Aos 68 anos, o dominicano fala de João Paulo II como o ‘político’, o homem da reconciliação e da juventude que não soube abordar os novos costumes e a sexualidade. Uma pecha no seu pontificado de quase 25 anos. Cabe ao seu sucessor expurgar “os aspectos rígidos” da Igreja e, quem sabe, dar força ao ‘sexo fraco’. Contrariando os últimos ventos soprados pela Cúria Romana...
Qual a sua opinião sobre o projecto ‘Pignous redemptions ac futurae gloraie’, publicado no mês passado, na revista italiana ‘Jesus’ e em que se falam de 37 medidas para serem aplicadas na celebração da Eucaristia, entre as quais a proibição das palmas ou dos cânticos?
É preciso esclarecer que este projecto não é nenhum documento oficial, é apenas um projecto que serve de base para a discussão e é importante que toda a comunidade cristã tenha uma palavra a dizer.
E qual é a sua palavra?
Antes de mais nada, temos que ter em conta um texto assinado pelo Papa na quinta-feira da Semana Santa (em Abril passado), intitulado ‘Como Celebrar Bem a Eucaristia’ em que, no final, João Paulo II diz: “para reforçar este sentido profundo das normas litúrgicas pedi às pessoas competentes da Cúria Romana que preparem, sobre este tema de grande importância, um documento específico, incluindo também, referências de carácter jurídico”.
Contudo, este projecto é baseado em regras rígidas, entre as quais as das meninas não poderem ajudar na missa. Qual o sentido deste documento numa altura em que a eucaristia, com cantos, palmas, textos sem serem bíblicos e por aí adiante entrou no quotidiano dos fiéis?
É preciso entender que o Vaticano II fez uma reforma da liturgia muito importante que depois foi concretizando ao longo destes últimos 40 anos. Abriu também o leque das experiências, das culturas diferentes, dos povos distintos, das idades e das possibilidades diferentes. Conheço bem a América Latina e posso dizer que tem formas muito diferenciadas – até mesmo dentro do mesmo país – de celebrar a eucaristia. Em África também celebram de maneiras distintas, uma celebração pode demorar duas, três, quatro horas e cantam, dançam, há palmas, tudo isso...
A missa semanal (também) deve ser uma celebração de alegria.
A missa deve ser mais do que isso, deve ser uma passagem à alegria. Contudo, vejamos uma coisa: por exemplo, na vida cultural existem expressões ‘pimbas’ e outras que são eruditas. Há celebrações que nos deixam na dúvida se aquilo pertence à cultura ou se pertence à brejeirice e à estupidez... É um problema de banalização. Uma das coisas que aconteceu no Ocidente é que a liturgia era acompanhada por música gregoriana ou clássica e isso colocava longe a celebração ou seja, o povo estava mudo, não intervinha. E houve um trabalho enorme em fazer com que a missa seja, realmente, de todo o povo. Mas, em muitos casos, chegámos à banalização e podemos entrar numa igreja onde se toca viola e se canta mal, por exemplo.
Mas é com regras rígidas que se vai ‘recuperar’ essa qualidade?
Não! Na encíclica, o Papa faz um apelo à qualidade da celebração e com a qual eu concordo (e a qualidade não passa, obrigatoriamente, pela música erudita.). A minha questão é o problema da qualidade. E quando entram os juristas, em vez de refazerem o esquema todo, começam a pôr limites, começam a proibir. Eu, por exemplo, se aquele projecto de documento passasse a ser norma – que não vai ser – o seu destino, para mim era o caixote do lixo. O bater palmas ou não bater, depende. Nas liturgias africanas faz parte. É completamente diferente do que se introduziu cá em que se está sempre a bater palmas... às tantas começamos a assistir à verdadeira balbúrdia.
Afinal, a igreja quer ou não quer a intevenção/participação dos fiéis?
Repare, a Igreja são os próprios fiéis e o documento do Papa vem no sentido de fomentar a participação de todos.
Mas as palmas, os cânticos, a música não fazem com que os fiéis sintam que estão a participar?
Sim, mas em relação ao ritual das palmas ou da proibição das palmas, tal como outros aspectos eu digo que não, ou seja, tudo depende, não podem existir regras tão definidas. Porque uma celebração é como uma festa, é como uma música. Porque é que fazem concursos na televisão para a música ligeira do que vale e do que não vale? E aparece muita coisa má que só merece o caixote do lixo, por isso, há uma selecção. O que eu digo é que para a liturgia tem que ser a mesma coisa.
Tem que haver uma selecção?
Penso que sim, desde que essa selecção nos conduza à qualidade.
E o que pensa da ideia das meninas não poderem ajudar na igreja?
Penso que é uma estupidez pura e simples. Porque é que se há-de fazer discriminação de sexos em relação ao serviço da comunidade cristã? (risos) Eu sou a favor da Ordenação Presbiteral das mulheres. No chamamento que um Bispo faz para presidir à liturgia e a outros sacramentos, as mulheres também deveriam ser chamadas. Não deveria haver discriminação entre homens e mulheres.
No entanto, essa discriminação existe.
Claro que existe, mas esta mudança é um longo processo que tem que se realizar. E quanto às meninas que ajudam nas missas ou são acólitas, isso já estava mais que admitido! Este projecto de norma era manhoso porque, ao fim ao cabo, quer afastar o sexo femino do altar para que as mulheres mais tarde não perguntem porque é que elas não podem presidir à eucaristia. Penso que esta norma era uma medida para ir afastanto as mulheres do altar e isso, confesso, parece-me péssimo.
Se já estava admitido que as raparigas poderiam ajudar nas missas, estamos a assistir a um retrocesso.
Muitas vezes usa-se o argumento de que na Última Ceia não estavam mulheres presentes o que me parece uma ‘desculpa’ horrível. Jesus passou as mulheres para testemunhas de todo o seu processo, a sua ressurreição e foram elas, as mulheres, que envagelizaram os apóstolos e que lhes deram a notícia de que Jesus havia ressuscitado. As mulheres tiveram um papel decisivo no nascimento do Cristianismo e este papel foi-lhe dado por Jesus.
E Nossa Senhora – que é mulher – sempre ocupou um lugar de destaque na vida cristã.
Exactamente. Nossa Senhora sempre se destacou. Por isso, pergunto eu, para quê este ‘susto’ em torno das mulheres na vida da Igreja? Tenho pena que assim seja mas, para que as coisas mudem, é preciso o consentimento de toda a Igreja e é um processo que levará o seu tempo.
Acredita que o pontificado de João Paulo foi progessista?
Em determinados aspectos este pontificado foi extraordinariamente ‘progressista’, especialmente no que diz respeito à liberdade, aos direitos humanos, à política internacional, à defesa dos pobres, à defesa de uma globalização que seja de solidariedade, a luta no interior dos países e a nível mundial entre ricos e pobres. No que diz respeito à mensagem de fraternidade, João Paulo II foi notabilíssimo. Depois, em relação a tudo o que diz respeito à ética sexual ou aos métodos anti-conceptivos, o papa manifestou-se extremamente ‘conservador’.
O que é ‘negativo’...
Na minha opinião, estes aspectos foram negativos porque a Igreja ao não ter uma maneira de se situar atenta às realidades e às transformações da sociedade, das pessoas, das mentalidades, da ciência... teve um efeito negativo. A Igreja perdeu a possibilidade de dizer uma palavra que seja ouvida. Um documento da Santa Sé ou um pronunciamento do Papa neste domínio não é ouvido...
E de um Papa que esteve sempre atento à juventude.
O Papa teve uma abertura imensa em relação ao mundo jovem, foi extraordinário a reunir as camadas mais novas da sociedade. Mas os jovens quando chegam a esse capítulo já não o seguem.
Possivelmente porque a juventude do século XXI nada tem a ver com a de há 30 anos...
Pois não, mas a verdade é que João Paulo II tem um carisma muito especial para a juventude, mas só até chegar às questões da ética sexual. Eu diria que a Igreja Católica perdeu a ocasião de ter uma palavra que lute contra a banalização da sexualidade, o que é péssimo.
E conduziu à proliferação dos chamados ‘católicos não praticantes’.
O Papa fez coisas de forma extraordinária e em vários domínios mas depois, com essas contradições, as coisas boas se calhar não foram devidamente fortificadas.
Isso poderá ser um dos ‘erros’ da Igreja Católica nos últimos anos?
Diria antes que é uma insuficiência na sua forma de abordagem. Penso que não são bem ‘erros’ mas sim, que a Igreja Católica possui alguns disfuncionamentos...
João Paulo II está cada vez mais doente e os fiéis sabem que surgirá um novo Papa nos próximos tempos.
O que se poderá esperar do próximo Sumo Pontifíce?
Ora aí está um paradoxo porque João Paulo II tem um pontifíce de quase 25 anos cheios de viagens, discursos, encíclicas. E vimos que foi o grande líder contra a guerra no Iraque. O Papa tornou-se o símbolo da juventude, do homem do teatro, da leitura. Penso que o facto dele se ter mantido também Papa numa situação pautada pela dor, pela doença foi um acto nobre. João Paulo II também é o rosto dos que sofrem, dos idosos, dos doentes. É o rosto das dores no
mundo.
Está-se à espera que o Papa celebre o seu 25º ano de pontificado a 16 de Outubro e a beatificação da Madre Teresa de Calcutá a 19 e que, de seguida, se retire.
Se os bispos aos 75 anos se resignam, quanto mais aquele que tem a função de religar as comunidades católicas no mundo. E existe também o aspecto da finitude humana. O Papa e a Igreja têm que admitir que nós somos finitos e limitados.
O que é que se espera, então, do seu sucessor?
Isso é um outro capítulo (risos). Como a Igreja é muito plural, com certeza que há muitas vozes que preferem um Papa conservador e outras um Papa progressista. Outros gostariam de uma pessoa que tivesse o sentido da medida. O que eu espero, pessoalmente, é que se resolvam algumas questões. Há problemas muito gordos na Igreja. E é fundamental que os católicos se sintam todos empenhados na (re) construção da Igreja e, para isso, é preciso dar-lhes a palavra para que as pessoas não andem como peregrinos, de um lado para o outro.
É fundamental que elas sintam que em todos os níveis, a Igreja é a sua casa.
Ou seja, o próximo Papa terá um longo caminho a percorrer.
Sim, o próximo Papa terá um trabalho extremamente difícil porque vivemos numa época em que há uma ausência de valores mas, tal como diz o escritor brasileiro João Guimarães Rosa , “Para trás Não há paz” ou seja, não é no regresso ao passado que a Igreja chegará a esta reconciliação. Deverá estar atenta a uma memória e preocupar-se em abrir o futuro.
Há quem diga que a escolha recairá sobre alguém do ‘terceiro mundo’...
Neste momento era necessário um Papa de síntese criadora ou seja, que reunisse tudo o que há de bom e que expurgue todos os aspectos rigídos.Para mim, pode vir do terceiro mundo, ou de qualquer parte do mundo, desde que saiba ajudar as pessoas a descobrir caminhos para o futuro e que faça pontes com os não crentes ou com os homens de outras religiões, com o mundo da ciência e da tecnologia e desde que consiga unificar e agregar a igreja católica espalhada pelo mundo.
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