A encenação de Hugo Chávez pode ter impressionado o seu povo. ‘Pátria, Socialismo ou Morte’ é uma prepotência tão destruidora quanto o são as mensagens passadas por alguns neofascistas.
Não se pode ver o Mundo a preto e branco. Nem aqui, nem no ‘país vizinho’, nem na Venezuela, nem em Cuba, nem nos Estados Unidos, nem na China, nem na Rússia.
Ponto prévio: gosto de Espanha e dos espanhóis e aprecio, sobretudo, a multiculturalidade de uma nação que ocupa 82 % da Península Ibérica, com uma população quatro vezes superior à de Portugal. Da Meseta Central aos Pirinéus; da bacia do Ebro à do Guadalquivir há toda uma variedade etnocultural que releva o primado da autonomia com as perturbações devidas do ponto de vista da coesão nacional.
A Espanha é um de dez países europeus que se rege por uma Monarquia Constitucional. Não deixa de ser curiosa a verificação da existência de um Reino no Sul da Europa, uma singularidade no ‘universo latino’ do Velho Continente. Não foi José Luís Zapatero a mandar calar Hugo Chavéz na Reunião de Cúpula Ibero-Americana, depois de um ataque violentíssimo do presidente venezuelano ao ex-primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar, a quem acusou de ser uma ‘serpente fascista’, recordando-lhe uma conversa que com ele tinha mantido na Casa Branca, em 1999.
Aznar terá dito a Chávez que a Venezuela, com o seu petróleo, poderia entrar no ‘clube’ do Primeiro Mundo. Chavéz não gostou e perguntou-lhe: ‘E que pensas tu do Haiti, da América Central e de África?’ Aznar terá sugerido, numa linguagem vernácula, que esses já passaram à história.
Juan Carlos levantou-se do seu lugar (quando Daniel Ortega falou da equipa de mafiosos que usaram a União Fenosa, empresa espanhola, para obterem lucros fáceis, em nome da ‘economia global’ e com o apoio conspirativo dos Estados Unidos) e abandonou a Reunião. Chávez afirmou que não ouviu o rei mandá-lo calar-se porque receberia o troco. O presidente venezuelano acha que Juan Carlos, ao manifestar-se como o fez, tentou explorar ‘500 anos de prepotência imperial’.
Talvez estejamos, afinal, perante prepotências várias. Quem se identifica, hoje, com ‘Pátria, Socialismo ou Morte’? Seguramente Fidel e os ventos que sopram da Nicarágua, Equador e Bolívia. O paradigma de esquerda e direita já não se usa.
O preço do petróleo faz com que Chávez subestime os cerca de 100 mil milhões de euros de investimentos espanhóis na Venezuela em 2006. Chávez sabia que ia ser ouvido no Mundo. Fez a sua campanha. Eleitoral e universal.
Com todo o respeito, prefiro o anacronismo do Reino.
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