comprova Guilherme Siqueira, um jovem brasileiro do quarto ano de escolaridade, que não sente frio nas aulas. O director da Escola, Rui Vaz, professor há 23 anos, já leccionou em concelhos como Oleiros, Fundão, Idanha, Covilhã e Vila Velha de Ródão, e afirma existirem boas condições no actual estabelecimento.
“Nos locais por onde passei surgiram situações de frio. Em Idanha-a-Velha cheguei a ter de ir eu à lenha. Mas esses problemas foram sendo resolvidos. Hoje, em Castelo Branco, não temos problemas com o aquecimento”, recorda.
O presidente da Câmara local, Joaquim Morão, diz que a autarquia “implementou um programa de quatro anos, ao abrigo do qual recuperou todos os edifícios das escolas do pré-escolar e 1º Ciclo. Foi revisto o sistema de aquecimento em cada uma delas”.
Essa medida veio alterar a situação vivida há alguns anos e, hoje, segundo o mesmo dirigente, “todas as escolas têm um sistema” digno. Um exemplo a seguir.
Caldas da Rainha: Temperaturas baixas Mas os estabelecimentos de ensino onde o frio aperta não se ficam por aqui. Na escola do 1º ciclo nº 1 das Caldas da Rainha, os 76 alunos e quatro professores deparam-se com um problema caricato: não podem ligar os aquecedores além do mínimo da potência, se não o quadro eléctrico dispara. Às vezes, o frio é tanto que se está melhor fora da sala. Uma das docentes afirma que já chegou a mandar os miúdos para o recreio, incitando-os a fazerem corridas para aquecerem.
A situação é tão mais estranha quanto, no mesmo edifício, está a funcionar a sede da Delegação Escolar. Mas é precisamente pela quantidade de serviços existentes no mesmo imóvel que o quadro eléctrico é insuficiente. Para lutar contra o frio matinal, os aquecedores que há em duas salas ficam algumas noites ligados.
O oposto desta realidade vive-se na escola do 1º ciclo nº 4 do Bairro da Ponte, a mais recente a sofrer obras de remodelação, que deram melhores condições aos alunos.
DIFICULDADES EM PORTALEGRE
Na Escola Básica nº 3 de Portalegre, os dias de temperaturas baixas foram difíceis de suportar, pois o frio tomou conta de todos e os 59 alunos, professoras e auxiliares sentiram na pele como é frequentar um estabelecimento onde o aquecimento se resume a um aquecedor eléctrico e outro a óleo por sala.
Com os aquecedores sempre ligados, e face à temperatura amena que se registou no dia 23, altura em que visitámos a escola, numa das três salas deste estabelecimento o mercúrio marcou 17 graus. Edifício com salas grandes, a EB nº 3 de Portalegre necessita, segundo a sua directora, Rosa Feiteira, de um tipo de aquecimento diferente. “Os meninos tiveram muito frio e este aquecimento não é o ideal para um espaço deste tipo”, realça a directora.
CHUVA NO ALGARVE
Em Portimão, a temperatura de uma sala de aula na Escola EB 2-3 José Buísel, sem aquecimento, ronda, no Inverno os 12 a 14 graus.
Para a professora Cortes Rosa, presidente do Conselho Executivo da escola, “ainda não houve queixas específicas quanto ao frio nas salas, nem mesmo quando houve temperaturas baixíssimas, anormais no Algarve”.
As situações desagradáveis estão reservadas para outros estabelecimentos, como a Escola EB1 nº 2 do Carmo, em Faro, onde o frio se sente com frequência. Aqui tiritou-se de frio nos últimos dias. E nem com o “calor humano” os 235 alunos e 19 professores conseguiam sentir uma temperatura amena. “É uma escola muito fria”, diz Isabel Oliveira, docente destacada na biblioteca. “Durante a vaga de frio, as salas gelaram e os miúdos queixaram-se. Usavam cachecóis e luvas, que não tiravam nem para escrever”, acrescenta.
Nas salas do 1º ciclo existem lareiras, mas não funcionam. Os aquecedores ficaram-se pela biblioteca e gabinete da direcção. “As salas não têm qualquer sistema de aquecimento”, sublinha a coordenadora do estabelecimento de ensino, Madalena Fernandes.
E o frio também aperta em Albufeira. A Escola EB 2-3 D. Martim Fernandes não é das que apresentam maiores carências no Algarve, mas tem problemas ao nível da climatização, revela o presidente do Conselho Executivo, Domingos Mendes. “É claro que sentimos frio nesta escola. Remediamo-nos com aquecedores, que têm de ser em número limitado, porque caso contrário o sistema eléctrico não aguenta”, refere, preocupado sobretudo com a segurança dos alunos. “Há quem afirme que no Algarve não faz frio nem chove. Mas a verdade é que é difícil suportar os dias mais agrestes”, salienta.
GELO NO ALGARVE
Nem todo o Algarve tem condições positivas nas suas escolas. O presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária de Loulé, Fernando Magalhães, concorda que aquele edifício, construído há 30 anos, não tem as melhores condições, sobretudo nas salas de aulas práticas. “Climaticamente, esta escola não está muito bem pensada e a sua arquitectura não se adapta às condições naturais do Algarve”, refere. Aquele estabelecimento de ensino, com grandes espaços envidraçados, concentra muito calor no Verão e frio no Inverno, havendo “bastante frio” quando as temperaturas baixam a níveis extremos,. acrescenta o Conselho Directivo.
POLÉMICA NO CENTRO DO PAÍS
A notícia provocou algum alarme: a 16 de Janeiro, Portugal ficou a saber que 90 por cento das escolas do 1º ciclo da Região Centro tem problemas com o aquecimento dos espaços, entre os quais as salas de aulas. Os aparelhos destinados ao efeito têm anomalias ou nem sequer existem, levando a situações em que os alunos quase gelam.
O alerta foi dado pela direcção do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC), segundo o qual em pelo menos metade das escolas o frio é sentido e tem “influência negativa nas condições de trabalho de professores e alunos”. O comunicado desse organismo adianta que a situação nas EB 2-3 e secundárias, tuteladas pelo Governo, é “menos má”, ainda que pelo menos um quarto dessas escolas tenha dificuldades de aquecimento nas salas de aulas. Nas EB 1, da tutela das autarquias, a situação é grave.
No entender de Francisco Almeida, da Fenprof, o corte no aquecimento prende-se com a tentativa de poupar num sector que, devido à vaga de frio sentida a meio do mês, obrigou a gastos suplementares, uma atitude negativa ocorrida tendo em conta que são muitas as escolas a viverem num estado de debilidade económica.
Em oposição, fonte da Direcção Regional de Educação do Centro defendeu, a propósito das EB 2.3 e secundárias, que se está neste momento a proceder ao equipamento progressivo das escolas em termos de aquecimento, algo que acontecerá do interior para o litoral e agregando numa primeira fase os estabelecimentos de ensino mais carenciados.
CHEIRO A QUEIMADO
Na escola do 1º ciclo do Casal da Marinha, em Santa Catarina (Caldas da Rainha), os 13 alunos têm de ir bem agasalhados e permanecem algumas horas com os casacos vestidos e até com gorros e cachecóis. Contam os alunos que, quando ligaram os dois velhos aquecedores pela primeira vez neste ano lectivo, um deles “deixou cheiro a queimado”. Esta escola vai receber melhoramentos a cargo da Câmara Municipal, esperando-se que os problemas sejam resolvidos em breve.
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