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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

HELENA SAMPAIO: A MULHER DA MARATONA

Em Outubro qualificou-se para Atenas mas a maratonista de Felgueiras não espera medalhas. Quer honrar ‘apenas’ o País onde nasceu há 30 anos.

09 de novembro de 2003 às 00:00

Os olhos de Helena Sampaio brilharam quando viu Carlos Lopes a correr em Los Angeles com a bandeira de Portugal. Tinha 11 anos e estava apaixonada pelo atletismo. Aos 14, já corria nas estradas de Felgueiras, a terra onde nasceu. Durante o dia, picava o ponto numa fábrica e ainda hoje seria mais uma mulher com um trabalho rotineiro e de parco salário, se não tivesse jeito para as corridas. “O meu treinador aconselhou-me a dar um salto para um clube e uma terra maior”, conta a atleta que aos 21 anos rumou para o Porto. “Foi uma mudança difícil. Larguei a família e amigos e recomecei do zero. Vinha de uma aldeia, onde tinha uma vida calma. De repente, estava num meio competitivo. Acabei também por ficar mais agressiva”, recorda.

Com a camisola do Maratona Clube de Portugal, começou a ganhar provas e a ser respeitada na modalidade. A 19 de Outubro, na Maratona de Amsterdão, e depois de se debater com duas atletas quenianas até ao quilómetro 40, Helena Sampaio cortou a meta com um avanço de 39 segundos sobre a segunda classificada, obtendo o tempo de 2.28,06 horas. “Foi uma sensação espectacular quando olhei para o relógio e vi que tinha obtido os mínimos olímpicos.”

A viagem para Atenas, no próximo Verão, será o ponto mais alto da sua carreira, mas não foi a primeira vez que a desportista se qualificou para uns Jogos Olímpicos. “Em 2000, obtive os mínimos para Sidney, mas fiz asneira.” A história conta-se em poucas palavras. A Federação Portuguesa de Atletismo proibia os atletas qualificados para Sidney de correr em provas de estrada, mas o subsídio federativo tardava. “Como tinha uma casa para pagar, arrisquei e fui correr para ganhar algum dinheiro extra”. Como castigo, ficou em Portugal. “Fui penalizada e injustiçada.”

Helena Sampaio não espera medalhas. “Carlos Lopes e Rosa Mota habituaram mal os portugueses e hoje, perante a hegemonia dos africanos, os quartos lugares já são bons resultados”. Talvez por isso, não concorde com a ideia de que o meio fundo esteja em crise. “Há uma nova geração. Nomes como Ana Dias, Marina Bastos, Mónica Rosa ou Inês Monteiro ainda vão dar que falar. Dêem-lhes tempo.”

Os seus treinos são árduos. Duas vez por dia, os portuenses podem vê-la a correr no Parque da Cidade do Porto. “Não sou obsessiva com as distâncias, mas faço em média 15 quilómetros por hora.” Sobre o facto de muitos maratonistas serem do Norte, justifica: “Somos mais raçudos. Estamos mais habituados a sofrer do que os do Sul.”

Helena é solteira e não tem filhos. Quando pode, dá um salto a uma sala de cinema, para assistir a comédias, o seu género preferido. “As gargalhadas são óptimas para descomprimir da vida dura que levo.”

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