A vida do Jovem afegão a residir em Portugal dava um filme. e, por causa disso, a Assembleia da república deu-lhe uma medalha
Farid Walizadeh. Pugilista. 16 anos. Nascido no Afeganistão, salvo na Turquia, refugiado em Portugal. Foi um dos condecorados com o Prémio Direitos Humanos, anualmente atribuído pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República. Depois do ouro, quer ser um campeão e voltar a reencontrar a família que nunca mais viu.
A história de vida de Farid dava um filme, mesmo que não fosse feita também de glórias desportivas. Com um ano de idade foi deixado pelos pais na casa de um tio, na remota localidade de Puli Khumri, no Nordeste do Afeganistão. Aos oito, foi obrigado a fugir. Andou milhares de quilómetros a pé com um grupo de refugiados guiados por um "agente". Atravessou as montanhas geladas a pão, água e tomate, chegou ao Irão e, finalmente, ao destino: a Turquia. Aí, junto à fronteira, o grupo foi intercetado pela polícia. Levaram todos os adultos. Farid pediu para não ficar sozinho e a Turquia acabou por o acolher num orfanato. Foi aí que viveu sete anos, que começou a praticar boxe e era aí que pensava finalmente ter encontrado a sua casa.
Mas, afinal, Farid Walizadeh aterrou em Lisboa em dezembro de 2012. Tinha 15 anos, vinha sozinho, ou melhor, ao abrigo de um protocolo internacional que atribui uma quota a Portugal para o acolhimento de crianças refugiadas desacompanhadas e, por isso, foi encaminhado para o Centro de Acolhimento do Parque da Bela Vista. Farid não foi ouvido sobre a mudança. E aqui, em Lisboa, começou outra vez do zero. Mas não gosta de falar nisso. Diz que já sofreu e falou "tudo o que tinha a falar do passado". É assunto morto e enterrado.
CHEGAR A CAMPEÃO
A adaptação do menino que fez a travessia do deserto não foi fácil. "São situações muito complicadas e foi preciso negociarmos um bocado. Ele queria muito fazer desporto. Eu disse-lhe: ‘Ok, farás desporto, mas primeiro está a educação e a escola’", relembra Dora Estoura, diretora do Centro de Acolhimento para Crianças Refugiadas. Farid fechou negócio. Ingressou no 9º ano na Escola Básica 2+3 das Olaias, em Lisboa. A língua portuguesa, Farid diz que já domina. Mas mal. E a matemática tem "fórmulas muito diferentes" daquelas que aprendeu na Turquia. Mas gosta da escola. Os colegas são "simpáticos" e tem-nos vindos dos quatro cantos do Mundo: "Da China, da Guiné, do Paquistão e portugueses. Aqui, em Portugal, tenho amigos de todo o lado", contabiliza.
Farid tem o sorriso fácil de um miúdo travesso, mas a determinação e a autoconfiança de um vencedor no olhar. Talvez seja por causa disso que ninguém se atreve a duvidar quando diz que "vai ser um campeão". Nacional? "Não. Do Mundo, dos Jogos Olímpicos."
Quando cá chegou, as assistentes sociais descobriram que o jovem ganhara alguns combates de taekwondo na Turquia e assim foi meio caminho andado para chegar ao Clube Desportivo de Arroios, onde passou a ser treinado ‘pro bono’ por Orlando Jesus no boxe. Em cinco meses, quatro combates e quatro vitórias depois, Farid Walizadeh sagrou-se campeão de cadetes, na categoria de -57 quilos, o que lhe foi permitido porque o estatuto de refugiado dá-lhe equivalência à nacionalidade portuguesa.
No ringue também encontrou diferenças: "Lá, na Turquia, o treinador dizia mata, mata. Aqui é estranho: diz esquerda, direita; esquerda, direita…", afirma num sorriso equivocado. No início deste ano, poucas semanas depois de ter sido distinguido com a medalha dos Direitos Humanos, a 10 de dezembro, ficou sem clube e deixou de praticar temporariamente. O treinador tinha sido eleito presidente da Associação de Boxe de Lisboa, cargo que não lhe permitia acompanhar o atleta nas competições, junto à corda, onde o apoio da figura do treinador é essencial.
Farid tornou à procura, agora de um novo clube. E já o encontrou, em Alcântara, na equipa de Paulo Seco e do seu Lisboa Futebol Clube de Boxe. Agora só falta o mais importante: a família, esse sim o assunto que faz Farid falar.
REUNIÃO FAMILIAR
no caso de refugiados menores de idade desacompanhados, há uma secção da Cruz Vermelha que trabalha especificamente no terreno para reunir as famílias apartadas pela guerra e pelos conflitos políticos e religiosos. No caso de Farid, parece ter havido luz ao fundo do túnel.
"Estive recentemente em contacto com a minha família no Afeganistão e tenho falado com a minha mãe ao telefone", conta Farid, embalado. Agora, sabe que tem uma família grande: "Três irmãos, duas irmãs, muitos primos. Lá no Afeganistão, as famílias não são como aqui, são muito maiores."
Neste caso, talvez seja possível a reunião de toda a família em Portugal, segundo a diretora Dora Estoura: "Feitas as devidas diligências e apurada a veracidade dos documentos apresentados." A situação às vezes complica-se e demora porque há muitas tentativas de fraude (para muitos, é a hipótese de chegar à Europa de forma segura) e, no caso concreto de Farid, porque "houve uma alteração do nome dele de nascença na Turquia e, por isso, não corresponde exatamente aos papéis". Farid pouco se importa com os papéis. Basta-lhe o que lhe diz o coração e um sinal de nascença: "Tenho um sinal atrás da nuca que só a minha mãe verdadeira podia saber", confirma.
Se tudo correr como Farid sonha, vai poder concretizar o seu maior desejo: "Abraçá-los". Viver com os seus em Portugal, "porque aqui é bom para se viver". Se tudo correr bem, talvez a mãe de Farid, que não o vê há 15 anos, já possa estar na plateia a aplaudir a sua próxima grande vitória no ringue.
CAIXA
"NÃO FIZ NADA DE ESPECIAL PARA TER ESTA MEDALHA"
A história de Farid levou o júri do Prémio Direitos Humanos, da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da AR, a atribuir-lhe a medalha de ouro. "Fiquei orgulhoso, claro, mas sinto que não fiz nada de especial para receber esta medalha", diz Farid, humildemente. Na ocasião foi agraciado José António Pinto, assistente social da Junta da Campanhã, Porto, que recusou o prémio.
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