Um bispo nacional e um padre de paróquia estão de acordo sobre os erros cometidos pela Igreja Católica ao longo da História. E assumem ambos a intenção pessoal de assistir a ‘O Crime do Padre Amaro’.
A estreia em Portugal do filme “O Crime do Padre Amaro”, uma adaptação do livro de Eça de Queiroz, não assusta D. Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas e Pre-sidente da Comissão Epis-copal para a Imigração. “A Igreja não pode negar os desvios dos padres ao longo dos anos e defender apenas o exemplo luminoso, que, felizmente quase todos os padres têm na Igreja”, defende D. Januário. Apesar de garantir que a Igreja portuguesa “não faz censura” e é “tolerante”, mantendo a “solidez dos princípios”, o bispo confessa que a estreia da adaptação mexicana do romance de Eça “pode fazer mal a algumas pessoas” com menos cultura. “Este tipo de filme dá uma visão de-primente da fé e quem a tem pode ficar deprimido. Muitas pessoas são capazes de ver este filme como um ver-dadeiro ataque à igreja”, explica.
D. Januário garante, no entanto, que irá ver o filme e que, da mesma forma, “a igreja tem de aceitar os seus próprios erros para, depois, ter autoridade para exigir que outras camadas da sociedades também aceitem críticas”. No outro extremo da hierarquia católica, o padre António Janela, pároco de Santa Marta de Bouro, aldeia rural do distrito de Braga, faz a mesma confissão, admitindo os “pecados de alguns padres”. “Estou convicto de que, hoje, o crime de homicídio que o romance refere não teria lugar. Agora, o ‘crime moral’, aquele que se consuma no pecado contra a castidade, a que o sacerdote é obrigado, esse continua a ser cometido com toda a certeza”, diz. Esta é a convicção profunda de um homem que já leva 40 anos de vida sacerdotal e que considera que crimes como o do Padre Amaro, descritos num livro que já leu duas vezes, advêm sobretudo da obrigatoriedade do celibato.
“Este tipo de padre, com as devidas diferenças inerentes à época a que nos reportemos, existirá sempre. Pelo menos enquanto o celibato for uma das condições do sacerdócio”, diz António Janela, sublinhando que a Igreja tem de caminhar no sentido de “resolver este problema”. O sacerdote sublinha que o celibato é difícil e chega mesmo a exercer uma grande violência sobre os padres, ao ponto de alguns não aguentarem e cederem e outros, pelo menos, questionarem se Deus alguma vez quis que os seus discípulos fossem celibatários. E, tal como D. Januário Torgal Ferreira, também Janela confessa o seu agrado com a ideia de ir ver o filme. O padre António Janela pároco de freguesia, diz que os padres com comportamentos menos próprios “existirão sempre”.
OS 'CRIMES' QUE A IGREJA ULTRAPASSOU
Apesar de terem contornos diferentes da história de “O Crime do Padre Amaro”, são frequentes os casos de padres que se perdem de amores por uma mulher e abandonam o sacerdócio. Só na arquidiocese de Braga, na última década, foram pelo menos seis os padres que pediram a recondução ao estado laical. O último caso teve lugar em Fevereiro e teve como protagonista o então pároco da freguesia de Bairro, no concelho de Vila Nova de Famalicão. Tratou-se de um caso que deixou surpreendidos tanto os paroquianos como os superiores hierárquicos, dado o conhecido empenho com que o sacerdote cumpria as suas obrigações. O padre, de 40 anos, ter-se-á perdido de amores por uma advogada, de 27, com quem esperava um primeiro filho. A população, que gostava muito dele, teve uma reacção curiosa, ao referir que se tratava de “um santo padre”. Fora Deus quem ali aparecera, diziam. “O problema é que o diabo também para cá veio e ele não conseguiu resistir à tentação.”
A tentação chega ao cinema
Um dos casos mais singulares de um crime de conduta cometido por um sacerdote em Portugal — e que, por sinal, também resultou em filme — foi o de um padre de Vila Verde (Braga) que, para além de se deixar ‘levar’ pelo amor a uma mulher, caiu na tentação da droga. O facto, noticiado em Fevereiro de 1997, caiu como uma bomba na estrutura clerical portuguesa. Mas o arcebispo primaz de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, assumiu claramente a situação e empenhou-se na recuperação do jovem sacerdote, então com 33 anos. Em vez de uma atitude condenatória, optou pelo caminho do perdão. Assim, o padre Aloísio Araújo, que ainda hoje é recordado com saudade pelas populações das suas antigas paróquias, foi submetido a um tratamento da toxicode-pendência em Inglaterra e reintegrado na arquidiocese de Braga. “Tentação”, filme de Joaquim Leitão inspirado na sua história, foi depois criticado pela Igreja por ”deturpação da realidade”.
Frederico Cunha no Brasil
Menos romântico, o ‘caso Frederico Cunha’ repugnou o País quando, em 1992, um padre de origem brasileira, com paróquia na ilha da Madeira, foi acusado de assassinar um adolescente numa ravina junto ao mar. Implicado em alegados crimes de pedofilia e abuso sexual, o sacerdote foi condenado a pena de prisão no início de 1993, depois de um julgamento polémico e mediático, transmitido em directo pela SIC. Em 1998, preso na cadeia de Vale dos Judeus, Frederico Cunha obteve uma licença de liberdade válida por quatro dias, o que lhe permitiu fugir para o Rio de Janeiro na companhia da mãe. Desde então, colabora com uma missão humanitária no Brasil, onde se tornou um ícone homos-sexual. Quase dez anos passados sobre a sua condenação por assassinato — não por flagrante delito, mas por provas paralelas — continua a reclamar a sua inocência. Miguel Noite, o seu afilhado absolvido no processo, vive igualmente no estrangeiro.
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