A casa de fotografia mais antiga de Tavira inaugurou um museu com 20 mil imagens.
Havia baile no Orfeão? Os Andrades fotografavam. Os militares partiam e regressavam das grandes guerras do século? Os Andrades fotografavam. Pescava-se atum no mar e extraía-se o sal das salinas? Os Andrades fotografavam. As cheias galgavam as casas em ondas de dois metros? Os Andrades fotografavam.
Isso e a neve que caiu em Tavira naquele dia de 1954 que ficou para a história porque nunca antes ou depois tal coisa ali aconteceu que haja memória disso; os saltos de ginastas sobre barreiras de seis homens, para colchões de quinze centímetros nos anos vinte do século passado; a avioneta vinda de Espanha que se despenhou nas salinas nos anos da Guerra Civil espanhola; a gente que acorreu ao centro daquela cidade do sotavento algarvio quando os ecos do 25 de Abril de 1974 chegaram de Lisboa e ali se fez multidão à espera. Mas também os rapazes da escola de pescas – num tempo em que a pesca era pão para a mesa no Algarve – e as bancas de sapateiros e marceneiros, ofícios de outros tempos que a fotografia não permite esquecer.
‘Tipo passe’ para pescadores
Quando, mais de sessenta anos antes da revolução dos cravos, José Damasceno de Andrade – então escrivão na capitania do porto de Tavira – soube que os pescadores teriam que começar a ter uma cédula profissional e que para esse documento tinham que ser fotografados, viu ali uma oportunidade de negócio.
Ele que já fotografava desde mil oitocentos e muito (data de maio de 1900 o primeiro negativo conhecido desta família de fotógrafos e retratava um grupo de pessoas em frente a uma fábrica) chamou o irmão, Apolinário Cândido de Andrade – que tinha então uma casa de fotografia em Vila Real de Santo António – para se juntar a ele. Corria o ano de 1912, dois anos depois da implantação da República em Portugal, e os irmãos não só nunca mais arrumaram a máquina como deram início a uma história familiar com mais de 120 anos ligada ao ofício de através da lente eternizar momentos.
Muitas das fotografias que tiraram – parte do espólio perdeu-se nas cheias de 1969, quando o rio chegou ao estúdio onde guardavam as chapas – estão agora expostas num museu dedicado à obra da família. Na rua da Liberdade podem ser vistas mais de 20 mil imagens captadas pelas quatro gerações de fotógrafos Andrade, mas também ampliadores, câmaras fotográficas, guilhotinas, caixas de arquivo, negativos em vidro e cenários de estúdio utilizados desde o início do século XX.
"Nos primórdios, o que se fotografava era fundamentalmente no estúdio, porque as máquinas tinham muito peso. No exterior eram mais panorâmicas ou algum grupo de grande importância. Naquela altura, quando o meu tio-avô e o meu avô começaram, só pessoas com peso económico é que tinham por hábito ir ao fotógrafo, porque era muito caro. Isso vê-se pelas vestimentas e pelo porte dos fotografados. Depois é que começaram a retratar os militares e os pescadores para os documentos", conta Luís Andrade, de 75 anos, neto de Apolinário e atualmente à frente da loja Fotografia Algarve – em conjunto com a irmã, Maria Alcide, e os dois filhos, Miguel Ângelo e Vítor Hugo Andrade, os sucessores.
Luís começou a ajudar o pai no laboratório ainda estudante de liceu, aos 13 anos. "A retocagem das fotos demorava, na era analógica, imenso tempo e eu, com 18, 20 anos, que queria andar nos bailaricos e de roda das saias das meninas tinha que estar no laboratório com o meu pai até às três, quatro da manhã a revelar fotografias", brinca um dos representantes da terceira geração da família Andrade. José Damasceno teve um filho – também fotógrafo, mas que morreu sem descendência – e Apolinário teve sete: todos fotógrafos. Três dos seus netos e dois bisnetos também lhe seguiram as pisadas.
"O primeiro estúdio do meu pai era um estúdio ao ar livre, tipo barracão, para que a luz entrasse com alguma intensidade, num tempo em que não havia projetores – quando eu nasci, a grande maioria das casas não tinha sequer eletricidade – e o estúdio era num quintal da casa. Só em 1954, a família comprou uma casa com projetores e iluminação eletrónica, altura em que a fotografia de passe já não se sujeitava à marcação nem à dependência de o sol estar ou não encoberto", continua quem aproveitou a ‘estadia’ em Angola – na guerra do Ultramar – para fotografar tudo o que por lá se passava.
"Além de militar, fui operador de cinema em África, era o chamado repórter de guerra, chefiei o laboratório fotográfico do quartel-general", recorda Luís, que já de lá tinha voltado quando se deu o 25 de Abril. É precisamente a imagem que tirou da multidão que se juntou em Tavira naquele dia que elege como uma das mais marcantes que captou, ele que antes da revolução chegou a queimar negativos com receio da PIDE.
Naquele tempo, os fotógrafos "tinham uma ligação direta com a comunidade. Sinto pena de uma arte que está a desaparecer, embora – com a ajuda dos meus filhos – me tenha adaptado ao digital, assim que ele apareceu. Mas lembro-me do tempo em que as pessoas não tinham máquina e nós é que eternizávamos os momentos importantes, como os casamentos. O que é certo é que, daqui a pouco, temos que começar a fotografar os divórcios, que até casamentos já há poucos", diz meio a brincar meio a sério Luís, que tem a certeza que nem Damasceno nem Apolinário iam achar "graça nenhuma" às selfies que hoje enchem as redes sociais.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.