No Brasil chegou a partilhar um vão de escadas com um mendigo que à noite lhe trazia comida. Jorge Perestrelo aprendeu ali a chorar, voltaria a fazê-lo muitas outras vezes. Homem com o coração na boca, esteve neste Euro sempre ao lado dos portugueses: “Eu visto a camisa do adepto”. Logo à noite, “Ripa na rapaqueca!”
Jorge Perestrelo é o homem que se esganiça ao microfone, com o coração na boca, até ficar rouco, como se os ouvintes não o conseguissem ouvir dizer que a bola entrou na baliza. É aquele que grita, agora na TSF, durante os 90 minutos do jogo aquela expressão tribal "ripa na rapaqueca". A que foi inspirada por um técnico, um tal de Paiva, que como tantos outros não gostava "nem um bocadinho" dele. Com Perestrelo é assim: ou se gosta ou não se gosta. Ele retribui.
Mas foi esse tal Paiva que no bar da Comercial “já com o vento norte” nos queixos lhe disse: “Tu és o maior da rapaqueca”. Queria ele dizer: “Tu és o maior da bola!” Perestrelo achou graça e acrescentou-lhe o ‘ripa’, ‘chuta’ no país que o viu nascer, Angola. Ripa na rapaqueca é, portanto, chuta na bola.
Jorge Perestrelo ao vivo, sem microfone à frente, também fala com o coração na boca. Quando o encontrámos, num estúdio com os microfones desligados, soltou altas gargalhadas que o fizeram ficar vermelho e foi até capaz de se comover – chorou por causa de Angola. Este homem também chora, aprendeu a fazê-lo na terra de Scolari e do samba. E também grita o nome do nosso país, quando a bola entra.
No jogo com a Inglaterra, quando o Ricardo marca, em vez do tradicional ‘goolo’ gritou: ‘Portugaaaal’. O que é que um homem sente quando berra ao microfone o nome do seu país? Está à beira de um ataque cardíaco?
Espero bem que não. Tenho tido, graças a Deus, um coração forte ao longo destes 37 anos de profissão. Esse momento ultrapassa o jogo de futebol. Tem a ver com o que ouvimos e discutimos nos cafés, nos copos e nas noitadas. E então, sem nos apercebemnos disso, quando vamos fazer o trabalho estamos na onda. Na função de narrador desportivo não tenho de ser imparcial. Eu visto a camisa do adepto. Com o ambiente que se vivia nesse jogo, com esse som todo condicionado nos auscultadores, saiu ‘Portugaaal’. Como angolano sou um pouco místico e acho que nessas alturas incorporo um espírito não sei de quem.
Quando está ao microfone?
Sim. Ainda estou para descobrir de quem será. Quando oiço as minhas gravações, não acredito que sou eu a fazer aquilo.
Fora dos microfones o Jorge Perestrelo também se exalta, também berra?
Sou muito emotivo. Nasci na terra do sol e ali vivi durante 27 anos. Numa terra cujo horizonte não tem fim. Uma terra da alegria, da despreocupação, em que pude correr descalço até aos 14 anos de idade.
E isso faz de si um português diferente?
É isso que faz de mim um luso-afro e também brasileiro. Vivi cinco anos no Brasil, entre os 27 e os 32 anos.
E o que é que essa mistura toda deu?
O Jorge Perestrelo. Uma pessoa que tem a psicose da amizade, doentiamente leal, frontal. E, por isso mesmo, todas as coisas que consegui em Portugal, um País que amo como se fosse a minha Angola, têm sido sempre tão difíceis. Também devido a não conseguir dizer nas costas das pessoas aquilo que lhes digo na cara.
Já teve problemas, então?
Desde que cheguei.
Na Rádio Comercial estive um ano e meio sem fazer relatos porque num célebre Real Madrid/Porto, em Sevilha, disse: ‘Isto é um golo de merda e não relato mais’. Já tive problemas na TSF quando uma pessoa que escrevia na altura no ‘Público’ fez uma crónica a meu respeito com o título ‘E não se consegue exterminá-lo?’. Eu li aquilo cinco minutos antes de ir para o ar e ao microfone chamei-lhe ‘porco cadastrado’ e disse que se voltasse a falar de mim, até mesmo para elogiar, ia ao jornal e ele ia engolir a página que tinha escrito.
E também os problemas que tive na SIC. Na altura, havia um famigerado programa chamado ‘Os Donos da Bola’ apenas porque a estação não tinha um produto chamado futebol. Como não o tinha, esse programa existia para dar cabo do futebol. E como o futebol foi sempre a minha vida, obviamente que tinha de defender o meu ganha-pão.
Disseram muita mentira e escolheram como alvo o FCP, os irmãos Oliveira e o Pinto da Costa, com uma desonestidade profunda. Fui de uma forma bem explícita, dentro da redacção, o único que fez frente ao então editor do desporto. O Emídio Rangel teve o bom senso de me pôr na redacção. Por isso, aguentei onze anos na SIC.
Mas a rádio é melhor.
É a minha paixão. A rádio existe desde 1967, mas confesso que tenho saudades da SIC. Não vai haver mais nenhuma equipa como aquela. Um dos grandes méritos do Emídio foi ter sabido escolher. Era uma equipa que gritava, que sofria, que dava 12, 13 ou 20 horas de trabalho por dia, que aplaudia os êxitos dos camaradas.
Era jornalismo de sangue quente…
Costumo dizer, quando as pessoas me julgam, mesmo os da direcção, que não tenho sangue de barata. Não consigo contar até dez. Conto: um, dois, três e ‘pê-quê-pê’.
Também já teve troca de mimos com ouvintes…
Quando me iniciei nesta profissão, em Junho de 1967, no Rádio Clube do Lobito, tive o privilégio de ter como chefe de serviços de produção Paulo Cardoso que me disse: “Preocupa-te quando, depois de fazeres um trabalho, não tiveres nenhuma reacção. Sente-te feliz quando ouvires aplausos ou vaias”.
Como é que começou a fazer rádio em Angola?
Em 1967 fizeram um concurso para escolher vozes para apresentar um programa, chamado ‘Passatempo Juvenil’. Quando era miúdo andava num quintal agarrado a um pau de vassoura. Ouvia na antiga Emissora Nacional, os relatos do Artur Agostinho e imitava-o. As coisas não são por acaso: Deus deu-me a faculdade e o privilégio de poder desenvolver e trabalhar naquilo que sempre gostei.
Que idade tinha quando entrou para a rádio?
Fiz agora em Maio 40 e 16… Isto foi em 1967, em matemática sou péssimo… tinha 17 anos.
E diziam-lhe que tinha uma boa voz?
As namoradas.
Era só isso que elas lhe diziam?
Diziam: 'Tu és feio, mas tens charme, ar de sacana e uma voz fabulosa'.
Foi a voz que o empurrou profissionalmente…
Foi. Comecei no Rádio Clube de Lobito. Mas era um doidivanas, andava sempre nos copos, nas farras e nas noitadas. O mais velho Perestrelo, para parar com a vida de boémia que levava, resolveu dizer que eu sem ele, sem o dinheiro dele e as coisas dele não era nada. Aquilo mexeu comigo e fui ter com o então director do Banco Pinto e Sotto Mayor em Angola, Nuno Afonso Pereira, e pedi-lhe emprego. Gostei daquilo. Em paralelo com a rádio tinha o banco e com 26 anos era dos empregados mais novos e mais categorizados. Mas com a minha ida para o Brasil, tornei-me muito indisciplinado.
Como foi para o Brasil?
Foi consequência do 25 de Abril. Sou bisneto de angolanos, a minha mãe é de Benguela, o meu pai de Cabinda, portanto somos fundamentalmente africanos.
O meu pai e as pessoas como o meu pai incutiam-nos muito o espírito de independência de Angola. Éramos miúdos e de política não entendíamos nada, a não ser que queríamos independência para a nossa terra. Quando acontece o 25 de Abril, há a explosão da malta e fizemos muita porcaria. Os noticiários passaram a ser na base dos comunicados do MPLA, da UNITA e da FNLA. Nós, os filhos de Angola, pelo menos aqueles que tinham estudos, éramos praticamente todos do MPLA. Quando os movimentos de libertação entram em Angola tinha contra mim a UNITA e a FNLA, porque eu exteriorizava a costela do MPLA quando lia os seus comunicados; dava-lhes outra ênfase.
Achei que a UNITA me ia buscar a casa. Fugi para África do Sul, onde fomos metidos em autênticos campos de concentração, tratados muito mal pelos racistas dos sul-africanos. Lembro-me de um velho caçador de Angola, o Gigante, como era conhecido, homem batido na caça, a chorar e a dizer: ‘Eu já matei búfalos mais mansos que estes filhos da puta’.
A polícia sul-africana tinha uma gravação minha a ler comunicados do MPLA e chamaram-me aquilo que jamais seria: um perigoso comunista. E então entra o cônsul português à baila. Disse-lhe que para Portugal não ia porque quem lá mandava eram os comunistas. Ele respondeu-me que não tinha autorização para regressar a Angola e ofereceu-me a possibilidade de ter estatuto de refugiado político.
Fui para o Brasil. Cheguei com uma mão à frente e outra atrás. Quando fugi pela fronteira tinha a UNITA a uns quilómetros de distância a fazer fogo sobre nós. Eu vinha com um amigo num 'buggy' e deitámos a mala fora para andarmos mais rápido. Esqueci-me que dentro da mala levava dinheiro.
Foi no Brasil que aprendi a chorar. Ao terceiro dia em São Paulo, vou a passar na Avenida São João e vejo um velho a dormir num vão de escadas numa esteira e perguntei-lhe se podia dormir com ele. Ele disse uma coisa que me bate aqui na cabeça: ‘Companheiro na minha casa, todo o mundo é bem-vindo’.
Sozinho. O velho durante o dia ia pedir esmola, à noite trazia o dinheiro e íamos comer os dois juntos. Nos cinco anos de Brasil, soube o que é passar fome e aprendi a chorar. Depois fui para o Rio de Janeiro, que é uma cidade que tem coisas fundamentais: o futebol, o samba, as mulheres e a praia.
Tudo coisas a que não é indiferente.
Exactamente. Entretanto o tal banco para onde tinha trabalhado chamou-me porque tinha havido em Portugal uma reintegração. Quando cheguei baixaram-me sete categorias, com uma lei do Mário Soares. A partir daí fiz as piores coisas que se possa imaginar, de tal forma que fui reformado como maluco. Melhor, o termo utilizado foi inadaptado social.
O que é preciso fazer?
Muita coisa. Por exemplo, no balcão da minha agência bancária poisar a caneta e começar aos gritos a cantar: ‘Strangers in the night’. Outra vez, por causa de um velhote que tinha perdido tudo e a quem o banco queria arrestar os bens para cobrar uma dívida fiz um relatório para o chefe, o velhote Sérgio Canhoto, em que escrevi que o banco não tinha moral para cobrar a dívida e que fossem pedir o dinheiro ao MFA. Foi a gota de água. Fui parar ao médico da empresa que me perguntou se não queria que arranjasse forma de me reformar. Na altura, já estava na Antena 1 e disse que sim.
Como foi parar à Antena 1?
Depois de muita pressão de malta amiga de Angola: o Fernando Alves, o Emídio Rangel, o David Borges, o Jorge Pego, o Rui Pego, o Zé Ramos, o Óscar Coelho… Fui para Antena I e estive lá um ano. Eles tiveram a infeliz ideia de me mandarem fazer um jogo entre o Brasil e Portugal em Coimbra, onde levámos 4-0. O Brasil marcou um golo fabuloso e eu disse: “Se tivesse uma namorada oferecia-lhe este golo”.
A Antena I ainda tinha a filosofia da Emissora Nacional de que determinadas coisas não se podiam dizer. O velhote Cerejo que tinha a função de controlar a emissão ia tendo um treco. Foram dar com ele, depois de eu ter dito aquilo, a pedir um comprimido para pôr debaixo da língua. O Rui Castelar já me andava a dizer para ir para a Comercial fazer a ‘Noite é Nossa’ das duas às seis da manhã. Fui e vivi os anos 80 da Comercial. Foi aí que pensei: Como é que é possível haver tantas mulheres sozinhas a viver neste país?
Havia muitas a ligar?
O programa começava e o telefone tocava até às seis da manhã.
Lá está a voz de que as suas namoradas de Angola falavam…
Aí era um bocado sacana. Punha aquelas músicas a puxar ao coração. A mulher está naquela solidão e ouve, por exemplo, o Roberto Carlos a cantar o ‘Detalhes’…
E a seguir ao ‘Detalhes’ o que é que o Jorge Perestrelo dizia?
Eu não atendia muito o telefone. Quem lucrava com isso eram os sacanas dos técnicos que passavam a noite inteira agarrados ao telefone e que arranjavam montes de namoradas à minha custa.
E o Jorge Perestrelo nunca arranjou?
Também, mas muito raramente. Tinha duas fitas gravadas e quando arranjava uma namorada no meio da noite, entravam no noticiário das quatro da manhã e, então, pirava-me para discutir ‘o problema inflacionário do País’.
E às vezes demorava…
Às vezes sim. Não chegávamos a acordo.
Nunca foi obrigado a dizer coisas desagradáveis ao microfone?
Desagradáveis, só em termos de dizer mal deste ou daqueloutro. E aí falo sem problema porque as pessoas sabem que tanto vibro com um grande golo como chamo os piores nomes quando os jogadores falham. É a paixão. Uma vez, o João Pinto, em Alvalade, está a fazer uma jogada fabulosa e eu estou a dizer: ‘vai João Pinto, vai, vai, vai, vai’. E quando digo ‘vai’, o João Pinto faz uma asneira e atira a bola para fora e eu digo: ‘vai à merda’. Saiu.
E este ano já cantou ‘somos os filhos da nação’…
Defendo que os relatos têm de ser sonorizados. Já o fazíamos há 30 anos em Angola. Acho que ‘os filhos da nação’, que passaram a ‘os filhos do dragão’, tem uma força incrível. Nesse dia, telefonei ao Mário Fernandes, o editor, e disse: ‘Se o Porto estiver a ganhar por uma diferença de dois golos, nos cinco minutos finais, metam-me os filhos do dragão’.
O Porto está a ganhar três a zero. Outro momento de grande masturbação mental: no estrangeiro a ver os emigrantes a sofrerem, a puxarem. Entra ‘os filhos do dragão’, o Porto era campeão. Olhei para o João Ricardo Pateiro e disse: ‘Vamos cantar’. Foi de tal forma que ao nosso lado estava um francês da Rádio Europa que depois me disse: ‘Sabe que o seu nome e esse momento foi discutido numa mesa redonda na Rádio France Antenne e na France Internacional’.
E o que é que os intelectuais franceses disseram?
Devem ter dito o que uma bióloga, que tem agora guarida no jornal ‘Record’, tem escrito sobre o Euro. Ou seja, que os intelectuais é que conseguem salvar o Mundo e todos os outros são bêbados incorrigíveis e dizem asneiras – eles também sabem dizer asneiras, mas põem a mão à frente da boca. Há pessoas de elevados estratos sociais que dentro dos estádios se comportam como os piores adeptos; senhoras todas envernizadas que num estádio é de ‘pê-quê-pê’ para cima.
O que é o futebol faz pelo País?
Num país que está em depressão, em que toda a gente fala mal de tudo, sem auto-estima, o que está acontecer à volta do Euro é a coisa mais espantosa. Somos capazes de fazer aquilo que os maiores fazem. O Manuel Alegre diz uma coisa fabulosa: o futebol é a única coisa que neste País consegue que as pessoas rematem todas para o mesmo lado.
Em 1992, depois dos acordos de paz, fui pela primeira vez a Angola depois de lá ter saído. Estava para ficar um mês. Fui com os miúdos, campeões do Mundo; iam jogar com a selecção de lá. A minha Angola estava mal e não era por causa dos prédios estoirados, dos elevadores que não funcionavam ou do lixo na rua. Estava no Huambo com o massagista da selecção, o Carlos Martinho. Eram 23h30 e fomos lá acima ao hotel roubar leite que a selecção tinha. Encontrei um puto de uns cinco anos e dei-lhe um pacote de leite. Ele abraçou-se-me; o melhor abraço que recebi na minha vida. Caí de cama, tive uma descarga emocional e vim-me embora. Ainda fiz o relato, mas já com duas injecções no buxo.
AS MUKANDAS ("RECADOS") DE PERESTRELO
Scolari – Deus está a proteger-te
Pinto da Costa – Que ele abra as fronteiras do FCP, porque o clube é hoje pertença do futebol europeu.
Figo – Que a sua trajectória é a melhor resposta para aqueles que têm a pouca vergonha de o questionar como profissional.
Cristiano Ronaldo – Que se lembre do conselho do Alberto João Jardim lhe deu quando foi transferido para o Manchester: ‘Cabeça fria, pés no chão e muito juizinho’.
Wayne Rooney – Digo-lhe que tentarem compará-lo ao Pelé é a mesma coisa de me compararem ao Alain Delon.
Valentim Loureiro – Digo-lhe que a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima.
Emídio Rangel – A mukanda que lhe envio é: vais suplantar com a ajuda da Nossa Senhora da Muximba. Depois de ter sido um dos homens mais poderosos do País, durante onze anos, o Emídio tem à sua volta finalmente aqueles que sempre foram amigos dele. Os outros todos já desertaram.
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