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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Helena Matos: “Temos a aprender com 1976”

Historiadora está a fazer o levantamento da vida portuguesa para a série ‘Depois do Adeus’

13 de maio de 2012 às 15:00

Historiadora e jornalista, Helena Matos é consultora histórica de ‘Depois do Adeus’, série de época da RTP que aborda os anos do pós-25 de Abril e que deverá estrear em Setembro. A ficção, que sucede a ‘Conta-me como foi’, serviu para falar sobre os desafios que um projecto desta natureza coloca e sobre o significado que os anos quentes de 1975 e 76 têm ainda hoje para Portugal.

- Qual tem sido o seu papel na preparação desta série?

- Fornecer dados sobre o golpe de 25 de Novembro de 1975, bem como os horários dos supermercados, as características do boletim de vacinas; ou seja, coisas que vão do quotidiano à cronologia política.

- Como obtém esses dados?

- Tinha uma pesquisa feita porque estou a escrever um livro sobre retornados. Não sobre o que aconteceu em África, mas sobre o modo como alguém, em poucos dias, deixa o continente, onde sempre viveu, e chega a Portugal.

- Que é que isso implica?

- Saber como empacotavam as bagagens ou mandavam os carros, como era em relação ao dinheiro quando chegavam cá – naquela altura, as pessoas não puderam cambiar o dinheiro e, portanto, ele não valia de nada – a instalação em hotéis, pensões ou casas de família.

- Quais são as suas fontes?

- Principalmente, os jornais. Privilegio os que as pessoas liam. Vi mais o ‘Diário Popular’ do que o ‘Expresso’, porque tem mais coisas do dia-a-dia, tal como se alguma vez tiver de fazer uma cronologia de 2012, um dos jornais será o Correio da Manhã.

- Recorreu a testemunhos?

- Sim. É interessante ouvir os retornados dizerem que chegavam à Metrópole e as casas lhes pareciam pequenas e as pessoas tinham outro cheiro.

- Coisas que hoje nos parecem estranhas…

- Tendemos a julgar o passado com os olhos do presente. Hoje pode ser crime fumar ao pé das crianças mas, na altura, era banal, tal como sentar as crianças à frente no carro.

- Continua a surpreender-se com o que descobre?

- Há coisas de que já não me lembrava, como os cortes de electricidade. Em Junho de 76 estávamos em crise e, tal como hoje, os combustíveis e a energia tinham muito peso nas contas do País. Nesse sentido, foi decidido fazer cortes de electricidade em determinadas horas.

- Que paralelismos faz entre este período e a actualidade?

- Além da crise, que é uma constante na nossa vida, encontro um povo que, em geral, nas coisas mais correntes, não se governa nem se deixa governar. Mas um povo que para as coisas mais graves tem um extraordinário bom senso.

- A época retratada define aquilo que hoje somos?

- Sim, porque o País democrático nasce em 76, com as eleições legislativas. Foi o ano em que se assumiu que o regime político não tinha de ser perfeito, porque as utopias, em geral, acabam de uma forma muito desumana.

- Como as ditaduras?

- Exactamente. As ditaduras têm dois grandes problemas. Primeiro, partem de um princípio de perfeição, e, depois, criam uma visão a preto e branco, o que infantiliza as pessoas, que são tratadas como tontas. Hoje sabemos que os políticos têm defeitos, ainda bem que assim é.

- No entanto, o período do pós-25 de Abril é pouco falado...

- Tudo precisa de um tempo para começar a ser falado. Aconteceu o mesmo com o Estado Novo. Começou por se fazer trabalhos sobre o salazarismo, depois sobre os anos de Marcelo Caetano e algumas coisas sobre a guerra em África. Mas a época do pós-25 de Abril é tão fascinante que vai começar a haver mais coisas.

- Que ilação tirar deste período?

- Temos muito a aprender com 1975 e 1976. Acima de tudo, aprendemos a liberdade, e isso é inestimável. E aprendemos a história de sucesso de um País que conseguiu ultrapassar uma crise político-militar grave e recebeu no seu território, em plena crise económica, centenas de milhares de pessoas, com relativa paz.

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