No rescaldo da celebração dos dez anos da SIC, o humorista fala sobre a pequenez do País, a crítica televisiva e a cultura ‘pimba’. E diz que espera reformar-se dentro de 15 anos.
CM - Que análise faz do panorama televisivo actual?
HJ - O grande drama de Portugal é ter só 10 milhões de habitantes. Se tivessemos 40 milhões, como os espanhóis, era tudo mais suave. Por exemplo, num ano como este, em que o mercado publicitário está ‘constipadíssimo’, a vida é duríssima para todos os canais, inclusive para os que estão na liderança, seja a SIC ou a TVI (que neste momento está bem colocada por causa do 'Big Brother dos Famosos'). A luta é dura porque o mercado é muito pobre, e encolheu. Quando isso acontece não se pode esperar milagres. E qualquer investimento em televisão é ruinoso.
CM - Na sua opinião, não é um meio para dar dinheiro?
HJ - Deveria ser, e a SIC já deu imenso, assim como a TVI terá tido dois milhões de lucro no ano passado. Mas também acho que deixou de haver negócios fáceis. O da televisão tem uma componente de prazer muito grande, e tanto para os accionistas da SIC como da TVI deve ser uma emoção fazerem parte de um negócio tão empolgante.
CM - É uma ‘peça’ importante na engrenagem da SIC para a guerra de audiências com a TVI. Sente a pressão?
HJ - Não me considero tão decisivo. Sinto, o que já acontecia na RTP, que tenho um bocado a função de ‘bandeira’, e como tal não tenho uma responsabilidade tão gigantesca como outro produto mais popular. Mas tenho a responsabilidade de fazer bem e diferente. E essa preocupação trouxe-a para a SIC.
CM - Numa rábula da semana passada, disse que ‘mais vale uma SIC na mão que uma pimba a voar’. Há aí uma crítica implícita a uma série de programas . Aceitaria participar no 'Big Brother do Famosos', por exemplo?
HJ - Adorava. E se participasse, se calhar vinham outros famosos mais interessantes atrás. Repare que nesse facto está feita a defesa formal do programa, que eu acho uma ideia maravilhosa. O grande erro que aponto à estação onde hoje trabalho é que tiveram-no na mão e não o quiseram comprar. Esse é, para mim, o grande erro histórico da SIC; ter menosprezado essa verdadeira bomba atómica que causou uns estragos gigantescos que ainda se estão a sentir. Mas futurologia é uma coisa que não existe em televisão, e as pessoas não podiam adivinhar.
CM - Que contrapartidas exigia se entrasse naquela casa?
HJ - Vamos supor que o programa era da SIC. Exigia muito poucas, dado que consideraria trabalho puro e simples, e um desafio profissional muito original. Iria transformar aquilo em qualquer coisa de bastante interessante, porque numa situação daquelas o facto de se ter vida ajuda muito. O que aconteceu com a Cinha não é mais do que a presença de uma mulher que já tem 40 e tal anos de prática, sabe coisas, é interessante. Uma pessoa de 20 anos não pode ser interessante; pode ser uma bela cama, pode ser um óptimo namoro, pode cheirar bem, mas interessante nunca é porque não teve tempo.
CM - Pegando na idade, o 'Masterplan' recorria a pessoas mais novas. No global, sentiu-se realizado?
HJ - Senti-me realizado como peça a lutar pelo canal. Creio que cumpri muito bem a minha obrigação. Acho que o 'Masterplan' podia ir muitíssimo mais longe, e então se fosse o dos maduros ou se se fizesse o 'Masteplan de Famosos'...
CM - Até fazer o 'Masterplan', muitas pessoas não o imaginavam num programa daqueles. Acha que desiludiu alguns fãs?
HJ - Não sei. Neste momento só tenho de prestar contas a mim próprio, porque sou o meu único administrador de carreira e o meu único crítico, portanto não posso dar-me ao luxo de me tratar mal. Aceitei o desafio sabendo que corria o risco, mas com a certeza de que era algo que me apetecia e podia fazer bem. Infelizmente, por cá não há ninguém que nos leve a comprar um jornal ou a fazer uma entrevista, e que nos possa dar uma opinião profissional importante. Porque não existe, também por pobreza, essa classe em Portugal. As pessoas que escrevem sobre TV são muitas delas encantadoras mas não percebem nada do meio. Limitam-se a ver coisas e a achar que podem opinar, não fazendo ideia do que é uma estrutura destas, o que é montar um programa ou conceber uma entrevista sem perder a maioria.
CM - Então não partilha da ideia de que a televisão está a caminhar para um patamar cada vez mais baixo?
HJ - Não, de maneira nenhuma. Acontece com a televisão o mesmo que com os restaurantes. Quando apareceu a ‘fast-food’ houve gente que pensou que a boa comida estava condenada, e as coisas não são assim. Os hamburgueres são um ‘best-seller’, mas os bons restaurantes continuam a ter os seus clientes. E com a televisão há--de ser sempre assim.
CM - Tem presente algum exemplo do que acha que não deve acontecer?
HJ - No outro dia vi uma reportagem sobre pedofilia onde se ia longe demais porque se usava as imagens dos miúdos ‘embrulhados’ – foi na TVI, daí achar que essa estação ainda está na sua fase ‘pimba’. Fazer uma reportagem sobre pedofilia depois do telejornal e gozar com as próprias imagens para dar audiências não é sério, é ‘apimbalhado’. Essa lógica a SIC nunca perdeu na informação, o que é interessante.
“ A TVI TEM ZONAS MUITO APIMBALHADAS”
CM - Na programação, o Herman possui uma característica que pode ser complicada de gerir, que é ter um pé num programa como o 'Masterplan', que para todos os efeitos é bastante popular...
HJ - Mas eu sempre fui assim. Os meus primeiros êxitos tinham sempre duas leituras. O 'Masterplan' era visto por dois públicos totalmente diferentes: o popular, que só via aquilo; e o outro, que o seguia de forma diferente. O 'Big Brother' também tem essa vantagem maravilhosa. Já agora, que falo na TVI, para ser justo não posso deixar de salientar uma série de aspectos positivos. Da mesma maneira que disse que tem zonas ainda muito ‘apimbalhadas’, e outras inaceitáveis, como a cópia dos cenários da lógica Taveira/SIC, que faz parecer uma coisa de mercador de feira – dá ideia daqueles que imitam os modelos e mudam o nome de Dolce & Gabbana para Doce e Uma Cabana e depois vendem como se fosse igual –, também há vitórias muito importantes na TVI. Sobretudo na ficção nacional, que tem um cunho próprio, uma bela política, e está lá longe de ser destronada pela produção nacional da SIC.
CM - Aceitaria trabalhar na TVI?
HJ - Isso é o como perguntar a um jogador de xadrez do Benfica se aceitava um convite do Sporting. Somos profissionais e vamos para onde formos solicitados.
CM - Mesmo nos moldes que a TVI tem hoje?
HJ - Obviamente que sim. Não deixo de ser crítico de coisas da TVI, como sou de imensas coisas da SIC. Umas não as digo por cerimónia, outras por bom gosto. E outras digo. Acho que a SIC tem uma imagem de marca diferente, é um produto com uma carga invejável, que a TVI ainda não tem por ser muito popular, mas se estivessem criadas as condições iria para a TVI, como regressaria com gosto à RTP. Tudo depende de uma quantidade de coisas: estados de espírito, capacidade de trabalho. Por exemplo, estar na SIC implica um tipo de trabalho tão frenético que tenho de estar na posse das minhas faculdades (em termos de saúde) para poder continuar. Se calhar há-de haver uma altura em que me apetece fazer um tipo de trabalho diferente, que se enquadra apenas na RTP2.
CM - Já que fala nisso, que opinião tem em relação à possível extinção desse canal?
HJ - A ideia não é bem extingui-lo, acho eu, mas geri-lo de outra maneira. Mas creio que ‘quando não há dinheiro não há palhaços’. Anda-se a destruir milhões de contos a troco de nada, e pergunto: Porquê manter pomposamente mais um canal se há 40 na TV Cabo?
CM - Mas isso não faz o Estado cumprir a ideia de serviço público?!
HJ - Pode cumprir com um canal, se quiser, embora eu considere preferível dois, ou mais. Mas também acho melhor termos 100 milhões de habitantes em vez de 10. É tudo uma questão económica. Eu adorava ter um avião, mas não posso. Tinha de ser artista na América.
CM - Esta concorrência entre canais também lhe valeu alguma rivalidade no meio, como com Teresa Guilherme...
HJ - Isso não tem nada a ver com a guerra entre canais. Com a Teresa Guilherme há algo mais profundo. Aliás, a minha maior fase de mal entendidos nesse aspecto foi na RTP, quando nem sequer havia concorrência.
CM - Este é o programa que idealizou?
HJ - É o que eu gosto de fazer. Precisamos de um cenério novo com urgência porque este tem três anos. E a imagem Taveira aparece demasiadas vezes na concorrência.... Quanto ao resto, acho um belo programa, onde cabe tudo. Isso agrada-me porque faço as maiores entrevista políticas, tenho músicos convidados de excepção, da mesma maneira que para a semana, se me apetecer, tenho outra vez a Linda Reis. Eu sou assim, o programa funciona um bocado à minha imagem.
CM - Como encara as críticas dos que afirmam que fala demais e devia concentrar-se nos programas de humor?
HJ - Hoje não me incomodam porque sei de que pessoas estamos a falar. Actualmente, apetecia-me tutelar um mestrado para críticos de televisão, para lhes explicar o importante que é ter uma crítica isenta, que é algo que não existe. Às vezes, nos vários semanários, reconheço os comentários mesmo sem estarem assinados. Ou é um que tentou ter um programa e não conseguiu; ou o outro que tentou ser autor e era mau demais e tivemos de desistir; ou o que gostava de ser actor mas não pode. São sempre as razões erradas que levam aos comentários errados.
CM - Acha que é uma questão de invejas…
HJ - É uma questão de pequenez. O (Mário) Castrim uma vez foi almoçar comigo e, logo a seguir, eu era o melhor do Mundo; depois não pude ir lanchar com ele e passei a ser um péssimo actor outra vez. As coisas em Portugal funcionam a este nível. É de uma pequenez tão grande que é confrangedora.
CM - Como olha para a nova vaga de apresentadores, como por exemplo o Rui Unas? Identifica-se com eles?
HJ - Creio que quanto mais minoria é a minoria, mais fáceis as coisas se tornam, porque linguagens atrevidas são fáceis de ter. Difícil é fazê-las à noite para famílias inteiras. Eu já fui tão atrevido que cheguei a ser proscrito numa televisão em plena democracia.
CM - E hoje, voltaria a fazê-lo?
HJ - Na altura fiz conscientemente, sabendo que isso se passaria. E claro que repetiria. Mas no actual panorama isso não aconteceria, há a concorrência.
CM - Como reage quando o comum dos telespectadores olha para si e considera que vendeu a sua ideia de programa por causa de uma lógica de conteúdos?
HJ - Nunca tinha pensado nisso. Aceitar desafios profissionais não me parece que seja vender-me, porque isso tem que ver com o âmbito profissional. Quando estamos nesta profissão não podemos ter essa espécie de problemas. Se fosse ministro ou uma figura de Estado talvez pusesse essas questões...
CM - Gostava de fazer outros programas para outros públicos?
HJ - Não, não gosto de trabalhar para pouca gente. Se não, estava na SIC Radical. A dificuldade é tornar o produto o melhor possível e abrangente.
CM - Sente que, a nível dos convidados, tem uma série de ‘amarras’ para com a SIC?
HJ - Tenho entrevistado muitas pessoas que não têm nada a ver com a SIC. Tento puxar pelos produtos da SIC por uma questão de solidariedade mas, sempre que posso, tenho figuras da concorrência, que devido aos contratos, nem sempre estão disponíveis.
CM - As televisões não deviam ser mais abertas quanto a isso?
HJ - Isto é um negócio, funciona a lei do mercado.
“ERA MUITO INFELIZ”
CM - O que gostava de fazer fora da TV?
HJ - Ser infinitamente rico para não precisar de trabalhar para ganhar dinheiro e fazer só coisas que me apetecessem.
CM - Dá essa resposta há anos…
HJ - Infelizmente não tenho petróleo em Azeitão, pelo que não posso fazer isso.
CM - O dinheiro ainda é um factor essencial?
HJ - Neste momento, já não é um factor essencial para tomar nenhuma decisão na minha vida. Mas gostava de ser muito rico, para nem precisar de trabalhar por dinheiro.
CM - Há pouco tempo, Jorge Palma referiu-se a si e aos momentos em que tocaram juntos com carinho. Sente nostalgia desses tempos?
HJ - Nenhuma. Eu era infelicíssimo. Só agora, desde há cinco ou seis anos, é que sou feliz.
CM - Coincidiu com a passagem para outro canal?
HJ - Não teve que ver com isso, mas com a maneira ideal de estar na vida, que demorei um certo tempo a encontrar. Há alguns anos entrei no que considero a velocidade de cruzeiro ideal na minha vida. Sinto saudades de ter fisicamente 20 anos, mas quanto mais tempo passa, mais arrumado e consistente me sinto. Agora tenho uma vida fabulosa, só que não mostro.
CM - A que se deve esse lado reservado?
HJ - Sinto que não posso estar a ferir as pessoas com as minhas pequenas vaidades ou vitórias. É apenas pudor.
CM - Vem com a idade?
HJ - Com a experiência, sobretudo. Quando somos novos queremos mostrar as vitórias, mas a partir de certa altura é contraproducente porque estamos a magoar as pessoas que vivem mal.
CM - O Herman é um profundo conhecedor de televisão. Nos moldes como é feita hoje, ela tem ‘pernas para andar’?
HJ - Tem. Até a nível europeu é uma televisão bastante interessante. Faz-se boa ficção, bela informação.
CM - Já pensou em fazer algo fora deste meio?
HJ - Tenho o negócio dos restaurantes à parte, que é algo que me diverte, mas onde me sinto realmente bem é na TV.
CM - Espera ver o Herman SIC durar muito mais tempo?
HJ - Quando vejo o Jay Leno ou o David Letterman dá para perceber que a fórmula aguenta. Os meus programas são sempre diferentes. Têm-me como fio condutor, mas são o que a gente mete lá dentro. O programa acaba por ser um pretexto, mas se for bem produzido e realizado pode-se eternizar.
CM - Falou de apresentadores de referência. Gostava de ser comparado a algum ?
HJ - Gostava de viver nos países em que eles vivem e fazer a mesma coisa. Então podia ser comparado. Porque assim não é possível. Não se pode comparar uma loja na Avenida da Liberdade com uma na 5a Avenida. É injusto.
CM - Como é que olha para si daqui a quatro ou cinco anos?
HJ - Daqui a quatro ou cinco anos vejo tudo igual. Daqui a 14 ou 15 é que já não. Vejo-me mais tipo reformado de luxo.
CM - Não faz grandes planos para o futuro?
HJ - Não, até porque as minhas grandes prioridades não passam só pela televisão mas pelo resto da vida.
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