Sem o software criado por Nuno Fonseca, a cena da grande batalha dos mortos-vivos não teria soado com a mesma emoção.
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O software criado por Nuno Fonseca usa técnicas de computação gráfica, mas aplicadas ao som, em vez de imagem. É quase como um software de animação 3D ou de efeitos visuais, mas para aquilo que não se vê mas se ouve. Vamos imaginar - propõe o criador do Sound Particles - "alguém a trabalhar no som para uma cena de uma batalha da II Guerra Mundial.
A abordagem tradicional é utilizar um programa de edição de som, e começar a adicionar manualmente diversos sons: uma explosão aqui, outra explosão acolá, uns tiros aqui, outros acolá e assim por diante. E passados dois dias de trabalho, talvez se tenha 40 ou 50 sons a tocar ao mesmo tempo.
Com o Sound Particles, em poucos minutos, consigo criar dez mil sons, espalhados por uma área equivalente a um quilómetro quadrado e obter um resultado final muito mais realista e em muito menos tempo."
Relativamente à série que, no próximo domingo, deixa órfãos em todo o Mundo - ‘Guerra dos Tronos’ - a batalha que opõe milhares e milhares de pessoas a mortos-vivos é um verdadeiro quebra-cabeças auditivo que seria verdadeiramente impossível se tivessem sido adicionados um som de cada vez.
Os emails para Paula Fairfield
A Paula Fairfield (sound designer da série) já o tinha utilizado em filmes como o ‘Mother!’ [Darren Aronofsky, 2017] ou em ‘The Mist’ [série americana de TV estreada em 2017], e um dos re-recording mixers também já conhecia o software de uma das apresentações que tínhamos feito na Sony Pictures", conta.
Para além do contacto (via email e redes sociais) com Fairfield, Fonseca esteve com parte da equipa durante uns prémios em Los Angeles, onde o software do português estava nomeado.
"Na altura, eles não podiam contar nada sobre o contexto da utilização, mas já me tinham avisado que estavam a usá-lo e que quando visse o episódio certo, saberia logo. Depois de ver o episódio da batalha, perguntei-lhes e eles confirmaram que foi um dos episódios onde usaram o Sound Particles de forma massiva", conta, satisfeito.
Embora o software possa ser utilizado em vários tipos de produção, é nas grandes produções de cinema que encontra a sua vocação. Foi usado, por exemplo, em blockbusters como ‘Aquaman’ (James Wan, 2018), ‘Batman vs Superman’ ( Zack Snyder, 2016), ‘Wonder Woman’ (Patty Jenkins, 2017) ou ‘Ready Player One’ (Steven Spielberg, 2018).
"Como é óbvio, Hollywood é um mercado sexy. Eu poderia ter uma empresa de tintas que faturasse 100 vezes mais, que não seria tão interessante para o público. No nosso caso, isso joga a nosso favor: conseguimos ir buscar melhores profissionais, que preferem trabalhar em projetos como o nosso, atrair mais facilmente investidores e como começámos a trabalhar com grandes produções de Hollywood, é mais fácil convencer novos clientes", diz Nuno Fonseca que tem como ambição fazer o mesmo tipo de revolução no áudio que a computação gráfica trouxe ao cinema de animação.
Mais que não seja pode citar George Lucas que diz que "o som é 50 por cento de um filme". Para o fundador da Sound Particles Lda, o grande problema do som "é que trabalha ao nível do subconsciente" e como tal, a maior parte das pessoas, até profissionais de cinema, acaba por não reparar no seu impacto".
Aquando do ‘Mad Max: Fury Road’ (2015), o realizador George Miller, insatisfeito, contratou Mark Mangini para refazer o trabalho de som. Durante a criação dos filmes, os estúdios fazem testes com plateias, de forma a avaliar o filme antes do lançamento: "No caso deste ‘Mad Max’, só a alteração do som fez com que a pontuação geral do público subisse cerca de 15 por cento", conta Fonseca - e nesse ano, Mangini ganhou o Óscar pelo seu trabalho.
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