Beja ficou em choque em fevereiro de 2012. Um reformado matou a golpes de catana mulher, filha e neta. Ninguém poderia adivinhar.
No dia 13 de fevereiro de 2012, depois de ter estado várias horas barricado, cerca das 19h40, Francisco Esperança é detido pela PSP de Beja. Foi detido logo que saiu de casa, em tronco nu, ensanguentado, olhar tresloucado e sem oferecer resistência.
Quando entraram em casa, a PSP, os bombeiros e o INEM depararam-se com um quadro de horror. No interior da casa, nos respetivos quartos, estavam os cadáveres de três pessoas, assassinadas à catanada por Francisco Esperança. As pessoas assassinadas eram nem mais nem menos que a família do assassino, nomeadamente a sua esposa, Benvinda, de 53 anos de idade, a filha, Cátia Esperança, de 28 anos de idade, e ainda Maria Esperança, 4 anos de idade, filha de Cátia e neta de Francisco e de Benvinda.
Cátia tinha lesões defensivas nos braços, o que indica que se apercebeu da loucura do pai, e lutou para se defender a si e à sua filha, tentando proteger-se e à pequena Maria, usando os braços para fazer face à ira de Francisco. Foi apurado depois que as mortes teriam ocorrido na noite de 7 para 8 de fevereiro, e que nos dias que se seguiram Francisco deixou os cadáveres da sua esposa, da sua filha e da sua neta abandonados em casa, e partiu rumo a Lisboa, onde passou uma noite.
Terá sido Pedro Rodrigues, namorado de Cátia, que desesperado com o facto de não conseguir contactá-la e com a falta de explicações quanto ao seu paradeiro – explicações que Francisco se recusava a dar –, quem alertou a PSP de Beja, conseguindo que a polícia se deslocasse à residência da família a 13 de fevereiro.
PURA BARBÁRIE
Caía a noite de 13 de fevereiro quando o caso foi tornado público. Beja, cidade calma e tranquila, era confrontada com um pesadelo. Um dos seus tinha cometido um ato de pura barbárie. De imediato, a comunicação social deu à estampa o macabro crime e o País comoveu-se com a má sorte de Benvinda, Cátia e Maria Esperança, tendo direcionado toda a sua ira e raiva para Francisco, pessoa que rapidamente passou a ser apelidada de "animal" e a quem todos achavam que a morte era um castigo demasiado brando pelo sofrimento que causara.
Como foi possível aquilo acontecer? Como teve Francisco coragem para matar de forma brutal a esposa, a filha e a neta, de 4 anos de idade? Estas eram as perguntas que todos os portugueses queriam ver respondidas. Todos precisávamos de perceber o que se havia passado.
Ninguém soube o que efetivamente ocorreu na cabeça de Francisco Esperança na noite de 7 para 8 de fevereiro de 2012, nem o estado em que se encontrava nos dias seguintes, que o levaram a sair de Beja e a ir a Lisboa, para mais tarde regressar a Beja e à sua casa, onde viveu, dormiu e comeu alguns dias, vendo diariamente os corpos da sua esposa, da sua filha e da sua neta, corpos que ele havia transformado em cadáveres.
Os amigos, conhecidos e familiares questionavam-se como havia aquilo sido possível, já que estávamos perante uma família perfeitamente normal.
E é neste ponto que tudo começa. Fico petrificado sempre que me dizem que alguém é normal. Por norma, são sempre as pessoas ditas normais que cometem os crimes mais bárbaros. Aparentemente, todas as famílias são normais. Só conhecemos as aparências. Ninguém sabe o que se passa no interior de cada família, quais as relações entre os seus membros.
Viemos pois a constatar a ‘normalidade’ desta família. Assim, Francisco Esperança, de 60 anos, bancário reformado, havia já sido julgado e condenado a 10 anos de prisão pelo crime de burla, por se ter apropriado de 130 mil euros no banco onde trabalhava, em Beja. Era um homem depressivo, que vivia numa luta interna. Lutava contra essa depressão que o atormentava, situação agravada por um problema de alcoolismo. Bebia muito, sendo que quando bebia tornava-se violento, principalmente para com os seus familiares.
Esta situação indiciava problemas de violência doméstica, que atingia todos os membros da família. Estes problemas eram escondidos pela família. Para agravar a situação, foi-lhe diagnosticado um problema cancerígeno. A esposa, Benvinda, era o garante da estabilidade familiar. Tinha uma loja no centro de Beja. Sofreu a vergonha da prisão do marido. O negócio também não corria bem. Existiam dívidas de várias centenas de milhares de euros a fornecedores e a bancos. Sobre os seus ombros assentava ainda uma tentativa de suicídio da sua filha Cátia, que era mãe solteira de uma menina de quatro anos de idade.
Na sequência da tentativa de suicídio, Cátia foi internada num hospital em Lisboa. Aqui conheceu Pedro, por quem se apaixonou. Pedro começou a fazer vida entre Lisboa, onde trabalhava, e Beja, onde estava a namorada e a filha dela. Pensavam viver juntos. Pedro manifestou curiosidade em saber quem era o pai de Maria. E aqui o problema complica-se. Cátia recusa-se a esclarecer o namorado. Nem Francisco ou Benvinda estavam dispostos a falar de qualquer assunto relacionado com a família.
No Registo Civil, Maria estava registada como filha de pai incógnito. Ficou sempre a suspeita, nunca esclarecida, nem pelo próprio que se recusou a responder a essa pergunta, se Maria não era, afinal, filha de uma relação incestuosa entre Francisco Esperança e a sua filha Cátia Esperança. Poderá ter sido a procura de resposta a esta pergunta o detonador da loucura de Francisco.
UMA FAMÍLIA 'NORMAL'
Mas esta era a família que todos
os vizinhos, todos os clientes da loja de Benvinda, descreviam como sendo uma família normal. Apetece perguntar: mas afinal o que é a normalidade?
Questionado pela PJ sobre os motivos que o levaram a tão bárbaro ato, Francisco Esperança invocou que foram as dívidas de 300 mil euros que a família havia contraído e que não conseguia pagar. Referiu também que matou a filha Cátia por ela ser uma pessoa desequilibrada, que tinha já tentado o suicídio. Francisco disse que a filha era uma mentirosa compulsiva e que nunca lhe havia dado qualquer tipo de alegria; e disse também que a morte da neta, Maria, era inevitável.
Confirmou que cometeu o crime na noite de 7 para 8 de fevereiro. Esperou que as vítimas adormecessem para as matar, tendo dito que escolheu a catana como arma por ser silenciosa, podendo matá-las sem que ninguém na vizinhança desse por isso.
Disse que era sua intenção suicidar-se logo a seguir a ter morto a sua família, mas que depois, por pura cobardia, não conseguiu acabar com a sua vida.
Confirmou às autoridades que na manhã do dia 8 de fevereiro, cerca das 12 horas, depois de ter morto toda a sua família, foi ao infantário que a neta Maria frequentava para informar as educadoras de que nos próximos dias ela iria estar ausente. De seguida foi à loja da esposa informar que a família iria estar algum tempo ausente e que por esse motivo a loja iria estar encerrada. Que fez tudo isto como forma de ganhar tempo e coragem para se suicidar.
Depois, viajou para Lisboa. Instalou-se vários dias num hotel, antes de regressar a Beja, no dia 12 de fevereiro. Nessa noite dorme em sua casa, ao lado dos cadáveres da esposa, da filha e da neta. Disse que, antes de ter sido detido, tentou o suicídio com arma de fogo mas, mais uma vez, não teve coragem. Francisco Esperança acabaria por se suicidar poucos dias depois, já na cadeia, em Lisboa, tendo-se enforcado com os lençóis da cama.
Entre o momento da sua detenção e o momento em que se suicidou, Francisco Esperança nunca manifestou qualquer tipo de arrependimento, tendo demonstrado mesmo um total desprezo pela vida humana.
Este caso bárbaro, trágico, remete-nos para as famílias e os seus problemas. Seria aquela uma família normal, composta por pessoas normais, iguais a tantas outras pessoas e famílias?
Ouvimos isto todos os dias. Seja quando uma mãe decide matar os seus filhos e suicidar-se de seguida, seja quando um homem mata a mulher e as filhas e se suicida, seja quando um homem por não suportar ver a mulher sofrer mais acaba com a vida dela ou quando um homem qualquer, também ele normal, cego por ciúmes, raiva ou ódio decide matar a mulher com quem se casou. Todos estes foram crimes recentes e todos tivemos conhecimento deles. Todos os intervenientes eram pessoas ‘normais’, iguais a qualquer um de nós.
É um facto que todas as famílias têm problemas: aqueles que tinha a família de Francisco Esperança ou outros, como problemas de toxicodependência, desemprego, etc. O problema é saber quando é acionado o gatilho da loucura e quando um homem banal, como Francisco Esperança, se transforma no mais horrendo dos criminosos. E é aqui que a ciência ainda não tem respostas. É esta a pergunta que queríamos ver respondida e para a qual não conseguimos ainda resposta. Quando é que qualquer um de nós deixa de ser uma pessoa ‘normal’ para se tornar num criminoso bárbaro...
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