Tem uma das maiores colecções pessoanas do País. São mais de sete mil obras e artigos do/sobre o poeta fingidor, alguns em latim, árabe, chinês e até vietnamita. Guarda todos com igual estima, mas tem as preciosidades juntas na mesma estante. Tudo encadernado a duas cores, para distinguir o que é de Pessoa do que é sobre Pessoa.
Conhece como poucos aquele a quem chama “o homem mais moderno do mundo”, mas define-se como “estudioso e não crítico”. Nascido em 1934, em Lisboa, e formado em Direito, trabalhou na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1961 e 2004, quando se reformou por limite de idade. Pelo meio, 1972-74, foi chefe de gabinete de António Spínola. Titular de várias condecorações nacionais e estrangeiras, tem dado conferências sobre Pessoa por todo o mundo e está a ultimar uma bibliografia temática sobre o autor, de quem se assinala mais um ano da sua morte na próxima terça-feira.
- Quando e como conheceu Fernando Pessoa?
- Somos velhos amigos. Conhecemo-nos em casa do meu pai quando descobri o ‘Orfeu’. Tinha 14 ou 15 anos. É uma amizade que dura até hoje. Na faculdade, entusiasmei-me, comecei a fazer esta colecção e já não parei.
- Pessoa era diferente do que já tinha lido?
- Totalmente. Desde logo, escrevia sob quatro heterónimos e só isso intrigava-me. Como é que o mesmo homem podia escrever de formas tão diferentes?
- Qual foi o heterónimo que mais o cativou? E porquê?
- Na altura, o meu preferido era o Álvaro de Campos. E ainda é. É o mais humano e verdadeiro, quase um personagem real. Ele foi, aliás, o único heterónimo que conheceu e se dava com Fernando Pessoa. Até o substituía... (risos).
- É uma história engraçada: quando o João Gaspar Simões [1903-1987 – crítico literário, ensaísta e romancista, ligado à revista ‘Presença’] vivia em Coimbra, marcou um encontro com o Fernando Pessoa, em Lisboa. Encontraram--se no Martinho da Arcada e foi um fiasco total. Porque o Fernando Pessoa não apareceu, mas sim o Álvaro de Campos. Foi o caos... Só disparatou, e o João Gaspar Simões ficou furioso.
- Como foi mantendo o contacto com Pessoa?
- Fui lendo. Só anos mais tarde, o Vasco Graça Moura, então administrador da Imprensa Nacional, veio jantar cá a casa e quando viu a minha [colecção] pessoana – nessa altura muito mais pequena – sugeriu-me que fizesse uma bibliografia. Garantiu-me que a publicava e eu aceitei.
- Quanto tempo demorou?
- Dois anos. Não existiam ainda computadores e tive de fazer, ficha por ficha, na máquina de escrever. O livro foi publicado em 1983, foi bem recebido e, a partir daí, tornei-me pessoano profissional (risos)...
- Herdou algumas obras. Qual foi a primeira que comprou?
- De valor, a minha primeira grande aquisição foi a edição n.º 1 da ‘Mensagem’. Aliás, foi a minha mulher que a comprou num leilão em Lisboa. Custou 500 escudos, nessa altura, e hoje vale cerca de 2500 euros. Depois, comprei um exemplar do ‘English Poems’ (1925) num alfarrabista, dedicado pelo Fernando Pessoa ao João Gaspar Simões.
- E perguntou-lhe como é que tal oferta fora ali parar?
- Sim, ao que ele respondeu: “Olhe, estava mal de dinheiro. E para recuperar tive de vender livros, até alguns com dedicatórias de autores.”
- Onde procura novas aquisições?
- Em catálogos de leilões e nos alfarrabistas. Mas hoje aparece muito pouca coisa, embora curiosamente a ‘Mensagem’ tenha reaparecido agora. Porém, há originais de Pessoa, impressos, como os ‘35 Sonetos Ingleses’, que nunca aparecem. E ainda tenho amigos que me trazem coisas.
- Alguma em especial?
- Sim. Por exemplo, Fernando Pessoa foi publicitário. Trabalhou para Manuel Martins da Hora, pioneiro na introdução da publicidade em Portugal através de uma empresa que daria origem à McCann-Erickson. Um dos produtos que eles lançaram foi os ‘corn flakes’. E o Fernando Pessoa traduziu um livro de receitas de flocos de aveia para a empresa.
- Alguma obra foi, particularmente, difícil de arrematar?
- Há dois anos, apareceu uma coisa extraordinária: poemas de Milton, de mil novecentos e poucos, que tinham pertencido a Fernando Pessoa, quando ele viveu na África do Sul. O livro está todo comentado por ele, com sua letra de adolescente. Uma delícia! Ainda licitei, mas aquilo acabou por ser vendido a um preço ao qual não podia chegar. Tive muita pena...
- Não me recordo, só sei que era muito.
- De tudo aquilo que não tem, o que é que mais gostaria de ter?
- Dos originais, gostava muito de ter ‘Portugal Futurista’. Mas é raríssimo, nunca aparece.
- Sabe-se quem os tem?
- O arquitecto Fernando Távora [1923-2005], por exemplo, tinha uma ‘Portugal Futurista’.
- Falou do muito que se publica sobre Pessoa. A quantidade tem prejudicado a qualidade?
- Se na primeira edição [‘Fernando Pessoa – Esboço de uma Bibliografia’] tinha 600 verbetes, obras, livros e artigos sobre Pessoa. Ontem, quando encerrei o trabalho, fiz a ficha número 5802. E penso que irá ultrapassar os sete mil. Ora, a quantidade é uma avalanche. Sobre a qualidade, além dos críticos pessoanos clássicos, está-se a verificar o fenómeno muito curioso e gratificante do aparecimento – sobretudo no estrangeiro – de uma nova geração de jovens com grande interesse por Pessoa.
- Esses novos olhares têm a ver com a idade?
- Sim, sim. E com as coisas novas que por aí têm aparecido. O espólio de Pessoa ainda não está nem por sombras todo revelado, há muita coisa inédita no espólio. Digo sempre, por brincadeira, que Fernando Pessoa, lá no céu dos poetas onde está, tem um fax e vai escrevendo poemas e mandando para a Biblioteca Nacional.
- Pensa que o crescente aparecimento de estudos comparativos de Pessoa e outros autores é uma mais-valia?
- Sem dúvida. É uma das tendências mais importantes da nova geração. Fundamental, porque permite inserir Pessoa na criação literária mundial.
- É tudo o que compra?
- Rigorosamente. Ainda agora – para a nova bibliografia que espero editar até final do ano – estou a reler um a um, a fazer um pequeno resumo e a indexar tudo por temas. Interessa-me, sobretudo, pôr à disposição dos profissionais da crítica um óptimo instrumento de trabalho. Porque muitas vezes uma pessoa acha que descobriu algo novo que, afinal, já foi tratado.
- A descoberta de inéditos está banalizada?
- Durante muito tempo, esteve. Mas hoje esse sensacionalismo está mais dificultado, na medida em que há a edição crítica que, apesar de inacabada, tem lá tudo e impede qualquer um de dizer: “Descobri um poema novo”.
- Já descobriu alguma coisa?
- Tenho feito pequenas descobertas. Na ‘Mensagem’, por exemplo: Pessoa concorreu ao Prémio Antero de Quental, atribuído pelo Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) e dirigido pelo António Ferro. E ganhou na categoria de poema solto, porque a ‘Mensagem’ de acordo com o regulamento não tinha as 100 páginas mínimas necessárias. O António Ferro decidiu equiparar o prémio ao de livro e Pessoa ganhou cinco contos, que era muito dinheiro em 1934. O Gaspar Simões quando, na altura, contou a história disse que Pessoa tinha recebido um prémio de consolação e sido desconsiderado pelo júri, em favor do padre franciscano Vasco Reis. A história do prémio de consolação tem sido repetida, e repetida. Mas eu investiguei e, afinal, não foi nada assim. Tentei perceber porque é que Pessoa concorreu ao prémio? – ele que estava sempre alheio a essas coisas. Como arranjou dinheiro para imprimir o livro? – ele que andava sempre com problemas de finanças. E descobri, por exemplo, que foi o próprio António Ferro quem, do saco azul do SPN, financiou a impressão do livro. São coisas pequenas, mas que têm grande importância.
-Encara a hipótese de ser encontrado um novo heterónimo de Pessoa?
- Sim, sim. A Teresa Rita Lopes já fez um inventário, que se mantém válido, e descobriu 72. Alguns deles são só uma assinatura, outros um programa do que essas personagens iam fazer. Ainda há poucos anos foi descoberta uma heterónima, a Maria José, apaixonada pelo Sousa Guerra. Com Pessoa há sempre surpresas.
- Tem noção do valor do seu espólio?
- Não, sinceramente não. E não o venderia por nenhum preço.
- Qual é a diferença entre a visão portuguesa e estrangeira de Fernando Pessoa?
- O que vejo por parte da crítica estrangeira é a inserção da obra de Pessoa no contexto da criação literária internacional do séc. XX. Ao contrário de muitos de nós.
- Não sei. Mas o próprio Gaspar Simões, em 1972, escreveu um artigo no Diário de Notícias dizendo que isto da fama internacional do Fernando Pessoa não vai durar muito. As pessoas vão fartar-se dos heterónimos, vai passar de moda e Pessoa vai acabar por desaparecer da cena internacional. Ora, está a acontecer precisamente o contrário. Mais, hoje Pessoa é o nosso valor cultural mais seguro.
- Acha que o Estado e a Casa Fernando Pessoa têm-no tratado de acordo com esse estatuto?
- Sim, embora continue a haver quem ache que tanto Pessoa, já enjoa.
- Nunca teve a atracção de explorar a escrita?
- Sim, sempre que me pedem artigos ou conferências. Ainda no dia 6 de Junho vou a Telavive [a entrevista é anterior à partida] para o lançamento de mais uma tradução em hebraico, de 600 páginas, porque em Israel Fernando Pessoa é um ‘best-seller’, esgota numa semana. Em Espanha, o ‘Livro do Desassossego’ já ultrapassou as 40 edições. Sobre coisas inéditas só fiz um trabalho, incentivado pelo David Mourão Ferreira. Foi em 1985, quando a irmã de Fernando Pessoa, a D. Henriqueta Madalena, me emprestou uma mala com material que a família ainda não tinha vendido à Biblioteca Nacional. E lá havia um caderno de apontamentos com poemas desconhecidos. Estudei tudo a fundo e publiquei, mas foi a única vez, porque não ambiciono ser crítico literário.
- Como explica esse sucesso mundial e contínuo?
- O homem do séc. XX identifica-se com Pessoa. Ele pôs todos os problemas do nosso tempo e da modernidade, a unidade do eu, da personalidade, da consciência. Fernando Pessoa ainda é hoje o homem mais moderno do mundo. Aliás, a minha teoria, há muitos anos, é que ele escreveu para o futuro. Numa carta à mãe, ele dizia: “Dentro de 50 anos vou ser um homem célebre.” E a verdade é que morreu em 1935 e foi em 1985, com a exposição que organizei na Fundação Georges Pompidou, que saltou definitivamente para a ribalta internacional.
- Coincidência ou previsão esotérica?
- Sobre o Pessoa esotérico, estou sempre de pé atrás. Mas o certo é que ele sabia muito de astrologia. Como vivia obcecado com a morte, fez o seu próprio mapa astral e previu que morreria em Janeiro ou Março de 1935. Ora, o astrólogo Paulo Cardoso, que é um técnico, refez o horóscopo de Pessoa e descobriu que ele se tinha enganado num número. E corrigido esse engano, o mês passava para Novembro. É, por isso, um facto que Pessoa previu a própria morte.
- Mas mesmo assim desconfia...
- Sim, não ligo à astrologia. Mas repare na coincidência: estamos na era dos esoterismos, de Paulo Coelho ao ‘Código Da Vinci’.
- Qual é o seu poema preferido?
- Talvez a ‘Tabacaria’. Um dos mais estudados e que um crítico francês descreveu no ‘Liberátion’, em 1985, como “o mais belo texto do Mundo”.
- Há um Fernando Pessoa não fingidor?
- Existe, mas é muito difícil de lá chegar. Ele próprio punha constantemente em causa a sua sinceridade. Mas nas Cartas de Amor à Ofélia, que deram aquele escândalo todo, ele não podia ser mais sincero do que ele era.
- Discorda, então, das teorias que o identificam como homossexual?
- Acho que é puro sensacionalismo. Um grande pessoano espanhol, Ángel Crespo (1926-1996), apresentou uma comunicação sobre o último amor de Pessoa. Ele através dos últimos poemas – e ele escreveu até 15 dias antes de morrer – descobriu uma senhora, que já não era a Ofélia. Era loura, vivia no Estoril e tinha um problema terrível: era mulher de um amigo dele. O Ángel Crespo ainda se propôs a descobrir quem seria essa senhora, mas acabou por morrer sem consegui-lo. E é difícil fazê-lo porque hoje já não há ninguém vivo que tenha conhecido Pessoa.
QUESTIONÁRIO DE DOMINGO
Um País... Índia
Uma pessoa... Fernando Pessoa
Um livro... Os Maias
Uma música... Nona Sinfonia de Beethoven
Um lema... Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje
Um clube... Sporting
Um prato... Bacalhau com todos
Um filme... ‘Il Gatopardo’
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