Projetos como ‘BORA Mulheres da Coca-Cola ou os cursos de costura da Cruz Vermelha Portuguesa mostram como o empreendedorismo feminino pode transformar talento em negócio, promovendo a autonomia e a inclusão social.
12 de junho de 2026 às 10:38Através da Coca-Cola Europacific Partners (CCEP) e da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), a capacitação feminina está a criar espaços de valorização pessoal onde antes existiam barreiras. Na cozinha do projeto We Cheffes e nos cursos de costura da CVP, mulheres transformam talento e ambição em negócio, autonomia e futuro partilhado.
É neste contexto que surge a série “Humanidade em Ação”, uma iniciativa da Cruz Vermelha Portuguesa que, com empresas parceiras, em divulgação conjunta com a Medialivre, foram ao terreno mostrar o que está a ser feito em diversas causas sociais, com episódios a serem exibidos nos canais CMTV e Now. Aqui encontramos mulheres capacitadas para empreender, a fazer o que gostam e a criar a sua autonomia financeira.
'BORA Mulheres!
Por detrás do We Cheffes está o ''BORA Mulheres, programa de capacitação e mentoria para empreendedoras promovido pela Coca-Cola Europacific Partners em Portugal. Já acompanhou milhares de mulheres em diferentes estádios do percurso profissional, a partir de uma simples ideia de negócio ou da consolidação de projetos.
“O 'BORA Mulheres nasce de uma convicção muito clara da Coca-Cola Portugal, através do trabalho desenvolvido com as comunidades locais. As mulheres ainda estão a encontrar barreiras no mercado de trabalho, que se traduzem em dificuldades e diferenças”, explica Catarina Esteves, communication senior manager da Coca-Cola Europacific Partners. “Já passaram pelo programa mais de 4000 empreendedoras. É um projeto de mentoria, aceleração e capacitação. É uma forma de acelerarmos a inclusão, a autonomia financeira e também o reconhecimento social.”
Na prática, o programa combina sessões temáticas, acompanhamento personalizado e uma forte aposta na criação de redes. Trabalha a confiança, o realismo dos objetivos, a capacidade de testar e ajustar e a noção de que o fracasso parcial faz parte do processo. “Queremos que cada vez mais as mulheres possam olhar para o empreendedorismo como uma solução”, reforça Catarina Esteves.
O fermento da We Cheffes
Olivia Bourkel e Mafalda Lodewyckx passaram pelo 'BORA Mulheres no processo de criação da We Cheffes. Em conjunto, idealizaram a We Cheffes como um projeto com “comida autêntica e feita com amor por mulheres do mundo”, este foi um dos projetos vencedores da 5ª edição do programa ‘BORA Mulheres da CCEP.
Nesta empresa de catering, a gastronomia é uma ferramenta de inclusão e de empreendedorismo feminino. Além das duas fundadoras, a empresa trabalha com 15 mulheres migrantes de “vários países e origens sociais”, que partilham experiências e, juntas, oferecem um serviço único.
A We Cheffes “combina inovação gastronómica e impacto social”, reforça Olivia Bourkel. “A nossa missão é capacitar mulheres talentosas de diferentes origens, ajudando-as a construírem negócios sustentáveis que reflitam a sua paixão pela culinária. Num ambiente de apoio e flexibilidade, ajudamo-las a ganhar a independência e a confiança necessárias para prosperarem num setor no qual as mulheres imigrantes estão sub-representadas, especialmente em cargos de liderança.” O objetivo é simples de enunciar, mas complexo de concretizar ao transformar saberes informais em projetos de vida sustentáveis.
'BORA Community
Todas as participantes do 'BORA Mulheres passam a fazer parte da 'BORA Community, dedicada ao empreendedorismo feminino em Portugal. Uma rede de conexão entre empreendedoras, que facilita a partilha de novidades, oportunidades e workshops exclusivos em temáticas relevantes para quem planeia criar ou alavancar um negócio. “Aprendemos muito com todas as mentorias iniciais, mas depois criou-se um espírito de comunidade, que fica connosco”, reconhece Olivia Bourkel.
A palavra comunidade também se repete nos testemunhos de quem colabora com a We Cheffes. Na prática, significa não estar sozinha, aperfeiçoar uma receita em equipa, preparar um orçamento, idealizar uma ementa e também acreditar em conjunto que um sonho se pode tornar num negócio. As sessões de mentoria – sobre comunicação, finanças, planeamento ou gestão de tempo – convivem com momentos silenciosos de experimentação, em que cada mulher testa, ajusta e revisita sabores da infância.
Para Naima, cheffe oriunda de Marrocos, o projeto significa independência financeira: “Eu gosto porque me ajudou muito. Aprendi muitas coisas. Também me permite ganhar dinheiro e ajudar a minha família.” Ao lado, a peruana Luz acrescenta outra camada: “Tem me permitido transformar o meu gosto pela gastronomia numa forma de obtenção de rendimento e autonomia. Também me ajuda a partilhar a minha cultura, as minhas tradições, os meus conhecimentos ancestrais. E a integrar me na comunidade local, o que para mim tem sido muito significativo.”
O programa ‘Bora Mulheres da Coca-Cola tem alcance nacional
Talento e reconhecimento
Para muitas mulheres migrantes, o primeiro obstáculo não é a falta de talento, mas, sim, a ausência de reconhecimento – diplomas sem equivalência, carreiras interrompidas, redes profissionais inexistentes num novo país. Somam-se, muitas vezes, barreiras linguísticas, precariedade e responsabilidades familiares acrescidas.
“A existência de negócios como o We Cheffes é fundamental”, defende Elena Anton, gestora do programa 'BORA Mulheres no Impact Hub Lisbon, uma rede global de incubadoras, aceleradoras, espaços de coworking e organizações sem fins lucrativos fundadas e operadas localmente. “Estes negócios de impacto social atuam no cruzamento das maiores barreiras que as mulheres migrantes encontram quando chegam a outro país. Há falta de oportunidades, mas também de reconhecimento. Em contrapartida, quando existe rede, o talento deixa de estar isolado e passa a crescer com apoio, acompanhamento e oportunidades reais.”
Neste contexto, o empreendedorismo feminino assume a dupla função de ferramenta económica e de dispositivo de inclusão e integração, especialmente para quem chega de fora e procura conquistar um lugar.
Costurar vidas
A vários quilómetros de Lisboa, em Guimarães, o cenário muda, mas a lógica repete se. Numa sala da Cruz Vermelha Portuguesa, o som dominante é o zumbido cadenciado das máquinas de costura, o tecido rasgado por tesouras, o deslizar da fita métrica sobre os panos. Aqui, um curso de costura reúne mulheres que encaram esta formação como possibilidade de transformação de um gosto antigo em atividade económica. Entre moldes e linhas, também se costuram novas vidas.
A experiência de pequenos arranjos domésticos começa a ganhar estrutura profissional. “Sempre gostei de costurar. Aqui, uma pessoa começa a ter umas bases diferentes e é melhor. Temos a formadora, que nos tira as dúvidas”, conta Delfina Garcia, formanda do curso apoiado pela Cruz Vermelha Portuguesa.
Ao lado, Ana Paula Vieira, também formanda, não esconde a ambição: “Pensei em fazer uma empresa, uma coisa pequenina, só para fazer uns modelinhos. Mas como tenho uma amiga que já tem essa confeção, a ideia era fazermos umas coisinhas para vender – uns aventais, uns individuais…” O reaproveitamento de materiais mistura economia, criatividade e sustentabilidade, acrescentando um argumento contemporâneo a um saber tradicional. A colega Maria do Carmo Teixeira veste uma blusa feita a partir de um lenço que já não usava, com a ajuda da formadora. Mostra-a com orgulho.
Antes do negócio
Estas histórias – de cozinhas em Lisboa a ateliers de costura em Guimarães – têm pontos de partida diferentes, mas convergem numa ideia comum. Para estas mulheres, a autonomia começa antes de o negócio existir formalmente, com a capacitação, a confiança e o acompanhamento certo.
“Quando falamos nas mulheres, sabemos que historicamente têm menos possibilidades de emprego e até de qualificação. Ou seja, menos oportunidades”, lembra Daniela Esteves, coordenadora da Ação Social da Cruz Vermelha Portuguesa, no Porto. “Por isso, o empreendedorismo entra como uma ferramenta, não só no sentido de gerar autonomia financeira para o empoderamento, como está estudado que 90% de tudo aquilo que a mulher vai adquirir se destina a investimento no mundo familiar. Estas iniciativas impactam não só aquelas mulheres, como também o futuro de uma comunidade e de um país.”
Várias análises internacionais apontam precisamente nessa direção. Quando as mulheres dispõem de rendimento próprio e estabilidade mínima, aumentam o investimento em educação, saúde e bem-estar das crianças, gerando efeitos que se projetam a médio e longo prazo.
O empreendedorismo feminino, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, revela se assim uma das formas mais eficazes de aliar inclusão, desenvolvimentolocal e combate às desigualdades de géneroC