Quando se começa a ver o genérico de ‘Coisa Ruim’, a primeira longa-metragem para cinema da dupla premiada Tiago Guedes e Frederico Serra, pressente-se… Vem aí algo de diferente. ‘Zoom in’, ‘zoom out’ entre o arvoredo e os seus galhos quebrados e gotejantes, as imagens de arranque antecipam tensão, suspense e o olhar prende-se na surpresa, seduzido pela viagem da lente ocular.
‘Coisa Ruim’ é assim. Sedutor, do princípio ao fim. Não em permanente movimento de aproximação e afastamento do objecto filmado, não. Mas constantemente a absorver-nos, a levar-nos até lá, àquela casa escondida no meio do arvoredo, às paredes que até se sentem frias, às sombras daquelas gentes do interior beirão de Seia e Torroselo, onde Tiago e Frederico filmaram sete semanas nos meses frios do fim de 2005. “Foi uma das primeiras casas que vimos quando andávamos em ‘répérage’ (pesquisa de locais)”, conta Tiago Guedes, irmão de Rodrigo Guedes de Carvalho, o jornalista da SIC que escreveu este e mais guiões para a dupla de realizadores.
“Depois de dar a volta ao País, voltámos ao ponto de partida”, lembra ainda o cineasta sobre a escolha daquela mansão antiga, envolta por “mais vegetação do que era suposto”, mas que afinal, ao desbaste das primeiras árvores, se transformou no cenário ideal para o drama daquela família urbana, vinda de Lisboa para herdar uma casa, diz-se, amaldiçoada. É este o ‘plot’ da película que marca a estreia da dupla de realizadores no cinema, depois de co-assinarem as curtas ‘O Ralo’ (1999) e ‘Acordar’ (2001) e o telefilme da SIC, ‘Alta Fidelidade’. Sozinho, Tiago fez ainda ‘Cavaleiros de Água Doce’ e ‘O Meu Sósia e Eu’.
O filme não tem sexo, mas tem muito mais. ‘Coisa Ruim’ “tem um tom negro sem ser um drama”, garante Tiago, que se interessou por “explorar os dramas emocionais daquela família”. E a mensagem foi muito bem transmitida ao elenco, escolhido por ‘casting’, que os cineastas elogiam. Dorminsky, que seleccionou a fita para abrir a competição oficial do Fantasporto, diz que a direcção de actores é “excelente”. Tiago, que assume mais naturalmente a função de director de actores do que a de realizador, “papel que se inverte várias vezes”, lisonjeia-se mas devolve o cumprimento ao elenco que integra nomes como Adriano Luz, Manuela Couto, Afonso Pimentel, Sara Carinhas. Frederico acrescenta que ele é o melhor director de actores que conhece. “Também conheço poucos”, brinca. As gargalhadas dos dois sobrepõem-se, deve ter sido assim tantas vezes no ‘set’ de filmagens, tal é o entendimento que se sente entre os dois. Complementam-se, dizem eles. E isso nota-se.
Um é de Lisboa (Frederico), tem 42 anos, e o outro (Tiago, 34 anos), do Porto. Mais do que distantes, ambos os realizadores têm um ponto forte em comum, um ‘background’ profissional – a publicidade – que, cada vez mais, parece selo de garantia de qualidade na Sétima Arte, se bem que eles contraponham. À semelhança do estreante Marco Martins (‘Alice’, 2005), também Tiago e Frederico realizaram já vários ‘clips’ e filmes publicitários e são sócios de uma produtora, a Take it Easy. Outro denominador comum: ambos fizeram ‘workshops’ de cinema em Londres e Nova Iorque.
Rodrigo Guedes de Carvalho, o argumentista, também tem lugar entre a dupla. “É como o ovo e a galinha, não sabemos bem quem vai atrás de quem mas ele interessa-se muito pelas personagens e pelos seus dramas”, enaltece o irmão. Ao ler o texto, Frederico reagiu logo pela positiva: “Arrepiei-me. Tem momentos muito bons.” Rodrigo explica o processo: “As minhas opiniões são sempre discutidas após a primeira versão do argumento. Após chegarmos a acordo, o filme está na mão dos realizadores. Acompanhei algumas filmagens, como simples visitante curioso”, resume o argumentista que está já a escrever um novo texto para o mano e o amigo, depois de ter entregue a Paulo Branco mais dois para produção – ‘Vou Morrer’ e ‘Príncipe Perfeito’.
‘Coisa Ruim’ não é um hino declarado ao terrífico mas vai abrir a competição do fantástico do Fantasporto, feito inédito para uma película portuguesa em 26 edições do certame.“Queríamos ir ao Fantas”, admite Tiago, recordando que o festival faz parte da sua adolescência e foi uma ‘escola’ de cinema, nos tempos do Porto, onde nasceu. Mas, antes de aliciarem o director do Fantas, Mário Dorminsky, tiveram que convencer o ICAM (Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimédia) a dar-lhes financiamento. “Estivemos dois anos em concurso e duas vezes quase conseguíamos”, lembra Tiago. O nome do produtor, Paulo Branco (Madragoa), acabou por lhes dar o empurrão final para arrecadarem o apoio indispensável (130 mil contos) para começarem a filmar.
Depois veio a RTP e deu mais um empurrãozinho, já que também é parceira do filme. Curiosamente, a ‘rival’ SIC acabou também por se associar, indirectamente, à promoção de ‘Coisa Ruim’, que se apresenta mundialmente no Cinema Passos Manuel, sexta-feira (24) à noite, na abertura oficial do Fantasporto. A estação de Carnaxide é patrocinadora do certame e, assim, já são dois canais a fazerem a divulgação.
Sem querer meter medo, ‘Coisa Ruim’ cria anseios… e alguns receios. No ar, paira sempre a dúvida chamando ao ‘plateau’ ambientes sombrios e soturnos dos corredores da crença em exorcismos e medos de almas que atormentam os vivos. Existem assombrações? Acreditam no exorcismo? “Acredito em acontecimentos e sensações que desafiam a percepção que temos do mundo”, diz Rodrigo. “Não acredito, mas respeito”, avança Frederico. “Queremos que o espectador não se encerre em certezas e não se defenda só na lógica da razão. Temos uma tendência muito humana de explicar tudo e rotular as coisas”, remata Tiago. No fundo, os realizadores deixam ao espectador a palavra final. “Quisemos explorar a dúvida”, frisam. E exploram-na muito bem.
- Género: Terror.
- Realização: Frederico Serra e Tiago Guedes.
- Actores: Adriano Luz, Manuela Couto, Afonso Pimentel, Sara Carinhas.
FANTASPORTO MUITO PORTUGUÊS
A 26.ª edição do Fantasporto começa e termina em português. O festival arranca oficialmente a 24 de Fevereiro com a exibição de ‘Coisa Ruim’ e encerra a 5 de Março, com uma homenagem ao cineasta Manoel de Oliveira e a exibição do seu mais recente filme, ‘O Espelho Mágico’, adaptado da obra de Agustina Bessa-Luís. O ‘Fantas’ aposta assim na cinematografia lusa e também nas curtas-metragens, com a mostra de um total de 200 películas, algumas das quais realizadas por estudantes de cinema. As novidades não se ficam por aqui e o certame dirigido por Mário Dorminsky introduziu na programação novas secções cinematográficas, como ‘Love Connection’, que aborda as perspectivas do amor. O Passos Manuel receberá, assim, obras como ‘Passion Of Life’ e ‘Love Hotel’, entre outros.
Destaque ainda para um programa que inclui várias películas com assinatura espanhola, norte-americana e japonesa. Seleccionado na lista da revista ‘Variety’ como um dos 60 festivais mais importantes do mundo, o ‘Fantas’ continua a ser um dos mais relevantes e mediáticos eventos culturais e cinéfilos de Portugal.
RODRIGO ESCREVE 'ENTRE OS DEDOS'
Ainda só está no papel, nas linhas escritas, outra vez, pelo argumentista eleito da dupla de cineastas, mas já tem nome. ‘Entre os Dedos’ é a película que se segue com assinatura de Tiago Guedes e Frederico Serra escrita por Rodrigo Guedes de Carvalho, mas a dupla não desvenda muito mais sobre o próximo trabalho que poderá estar pronto até ao final do ano. Rodrigo também não diz muito mais: “Se quisermos classificar por género, chamemos--lhe Drama.” Entretanto, está já a escrever mais um… com os mesmos destinatários.
Aprecia bom cinema. Português ainda por cima. E se gosta de histórias de arrepiar, daquelas que o mantêm preso à cadeira, do princípio ao fim.
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