Johnson Semedo já viveu entre drogas e cadeias. Agora dedica-se ao futuro de dezenas de jovens.
Fez questão de cortar o cordão umbilical de William na noite de 25 de outubro, aproximando ainda mais da centena o número daqueles de que Johnson Semedo se considera pai. Neste caso é mesmo, pois é o terceiro filho do motorista de 42 anos, que vê de igual forma o enteado, pri-mogénito da sua mulher, e os 80 jovens apoiados pela associação que criou. "Anseio para eles aquilo que anseio para os meus", diz à ‘Domingo’, no bairro da Cova da Moura, na Amadora.
Elogiado por Marcelo Rebelo de Sousa devido ao livro ‘Estou Tranquilo’ (Alêtheia), no qual relata o percurso sinuoso que o levou de menino de rua a toxicodependente e de toxicodependente a presidiário, perdendo uma década de vida atrás das grades e em recaídas. Depois de ter dado a volta, graças a uma comunidade terapêutica, luta agora para que jovens da Cova da Moura, e de outros bairros da Grande Lisboa, não passem pelo mesmo. A Academia do Johnson tem equipas de futsal em diversos escalões etários e não se esgota dentro das linhas do campo.
"O objetivo não é que sejam doutores, mas sim que consigam ser donos das suas vidas", diz o cabo-verdiano nascido João Semedo Tavares, a 27 de julho de 1972, em São Tomé e Príncipe, onde a família vivia. Quando tinha dois anos, viajou com a mãe e irmãos, juntando-se ao pai em Portugal.
Além da prática de desporto e do apoio na escola, os jovens de quem se encarrega, alguns dos quais filhos daqueles que "foram pistoleiros comigo", recebem regras nem sempre fáceis de acatar. "Houve miúdos que quando perceberam a metodologia de trabalho, dentro de normas, orientação, transparência e honestidade, saltaram fora do barco. Quando é assim, pouco podemos fazer."
Mais do que encontrar Ronaldos e Messis do futsal, Johnson quer servir de ponte entre famílias, escolas e futuros empregos. "Temos de estar todos a falar a mesma linguagem para que um miúdo possa sorrir e ter sucesso", diz, pois alguém que "não sabe estar e não sabe conviver, pode ter pezinhos mas não consegue ir mais longe".
PERGUNTA MILIONÁRIA
Como concilia o horário de trabalho na agência noticiosa Lusa com treinos das várias equipas de futsal, palestras em cadeias e a família? "Essa é sempre a pergunta dos cinco milhões", diz Johnson, com um sorriso. "Costumo responder que o meu tempo é o tempo onde estou. Para mim, o tempo é a pertinência. Estou aqui, sou preciso aqui, é o tempo que tenho", acrescenta, admitindo que a única que lhe podia cobrar o tempo seria a esposa, mas não o faz.
Conheceu Susana depois de uma década a percorrer o sistema prisional, entre Lisboa, Caxias, Setúbal, Leiria, Linhó, Coimbra e Vale de Judeus, depois de uma primeira desintoxicação no Alentejo, da recaída após a morte da mãe, e de estar no fim de dois anos no projeto Vale de Acór. Não lhe contou o passado de uma vez só, mas antes de viverem juntos – mais tarde viria o casamento, na igreja da Buraca – ficou tudo em pratos limpos.
Admitir erros é algo que fazia muito antes de lançar o seu livro. "A minha história é uma história resolvida. Parto do princípio de que ninguém me pode cobrar", diz, aplicando igual princípio a quem o acompanhava quando, nas suas palavras, "espalhava o terror", roubando para viver. "Não deixei dívidas... E se deixei, e vierem cobrar, estamos aqui para resolvê-las", assegura, salientando que aprendeu a não resolver problemas com violência. Aliás, ocorre o contrário. "Dizem-me: ‘Gostava de fazer o que fizeste, mas não consigo.’"
Aconselhou ex-presidiários pela primeira vez ao ser escolhido como monitor de uma casa de transição, num concurso da Santa Casa da Misericórdia. Não mais parou, visitando quem se encontra atrás das grades para conversas "terra a terra", procurando convencê-los de que no final da pena não sairão "com o rótulo na testa".
Também é sem rodeios que fala do que para si foi uma realidade antes dos dez anos, quando começou a cheirar cola. "Não gostam da droga mais do que eu", diz-lhes, recordando que consumir "é achar que se pode preencher o vazio que dói e a confusão que não se percebe". Depois vêm as consequências, que o levaram a deixá-la. Durante anos, nem café tomou.
RASTILHO DE PÓLVORA
Pode parecer um paradoxo que alguém dedicado a mudar a Cova da Moura – trabalhou antes com a associação Moinho da Juventude – assuma que pretende mudar-se. "Os meus filhos viverem aqui pode ser um rastilho de pólvora, para eles e para mim, tendo em conta como a nossa comunidade está", afirma, referindo-se à "perda de valores" de novas gerações com "valores e princípios atrofiados", que cometem crimes no próprio bairro.
Um passeio pela Cova da Moura ilustra aquilo de que fala. Poucos passos após uma conversa animada com vizinhos que fazem um churrasco junto à escola construída no terreno em que Johnson jogava à bola na infância – é desde então sportinguista, por influência do irmão Fernando Jorge, júnior do clube, que acabou morto pela polícia, festejando golos de Jordão num bairro em que Eusébio era rei e o Benfica hegemónico –, segue-se uma rua que deve ser atravessada em passo rápido e de olhar alheado caso não se esteja à procura daquilo que ali se encontra.
Permanecendo ou não no bairro, inevitável é o dia em que Johnson terá uma conversa a sério com o filho mais velho: "Vou ter de explicar-lhe muito bem o meu percurso. E talvez ele perceba."
"VEJO A ASSOCIAÇÃO A DAR OS PRIMEIROS PASSOS"
A Academia do Johnson tem 80 jovens, incluindo algumas meninas, nas equipas de futsal, das quais já saíram atletas para vários clubes. "Vejo a associação a dar os primeiros passos, como um bebé", diz Johnson Semedo, que conta com a ajuda de voluntários e de patrocinadores para garantir a sustentabilidade de um "laboratório onde as pessoas entram e se transformam".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.