O grande inimigo na operação, porque a Frelimo não compareceu à chamada, acabou por ser uma trovoada tropical das antigas.
Residia em Moçambique, para onde o meu pai foi em 1949 à busca de vida melhor e onde eu vivia desde 1952, e assentei praça no curso de Sargentos Milicianos no Centro de Instrução Militar de Boane, em agosto de 1967. Tinha já 21 anos e, depois de fazer a recruta e a especialidade, fiquei a dar instrução até ser colocado em Vila Cabral, no planalto do Niassa, onde cheguei em agosto de 1968. Tinha à espera uma grande placa a dizer "estás a três mil quilómetros de casa".
Consegui ir de avião de Lourenço Marques até à Beira e de barco para o porto de Nacala, de onde fiz 900 quilómetros, do Índico ao interior do planalto do Niassa, num comboio cheio de militares – todos desarmados menos os que seguiam no vagão da segurança –, durante 25 horas. Era uma máquina a vapor alimentada a lenha e, a cada subida, tinha de ir duas ou três vezes abaixo para ganhar balanço. Depois do terminal de Catur, fizemos 50 quilómetros, passando por um local a que chamavam ‘Caracol da Morte’, pois havia muitas emboscadas. Mas no dia em que lá passei correu bem.
A Companhia de Caçadores de Vila Cabral, os ‘Bravos Leões do Alto Niassa’, era constituída por soldados oriundos do Norte e do Centro de Moçambique, e o comandante, sargento, alferes e um ou outro furriel eram os únicos que não eram negros. Andávamos sempre no mato, a passar tudo a pente fino. Fizemos tantas operações a varrer o terreno que o inimigo não tinha hipóteses. O planalto tinha elevações, muitos rios e uma temperatura média de 22 graus todo o ano. Era um clima fantástico para a agricultura: davam-se lá todas as árvores de fruto que há em Portugal e também as tropicais.
Os grupos de combate eram pequenos, com 18 a 20 pessoas, e nas caminhadas não se ouvia uma mosca. Tenho de realçar que o comandante da companhia, capitão António Guerreiro Caetano, era um oficial altamente competente e operacional, que andava muitas vezes connosco para o mato. A operação mais importante com ele ocorreu a 24 e 25 de dezembro de 1968, quando fomos incorporados entre centenas de homens, pois havia notícias de uma concentração do inimigo na Serra Jessi. Levávamos armas pesadas, como o morteiro de 60 – que era a nossa arma predileta – e bazucas. O grande inimigo na operação, porque a Frelimo não compareceu à chamada, acabou por ser uma trovoada tropical das antigas. Foi chuva e trovões toda a noite de Natal, mas no regresso ao quartel, na tarde seguinte, tínhamos à espera uma mesa espetacular. Nada faltava, desde vinho do Porto ao peru.
MINA NA PICADA
Tivemos a sorte de não ter sequer um ferido nas saídas ao mato, mas por vezes tivemos de responder a fogo do inimigo. Sabíamos que havia campos agrícolas da Frelimo junto a uma companhia vinda da Metrópole, que não fazia patrulhamento. Fizemos prisioneiros, mas tentaram fugir, houve tiros e morreram três ou quatro da Frelimo. Eles retaliaram com uma mina na picada, que matou o furriel Aparício, que tinha feito a recruta comigo. Vinha numa Berliet, no final da comissão, para apanhar o avião.
O que ficou foi a amizade. Em 2007, fizemos o encontro dos 40 anos da entrada em Boane, juntando 120 pessoas em Coimbra. Vim para Portugal em setembro de 1975. Se tivéssemos tido lá um Mandela... Mas Mandela só houve um.
ALEXANDRINO BENTO BATISTA
Comissão
Agosto de 1967 a fevereiro de 1971
Força
Companhia de Caçadores de Vila Cabral (‘Bravos Leões do Alto Niassa’)
Atualidade
Aos 68 anos, vive no Fundão. É casado, tem três filhos e quatro netos
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