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George, que será rei no ano 2067

O recém-nascido vai esperar décadas até ao dia em que subirá ao trono britânico, agora ocupado pela sua bisavó, Isabel II.

28 de julho de 2013 às 15:00

Nascido há seis dias, George Alexander Louis levará anos a perceber que o retrato da bisavó se encontra nas notas com que os britânicos fazem compras, mas quando esse dia chegar, é provável que também descubra que é seu destino ocupar o lugar de Isabel II. Terá muito tempo para se habituar à ideia, pois as estatísticas da esperança média de vida no Reino Unido indicam que só chorará o pai em 2067, ouvindo "o rei está morto, longa vida ao rei", antes da coroação.

Se assim acontecer, o futuro Jorge VII terá 54 anos ao acenar à multidão, bastante mais multicultural e envelhecida do que aquela que se juntou na terça-feira à porta do Hospital de St. Mary, em Londres, quando os pais o mostraram pela primeira de inúmeras vezes aos olhares do Mundo. No entanto, é provável que o bisneto da mulher que leva agora 61 anos como rainha tenha de esperar mais tempo. Segundo cálculos do diário ‘The Guardian’, os membros da família real britânica vivem, em média, mais 15 anos do que os súbditos, o que adiaria a subida ao trono para 2082.

Para o recém-nascido, que provavelmente já estará rodeado de netos quando for coroado, as estatísticas reservam a honra de ser o ocupante do Palácio de Buckingham na passagem para o século XXII, pois os 87 anos que terá no dia 31 de dezembro de 2100 são os mesmos de Isabel II no momento em que se deslocou de automóvel para conhecer o bebé de 3,800 quilos, que passa a ser o terceiro na linha da sua sucessão, atrás do avô e do pai, ‘ultrapassando’ o tio Harry. Aliás, como os meninos nascidos em 2013 têm uma esperança média de vida de 90,7 anos, é possível que seja o chefe de Estado do país ao longo da primeira década do próximo século se a família real mantiver o suplemento de longevidade.

PRIMEIROS PASSOS

Quatro horas de privacidade marcaram a chegada ao Mundo da criança que muitas vezes terá falta dela. Nascido às 16h24 de segunda-feira, na mesma ala do hospital londrino em que o pai se tornou no primeiro herdeiro da coroa a ter o pai presente quando a mãe deu à luz – Filipe jogou squash enquanto a futura Isabel II estava em trabalho de parto de Carlos, já sem o ministro do Interior na sala ao lado, graças a uma alteração legal feita pelo rei Jorge VI –, o homónimo do seu trisavô só foi anunciado às 20h29. O compromisso de sigilo foi cumprido por toda a equipa médica e restante pessoal, pelo que nenhuma fotografia ou comentário foi parar às redes sociais.

George Alexander Louis é um bebé da era da internet, tal como o pai nasceu na hegemonia da televisão e o avô chegou quando ainda se viviam os dias da rádio, mas todos os descendentes de Isabel II foram um bálsamo para a circulação dos jornais britânicos, nomeadamente para os tabloides, que na semana passada se esforçaram por suplantar a concorrência, recorrendo aos títulos mais imaginativos. Mais ousado, o ‘The Sun’ alterou o cabeçalho na terça-feira, tornando-se ‘The Son’, em homenagem ao filho do casal real.

É provável que William possa negociar com a imprensa o mesmo código de conduta que lhe permitiu passar a juventude sem medo de paparazzi, o que não impedirá que qualquer colega dotado de um telemóvel com câmara partilhe momentos da vida do pequeno príncipe nos Facebook, Twitter, Instagram ou YouTube que existirem nessa altura.

Levado pelos pais para o Palácio de Kensington, em Londres, ao segundo dia de vida, o herdeiro do trono do Reino Unido e da Commonwealth – Isabel II é também rainha do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia e de outros 12 países –, foi visitado pela bisavó, antes de partir para férias, e pelo tio paterno, que está ao serviço da Royal Air Force, na manhã de quarta-feira. Terá a companhia do pai nas duas primeiras semanas de vida, pois o duque de Cambridge teve direito a uma licença na base de Anglesey, onde é piloto de helicópteros de busca e salvamento, mas o casal já se deslocou para a mansão da família Middleton. William terminará a comissão de serviço em setembro, podendo então acompanhar de perto o primogénito.

UMA AVÓ DESAPARECIDA…

Entre muitos privilégios, o novo herdeiro da coroa britânica nasce com uma desvantagem em relação à maioria dos dois mil compatriotas nascidos a 22 de julho. Terá apenas uma avó para o estragar com mimos, visto que Diana Spencer, princesa de Gales, faleceu muito antes de os seus pais se terem conhecido, vítima de um acidente de automóvel num túnel rodoviário de Paris, a 31 de agosto de 1997.

Lady Di, imortalizada como a ‘Princesa do Povo’, divorciara-se de Carlos precisamente um ano antes, após longos anos a suportar "três pessoas no casamento". O desabafo ao programa ‘Panorama’, da BBC, dirigia-se a Camilla Parker-Bowles – a namorada de juventude do marido, que mais tarde tornar-se-ia duquesa da Cornualha enquanto segunda mulher de Carlos –, embora a mãe de William e Harry também tivesse um assinalável historial de adultério.

A separação dos avós paternos foi anunciada em dezembro de 1992, encerrando aquilo a que a rainha Isabel II designaria como o ‘annus horribilis’ em que celebrava o 40º aniversário da coroação. Para trás ficara a separação do príncipe André, meses antes de surgirem fotografias da mulher e mãe das suas filhas, Sarah Fergunson, a ser beijada nos pés por um amante, bem como o divórcio da princesa Ana, única filha da monarca, e um incêndio que lavrou no castelo de Windsor.

... E OUTRA DE ALTOS VOOS

No ano em que Diana morreu, Carole Middleton celebrava o décimo aniversário da sua empresa, a Party Pieces, que começou por enviar artigos para festas pelo correio e hoje em dia faz catering e organiza casamentos, valendo 30 milhões de libras (35 milhões de euros). A única avó que Jorge VII conhecerá, e que deverá acompanhá-lo nas próximas décadas (tem agora joviais 58 anos), identificou um nicho de mercado após planear aniversários dos filhos Catherine, Philippa (conhecidas por Kate e Pippa) e James.

Filha de um construtor civil, Carole optou por um dos mais empolgantes trabalhos que uma jovem dos anos 70 poderia desejar, tornando-se assistente de bordo da British Airways. Foi a dez mil metros de altura que começou a conhecer o comissário Michael Middleton, cinco anos mais velho, com quem viria a se casar a 21 de junho de 1980. Devido a esse emprego, chegaram a viver na Jordânia, mas uma promoção permitiu ao marido assentar os pés na terra, ficando a controlar a frota da companhia aérea no aeroporto londrino de Heathrow.

Mais do que Michael, será Carole que estará sob escrutínio da família real e dos tabloides. Embora muita água do Tamisa tenha passado debaixo da ponte de Londres desde então, a mãe de Kate foi vista ao longo de uma década como uma alpinista social, dominada por uma ambição desmesurada e que, alegadamente, chegou a ser alvo preferencial da troça do futuro genro pela incapacidade de se comportar devidamente quando na presença de Isabel II.

DESAFIO À MONARQUIA

Um dos grandes desafios que o futuro rei Jorge VII irá enfrentar ocorrerá na sua infância ou juventude. Ainda que a bisavó não tenha anunciado qualquer plano de abdicar, mantendo uma saúde assinalável para uma mulher de 87 anos – foi internada durante dois dias em março, devido a uma gastroenterite, mas preocupou-se sobretudo com a operação ao abdómen do príncipe consorte, Filipe, em junho – e tendo o precedente dos 101 anos de Elizabeth Bowes-Lyon, a rainha-mãe que ficou viúva de Jorge VI, não é seguro que ainda esteja no trono quando o menino chegar à escola primária.

Quer o sucessor seja o príncipe Carlos, seu avô, ou o príncipe William, seu pai, o desaparecimento de Isabel II, única monarca que praticamente todos os britânicos vivos terão conhecido, será uma oportunidade para pôr em causa o regime que lidera Inglaterra e o Reino Unido desde a restauração de 1660, quando Carlos II assumiu as coroas de Inglaterra, Escócia e Irlanda, tendo como rainha a portuguesa Catarina de Bragança, encerrando o capítulo da república de Cromwell, que condenara à morte o seu pai, Carlos I.

As notícias que as sondagens de opinião trazem aos defensores do republicanismo – grupo que inclui a escritora Sue Townsend (em ‘A Rainha e Eu’, a criadora de Adrian Mole realoja Isabel II num bairro social), o músico Morrissey (‘The Queen is Dead’ é uma das canções emblemáticas dos The Smiths) e os políticos trabalhistas Ken Livingstone e Tony Benn – andam longe de ser brilhantes, pois a percentagem de apoiantes da monarquia raramente se afasta dos 80 por cento. Mesmo a queda abrupta, aquando do casamento de Carlos com a namorada, Camilla Parker-Bowles, não foi o suficiente para fazer tremer o Palácio de Buckingham, pois os monárquicos representavam 65 por cento da população.

INOVAÇÕES NA FAMÍLIA REAL

A adolescência de George Alexander Louis deverá passar pelo colégio interno de Eton, onde o pai e o tio estudaram, quebrando a tradição de os herdeiros da coroa serem colocados em colégios militares, ou terem tutores responsáveis pela sua educação. Ainda mais provável será que tenha um irmão ou irmã mais novo, nascido poucos anos depois de 2013, mas poderá haver uma grande inovação no Palácio de Kensington ou em Clarence House, também em Londres, que é agora a residência oficial do príncipe de Gales e da duquesa da Cornualha.

Nos círculos da realeza é dado como provável que William e Kate planeiam adotar pelo menos uma criança. Fontes do Palácio de Buckingham indicaram que Isabel II torceu o nariz aos planos do neto e da sua mulher, que alegadamente se terá inspirado no exemplo da família multirracial de Angelina Jolie e Brad Pitt. Ao contrário de Carlos, que simpatizou com a ideia, a soberana de todos os britânicos – incluindo os seus netos – ‘estipulou’ que tal vontade seria adiada até o casal fazer dois herdeiros legítimos da coroa.

A existência de um irmão adotivo do futuro Jorge VII não influiria na linha de sucessão, visto que só são considerados herdeiros aqueles que tenham laços de sangue, mas Isabel II terá recordado que ela própria só é rainha porque a única outra filha de seus pais (a já falecida princesa Margarida) também era mulher. A progressiva mudança de costumes que teria garantido a terceira posição em linha sucessória a uma eventual primogénita de William e Kate, também poderia alargar os direitos de um filho não biológico.

CASAMENTO DEPOIS DE 2030

Sem as mesmas preocupações de empregabilidade que os seus compatriotas, é provável que George Alexander Louis imite o pai, terminando a adolescência com um ano dedicado a viajar e a conhecer o Mundo, nomeadamente os países que por essa altura continuarem associados ao Reino Unido.

Depois disso, seguem-se os estudos, tal como o avô, que obteve um bacharelato em Artes na Universidade de Cambridge, com ênfase na Antropologia e Arqueologia, sendo pioneiro entre os herdeiros do trono na obtenção de um diploma universitário. Por seu lado, o pai preferiu a Universidade de St. Andrews, na Escócia, onde se dedicou ao estudo de História da Arte, após ter começado pela Geografia. Tais habilitações não tiveram a menor relevância na sua vida profissional, mas foi aí que conheceu Kate Middleton, por quem se apaixonou.

Se a história se repetir, o futuro Jorge VII poderá encontrar a mulher da sua vida no campus universitário, tirando partido do trabalho que as gerações anteriores tiveram para acabar com os casamentos arranjados entre monarquias europeias. Isabel II foi a última, ao casar-se com Filipe, membro das famílias reais da Grécia e da Dinamarca, mas estava apaixonada pelo primo afastado, também ele descendente da rainha Vitória.

Abstraindo a hipótese de o filho de William e Kate vir a ser homossexual, o que provavelmente conduziria à abdicação, escolherá a sua mulher e sofrerá ligeiras mas insistentes pressões para um casamento destinado a produzir herdeiros capazes de assegurar a continuação de uma linha de monarcas que governa as ilhas britânicas desde Guilherme, o Conquistador.

O pai casou-se aos 28 anos, o avô demorou mais um bocado, desposando Diana quando já tinha 32 anos, enquanto o bisavô tinha apenas 26 anos em 1947, casando-se com a então herdeira do trono depois de servir na Marinha do futuro sogro durante a II Guerra Mundial, enquanto os maridos das quatro irmãs combatiam no lado dos nazis. Se George cumprir a média, estará casado pouco depois de 2030.

UM PAÍS MUITO DIFERENTE

Os estrangeiros que visitam a multicultural Londres ficarão convencidos do contrário, mas o Reino Unido que está a seguir as notícias sobre o novo membro da família real não se compara aos EUA ou mesmo à França em variedade étnica: 90 por cento dos residentes são brancos (dos quais um em cada 18 vêm de outros países, como a Polónia ou até Portugal), e os indianos são o único grupo que supera a barreira do milhão.

Em meados do século, a imigração e a elevada fertilidade das asiáticas levará, segundo o estudo ‘Projeções das Populações de Minorias Étnicas no Reino Unido 2006-2056’, a que estes grupos cheguem a 27 por cento da população em 2031 e a 43 por cento em 2056.

Por altura do casamento de George Alexander Louis, haverá três milhões de indianos, dois milhões de paquistaneses, três milhões de afro-caribenhos e um milhão de chineses entre os seus futuros súbditos. Incluindo muitas jovens casadoiras, o que poderá levar à queda de um tabu maior do que a eleição de um homem negro para a Casa Branca, o que os EUA viram suceder em 2008.

Uma noiva real que não tenha a pele branca levaria a que a geração seguinte fosse mestiça – em boa verdade, testes genéticos realizados à família materna de William revelam que a bisavó da sua bisavó era meio-indiana e não arménia, como até agora se admitia –, o que tanto poderia afastar parte da população da família real como garantir que os ‘novos’ britânicos se sentiriam mais representados.

GUERRAS E CALOR

Ainda mais incerto é o papel do Reino Unido no Mundo que existirá enquanto o bebé nascido nesta semana for o príncipe de Gales. No livro ‘Os Próximos 100 Anos’, o autor norte-americano George Friedman prevê que os cada vez mais hispânicos EUA deixarão de ter os britânicos como principais aliados, dependendo da Polónia para conter ameaças russas, turcas ou japonesas. Porém, o Reino Unido poderá voltar a lutar ao lado de Washington numa III Guerra Mundial, muito limitada e extremamente tecnológica, que terminará com a vitória anglo-polaco-americana.

Aconteça isto ou não, o certo é que o Reino Unido, e toda a Europa – esteja unida ou fragmentada –, estará mais envelhecido. Prevê-se que um terço dos bebés nascidos no mesmo dia que George Alexander Louis irá festejar o 100º aniversário num país perigosamente mais quente e em que as atuais formas de aceder à informação e interagir, como os smartphones, tablets ou até os óculos da Google, parecerão tão arcaicos quanto agora achamos ser os aparelhos de rádio que anunciaram o nascimento do príncipe Carlos.

AS TRÊS GERAÇÕES DE HERDEIROS DA RAINHA ISABEL II

O filho, neto e bisneto que ocupam os primeiros lugares de sucessão da rainha de Inglaterra nasceram em conjunturas muito diferentes. Entre o pós-guerra de Carlos e o 2013 de George, o Reino Unido passou de 49,4 para 63 milhões de habitantes – e da rádio para a internet.

Carlos (14/11/1948)

Foi no Palácio de Buckingham que veio ao Mundo. Reinava o avô, Jorge VI, e o trabalhista Attlee era primeiro-ministro, Nesse ano, houve Jogos Olímpicos em Londres e criou-se o Serviço Nacional de Saúde.

William (21/6/1982)

O pai assistiu ao parto, no Hospital de St. Mary, em Londres. Isabel II ia a meio do reinado e a conservadora Margaret Thatcher era pioneira enquanto primeira-ministra. Ambas conziram a Guerra das Malvinas.

George (22/7/2013)

Permitiu a Isabel II ser a primeira rainha a ver a terceira geração desde Vitória. Nasceu no mesmo local que o pai, no ano em que Thatcher morreu, e o país é governado pelo conservador David Cameron.

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